Escritas

Lista de Poemas

O FILHO DA GUERRA DE TODOS OS DIAS

O homem joga-se no abismo...

O homem transforma-se no abismo...

O homem foge agonicamente do abismo...

O homem é essencialmente o abismo...

O homem singra caminhos longos, oblíquos, doridos...

O homem, habitando a selva de pedra do mundo iníquo,

é ventania, alegria, caixão, senzala, poesia, fuzil,

Escravos chibatados sobre o pelourinho...

O homem, em facundo desafio,

Posta-se frontalmente ao feral tanque assassino...

O homem: sulcos, dédalos, pedras, espinhos...

O homem pugna contra os doze signos do abismo...

O homem cai e se soergue assertivo, altivo...

O homem, favelas, utopias, trampos, caatingas, Sonoras, Savanas, redemoinhos...

O homem sonha com o sol da dignidade e do altruísmo...

O homem fica preso no templo da vilania e do egoísmo...

O homem trafega pela rodovia da vida-morte em período contínuo....

O homem perde-se entre amores, saudades, vórtices, descaminhos...

O homem floresce como laranjeira, esmeralda, pendão, criptográfico pergaminho:

A certeza jazendo na vivenda do eternal exílio!

JESSé BARBOSA DE OLIVEIRA

http://palavrasdeumpoetamenor.blogspot.com/

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VENTANIAS DA MENTE

Preciso adelgaçar cometas.

Preciso nivelar-me ao celeste azul.

Preciso ler Manuel Bandeira.

Preciso ouvir As Rosas Não Falam, Free Jazz e Blues!

Preciso garimpar as incertezas da certeza.

Preciso tomar um porre de Rum.

Preciso pôr as cartas sobre a mesa.

Preciso flertar com O Bando de Teatro Olodum!

Preciso sentir a textura da tez da minha Preta.

Preciso prementemente ir á rua desnudo do habitual calandu.

Preciso assistir --- de novo --- á película O Baixio das Bestas.

Preciso pagar --- com os juros da cara --- a conta de luz!

Preciso dormir por 8 horas.

Preciso comprar os acústicos de Jorge Benjor, Seu Jorge e Paulinho da Viola.

Preciso gostar de comer chuchu e saber que não sou cult.

Preciso criar coragem para suportar o peso da minha Cruz!

Preciso encarar a barrela.

Preciso fazer 1 bilhão de aquarelas.

Preciso descobrir minhas raízes no Benin ou na Nigéria.

Preciso demonstrar mais amor pela Terra.

Preciso ser Angola, Moçambique, Sudão, Somália, Etiópia e África do Sul.

Preciso chupar acerola, umbu, cajá além de caju.

Preciso largar mão de querer rimar com o fonema e o corpo da letra U!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

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A LIRA DA HIPOTERMIA

A atmosfera fria

Prepondera

No corrente dia,

No entanto,

Os pensamentos

Não aderem

Ao império do mármore:

A bem da verdade,

São vulcânicos desertos

Do Saara e do Mojave!

A atmosfera fria

Prepondera

No corrente dia:



Penso nos entes

De antártico

Coração transformando

Mares majestosos

De candura e crisálida

Em infinitas úlceras multiplicadas

Cuja missão é criar bactérias

Quais sepulcralizam a alma.

A atmosfera fria

Prepondera

No corrente dia:

Não obstante

A brisa malina,

Os condôminos de rua

Deitam ---

Prematuramente ---

Na sepultura

Ao se tornarem

Almoço ou janta

Da nossa venerável

Sociedade fraternal,

Nobre, magnânima, humana!

A atmosfera fria

Prepondera

No corrente dia:

A tristeza gélida

Empedra a lareira

Dos solares sentimentos,

Matando os sonhos

E seus rebentos.

A atmosfera fria

Prepondera

No corrente dia:

Nada perto ou equidistante...

Nada ao longe...

Nada aquém...

Nada além

De hipotérmicos,

Decrépitos

E esqueléticos

Horizontes!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

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ELEGIA DE UM NÃO-PINTOR

Talvez eu fosse aquarela,

Mas sou apenas um tosco poeta.

Talvez estivesse em Guernica,

Mas testemunho --- todos os dias ---

Florescerem vítimas de banalizadas chacinas

No gigantesco tropical Paraíso do Pré-Sal

E das commodities agrícolas.

Talvez presenciasse

As pinceladas catárticas de Frida,

Mas meu ser se limita

A derramar copiosas lágrimas das vistas.

Talvez vivesse como um viçoso ébano

Que pisasse em sementes de café nos anos vinte ou quarenta

Do evo passado,

Mas me descubro um preto de pés pneumáticos

O qual --- no século XXI --- engendra

Versos natimortos na sua cabeça de asno.

Talvez pudesse dizer a Van Gogh

O quão cultuada e lucrativa

Tornou-se a sua Pintura Impressionista,

Mas somente consigo escrever

--- sobre a folha do caderno Tilibra ---

Letras de aparência carrancuda,

Abjeta: dantesca grafia!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

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COMEDORES DE SOBRAS

No penúltimo halo da antemanhã,

Pessoas saem de seu humilde viveiro

Para buscar o combustível do corpo

Em um quase longínquo desterro.

