Lista de Poemas
No tempo da minha infância
Brincávamos descalços na rua
Rua de terra empoeirada
Mas que era a alegria da molecada
No tempo da minha infância
Os brinquedos eram fabricados
E sempre compartilhados
Quando ganhávamos alguma coisa
Era motivo de festa na calçada
Reuníamo-nos ao final da tarde
Depois da escola e juntos
Íamos descobrindo a novidade
As mães sempre gritando e ralhando
Chamando para dentro
Apontando o dedo e dizendo:
- Ah menino vou te dar uma sova
Se você não entrar correndo.
Mas no tempo da minha infância
Podíamos ficar na rua
Fazer estripulias e macaquices
Ao final de uma bronca vinha sempre
Um belo pedaço de bolo que fora preparado,
Ao longo do dia, com o máximo carinho
No tempo da minha infância
Dizia-se obrigado, com licença, desculpe...
Jamais interrompíamos a conversa
Dos mais velhos e ai se o fizéssemos
No tempo da minha infância
Corríamos debaixo da chuva,
Brincávamos de pique esconde,
Queimada, amarelinha, bilboquê, passa o anel,
E tantos outros...
Nas noites quentes e de lua cheia
Tinha sempre alguém contando história
E disputávamos quem lia mais rápido.
Quantos livros fizeram parte
Do tempo da minha infância...
Hoje o tempo já vai longe
E as lembranças, sempre saudosistas,
São memórias desse tempo de minha infância
Quando a idade não recobria de marcas
As belas faces de meus pais
nunca se pensava a vida sem eles
Hoje não há mais infância
Apenas saudade e a certeza
Que o corpo parte,
Mas a alma será para sempre eterna
Como eternas serão nossas tardes
Iluminadas de laranja e perfumadas
De esperanças.
Lindo é quando amamos alguém
Lindo é quando amamos alguém
E mesmo sabendo que jamais iremos tê-lo
Lançamos a ele todo o nosso amor
Em forma de gotas de desejo
Desejo de vida longa e prazerosa
Desejo de felicidade infinita
Desejo de paz aonde quer que vá
Lindo é quando amamos alguém
E mesmo na ausência estará
Para sempre presente
Na memória de momentos
Na lembrança de sensações
Nos sorrisos sinceros
Nas palavras que nunca foram ditas
Lindo é quando amamos alguém
Lua...
Selene, Diana, Sin, Cairê
Quantos nomes já deram a você
Deusa de infinita beleza
Assim como sereia
Usa seu brilho para nos inebriar
Eu sou como tuas fases
Às vezes quero me revelar
Às vezes sozinha quero estar
E você consegue me dominar
Meu corpo sofre toda a transformação
O cheiro a sedução
E como animal selvagem no cio
Sou como um vulcão
Caço na noite como uma loba
E sorvo cada gota de excitação
Sou filha de ti, oh lua
E como tua
Na cheia pareço nua
Morte
Ontem eu morri
Era uma morte anunciada
O dia despontara com nuvens
Negras no horizonte
Os gritos em forma de canto
Dos agourentos pássaros
Faziam se ouvir a distância
Cambaleei até o chão que
De tão frio me despertou
Ergui a face rumo às nesgas de sol
Na tentativa inútil
De sua clemência
Refiz os últimos momentos
As últimas horas
Engoli as lágrimas como
Amargo café da manhã
Contei histórias
Contei memórias
Apaguei as mágoas
Com a borracha da certeza
Não me arrependi de nada
As últimas horas encontraram-me
Despida no canto vazio da sala
Não havia bagagem para minha partida
Da mesma forma que cheguei um dia
Agora conscientemente partiria
Estranhamente alguns sons
Chegaram para minha despedida
O choro tantas vezes guardado
A gargalhada dos momentos leves
Os ritmos lentos, porém precisos
Da vida que quis ter
Vi se apagarem as luzes
E o corpo ora emprestado
Adormecido ao pé da cama
Sem cansaço ou tristeza
Ontem eu morri e
E nessas primeiras horas
Banhadas de róseos matizes
Milagrosamente renasci!
#daalmaparaaescrita
Mulher...
É muito triste uma mulher sem brilho nos olhos
Sem o sorriso que brota na alma
E irradia por todo seu ser
Uma mulher precisa de leveza
De suavidade no seu caminhar
Precisa ter consciência de sua existência
Precisa acreditar na sua essência
Mulher é presente de Deus à Terra
É o diamante mais raro
É a flor mais bela
Mulher precisa vestir-se de doçura
Mesmo que os olhos chorem
É na sua alma que as lágrimas
São apenas água que cura
Que cicatriza as mágoas
Que purifica e edifica os sonhos
Mulher precisa de desejo
E sentir-se desejada
Mulher precisa amar-se primeiro
Para doar seu amor depois
E não a qualquer um,
Mas aquele que lhe faça sorrir
Sem motivo algum
Que é amigo, companheiro
Que faz seu corpo arrepiar-se por inteiro
Mulher que traz o sorriso na alma
Transforma tudo ao seu redor
Pois é equilíbrio e calma
Sabiá
Seu canto triste e melodioso
Vem nas ondas me mostrar
Que saudade quando doida
Só faz a gente chorar
Canta de lá o sabiá
Canta aqui o meu destila
Juntos nessa saudade chorosa
Que faz esse caboclo cantar
Nas tardes que alaranjam seu olhar
No coração apertado de tanto amar
Canta de lá meu sabiá
Canto eu cá para te acordar
Canta sabiá
Encanta meu pesar.
N[amor]ado
N[amor]ado
Um mergulho profundo
Nesse universo mágico
Do primeiro encantamento
Nadar nas águas calmas
Desse ser fantasiado
Na[mora]do
Abrigar-se da realidade
Adormecendo nos braços de Eros
E sob a mistificação amorosa
Cair no profundo sono criado
N[amor]ado
Sentimento alado
Que pincela de euforia
E transforma tudo em alegria
N...infinitamente natural
Amor ... que transcende o real
Na busca infinita do universal
Ado... ecer quando já não sou eu
Mas a parte do outro que me consome
Na[mora]do
Namoro o amor que mora dentro de mim
Mulher
Quando um corpo feminino é violentado brutalmente
É certeza que falta humanidade numa sociedade
Viciada, hipócrita e que se safa impunemente
Homens que representam a podridão
O descaso, o desrespeito, o esvaziamento
Porque se sentem no direito de machucar
Denegrir, ofender e humilhar
Seres desprezíveis que caminham livremente
Assediam, "brincam", diminuem, batem
E consideram normal, porque são homens
São miseráveis escrotos, débeis criaturas
Habitando um corpo racionalizado
Agindo como bicho irracional
Não é o que vestimos, dizemos, fazemos
Não é o meu comportamento que dá permissão
O NÃO é imperativo sempre
O que uma mulher é
Homem nenhum tira
Mesmo machucada, humilhada
Consegue ser muito mais forte
Do que qualquer homem
Talvez por isso estejam despertando
Tanto medo e insegurança
Em uma grande parcela masculina
Que ao não reconhecer seu empoderamento
Buscam através da crueldade seu desmerecimento
É preciso viver bem na diversidade
Não existe melhor ou pior, existe o diferente
Homens e mulheres, juntos, com direitos iguais
Livres para serem o que desejarem
Para ir e vir como quiserem
Não há perdão para a desrazão
Uma sociedade humana e decente
Só se fará através da educação
Silêncio
E de nós dois sobrou apenas o silêncio
Frio e cinzento
Do que outrora chamei sentimento
Resta apenas reminiscências
Foi resposta dada ao que nunca existiu
Tão pouco ao que se desejou
Só silêncio
Ou momentos que se fingiu
Resta-me agora palavras soltas
Olhar perdido, coração desiludido
Foi meu o que de meu se plantou
Agora é só terreno vazio
Empoeirado de tempo
Aguardando que outras sementes
Ressurjam nesse lugar e frutifique
Se de nós dois hoje apenas árvore seca
Que amanhã o broto seja viçoso
Sem quedar-se esperançoso
A única imagem que quero levar comigo

Foto: Mauro Marques
A única imagem que quero levar comigo
Quando da minha morte
É esse reflexo no espelho
Esse olhar profundo
Que demorou tanto à ser sustentado
É essa imagem sem cortes
Sem manipulação
Apenas a crueza de
Se permitir pela primeira vez
Olhar sem julgamento
Sem cobrança
Olhar com ternura
O que nunca se permitiu ver
Aceitar-se... perdoar-se...
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