E, ao chegar a seu destino,

A feira,

Esperam pacientemente

O ocaso da efervescência

Da harmonia desarmônica

Dos sóis de quem vende e de quem compra.

Então, quando advém a hora ansiada,

Afluem sôfregas ao encontro do tapete

De frutas, legumes e verduras

Que cobre o chão

Onde, sob os afagos rudes do dia-a-dia,

Rodas, sapatos, pés desnudos ou de sandálias

Apressada e inescrupulosamente pisam.



Ah, e como a fome delas

É canina e ao mesmo tempo conformista:

Um ancião desempregado

Amaina o vácuo em sua barriga

Com uma suculenta manga dormida.

Ah, quando alguém se depara

Com a horrenda fronte da fome

------ Sentada no trono de sua opulência ferina ------

Deslinda que o nojo é luxo;

Não uma alameda a ser seguida.

Algumas, ao regressar a seu ninho,

Comutam refugo em lucro:

O que na feira era lixo;

Na carente vila de casebres

É auspicioso fruto rentável, celeste, divino.

No entanto, para a hoste de grisalhas

Barbas engravatadas e garbosas,

Este paraíso da lídima e visceral miséria

É nada mais que um moribundo resquício

De seu passado sem rosas e azaleias.

Não, mas estas pessoas:

Estas pessoas sabem

Que a miséria cintila até o ponto

Em que assoma a dor nas vistas;

Que ela é viva, concreta, fenece, fere,

Queima e alucina.

E ela o faz de inúmeras maneiras:

Maneiras que a mais poderosa verve

Nunca sequer imagina.

Sim, todavia alheias aos mais atrozes sofismas,

Elas prosseguem crentes na vida:

Sempre a segurar a ponta do rabo

Daquilo que creem ser a esperança,

Apesar do crepúsculo, das mazelas,

Das chagas em abundância,

Da dor, da amargura e da desabonança!

Enfim, elas prosseguem,

Mesmo com o mar infinito de desamor,

De inclemência, da ausência de ternura

E do culto da sentimental distância.

Sim, estas belas pessoas continuam a hastear,

Embora não saibam,

O estandarte do vislumbre de uma vindoura era magnânima.

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

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TORRECIALMENTE

A chuva molha ácida

A minha basáltica cara.

A chuva carboniza ávida

Todo o meu lirismo-crisálida.

A chuva á maneira incendiária

É uma navalha que mata e retalha

A medula dos sentidos da minha verve magmática.

A chuva, todavia,

Embala a esperança

Que pujantemente palpita

Nos corações das sertanejas almas,

Fazendo da terra ressequida, inexoravelmente devastada

Infinitos reinos de cristalina água:

Contínua florescência majestática

Das cataratas do Iguaçu e do Niágara!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

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ÁS PORTAS DA PSICODELIA POÉTICA

Ando comendo água pela vastidão dos bares da mente.

Ando zarpando pelo Atlântico da memória náufraga, dolente e incontinenti!

Ando constantemente prenhe de paisagens

Pululantes e sôfregas por gente.

Ah,

Como eu queria

Que soubéssemos

Ser o errático bólide do córrego infrene:

Conhecendo o sentido de se estar

Com a planta dos pés na terra;

Levados pelo remanso

De se estar plenamente

Ao sabor do ar livre;

Dispostos a polenizar a matéria

Do desconhecido que

--- á nossa frente ---

Placidamente fica á espera.

Ando sob o efeito

Da alterosa poeira,

Deixada pela energia cinética das ideias

Quais rebentam dos pensamentos quânticos:

Olhar além da gravidade,

Cujo códice de leis nos circunscreve e rege;

Mergulhar no infinito oceano

De mundos paralelos,

Fervilhando nos átomos

Da nossa pele e osso;

Flutuar sobre a onipresente

Neblina da estupradora Tirania,

Juntando-me ás Estrelas

Que formem a Luz da Chama Coletiva

Para derrotarmos a pérfida Realeza da Hipocrisia

E parirmos --- finalmente ---

O Reino da Pax-Poesia.

Ah, que temeridade que digo:

A bem da verdade,

Estou comendo água demais por dias a fio!

JESSé BARBOSA DE OLIVEIRA

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O TOM MAIOR DO DIVAGAR

Penso com fôlego, sem fôlego:

A mente mastiga a frase

Poder ao Povo,

E não consigo tornar exequível o sonho.

A mente vaga errante, errática

Por descampados, vácuos e reinos da impotência:

Lugares onde a miséria humana

Faz-se a eterna etérea presença!

Cavalga-me pelas pradarias da verve

A voz de Renato cantando

Vento no Litoral,

Enquanto a voz de Cazuza,

Buscando agônica

A ideologia perdida,

Adormece nas asas

Da sua precoce supernova afinal.

Ah, é quando o ladrar pressuroso

Dos cachorros expulsa

A minha consciência

Da labiríntica viagem --- até então ---

Á margem do taciturno sabor do pouso

Sobre o solo da gravitacional realidade.

Enfim sinto passear,

Pela rodovia da boca,

O antigo gosto da vida-normalidade;

Entretanto, para não deixar esta aventura

Ao bel-prazer de uma página em branco,

Procuro a flor da catarse,

Que germina e desabrocha

Como um poema prolixo, insano:

Facunda topografia do absurdo humano!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

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SÍLABAS DE ESCOMBROS

Miséria ano após ano anulando-nos:

Ria, mira;

Séria, mera;

P-MISERANDOS!

Indústria que se enriquece ao sol dos filhos da magna carência:

Dura, instrua;

Esquecer, doer, durma;

Lufada de ar frio que a estrela ígnea não esquenta nunca.

Fugaz oceano de alegria e rio eterno de tristeza que nos cala:

Radiosa face, fome, falta;

Esmola-Escola-Anuência-Máquina;

Sem-Terra, Sem-Teto, Sem-Aurora, Sem-Nada;

MAR-DE-GENTE-TRISTONHA-NO-JARDIM-E-EM-CASA!

Carcomida casta que lavra a seara de Garanhuns:

Carmo, caco, cava, cova;

Manada que acorda com os galos ao nascer d'aurora.

Comida comendo nenhuma coisa que se valha:

Que come mesmo é nada!

Glebas, Sáfaras, Estilhaços, Estrados, Pratos, Agros, Labuta;

Grilhões, Gritos, Cactos, estertores, ultrajes, loucura;

Grilhões, Luares, Sonhos, Fé, Romeiros, Procura;

Grilhões, Sertões, Profusa água esconsa, Miraculosa chuva;

Grilhões, Sorrisos rurais, Sofreres faciais, Perpétua luta!

Sim, é a Seca que molda, marca, mata, enxovalha, flagela, Inunda...

Sim, é a Seca que se faz a edaz comensal, a insaciável vampira,

A carnívora planta...

Sim, é a Seca, é aquela com a qual se lucra a cúpula dos Sanguessugas...

Sim, é a Seca quem fala, quem manda e desmanda...

Sim, é a Seca que se quer:

Quer que se traduza. Traduza-a em disformes caminhos e Estradas. Traduza-a em disformes frases, orações e

Sintaxes. Traduza-a em plenos coloquialismos, línguas

Semi-padrões, a forma culta!

Finalmente, traduza-a na intradução da tenacidade

Destas pessoas que, ao lançar seus olhos ao céu,

Sempre veem um arco-íris dar-lhes em retribuição

Uma gargalhada de esperança que semeie aquele

Antigo provérbio no ressequido chão e

Diga a estes que dias melhores certamente virão.

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

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ENTRE ALGUM LUGAR(ODE A WALLY SALOMÃO)



Vérvico galopar
Entre o poroso e o hermético:
Sua mente flui, reflui
Pelas alamedas, ribanceiras
Cordilheiras do Clássico,
Do Moderno e pare, assim,
Um Autêntico Contemporâneo


Fazer Poético
Cosmopolita, Latinoamericano,
Brasileiro, Nordestino, Baiano,
Plenitude do Universo retroagindo-se e se açambarcando!


Seu verso cavalga
Pela estrada da reflexiva,
Filosófica, sonora,
Jocosa, prosódica,
Culta, dionisíaca,
Difusa, diáfana,
Ferina, aquática, sábia,
Copiosa, prolífica, ígnea,
Reta,
Obliqua,
Acuidosa,
Expedita,
Gostosa,
Dúctil,
Livre,
Liberta,
Libertina,
Geral Geleia,
Gelatina,
Eclética,
Ladina Metalinguagem.


Seu poetar codifica e decodifica
A Metalinguagem.
Seu poetar
Penetra e ejacula a Metalinguagem.

Seu poetar
É a Metalinguagem
Que vocifera
Contra a lepra qual acomete e devassa a emoção
E contra o vírus
Da hipocrisia, da miséria, da vácua poetização!


Seu poetar
É a Metalinguagem
Que afaga, fecunda e soca
A janela da intimidade:
Expondo eloquentes aquarelas
Da introspectiva realidade.

Seu poetar
É a Metalinguagem
Que rompe e carcome
O indestrutível cadeado
Das senzalas da Palavra.


Seu poetar
É a Metalinguagem
Que descabaça
O vapor barato

Pois o falo que a aparelha
É verbo nascido
Do ventre do fogo e do aço.

Seu poetar
Alimenta-se
Da molécula
Que fabrica
A Metalinguagem:

Ele bebe a água da Metalinguagem.
Ele come a carne da Metalinguagem.
Ele assume a pelagem e a identidade da Metalinguagem.
Ele é a própria Metalinguagem, na verdade!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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Comentários (1)

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Lelê
Lelê
2022-01-23

Não concigo decorar.........