Lista de Poemas
Caminhante
São dias, hoje, distantes
aqueles os quais vivi
como os flâneurs¹, errante,
na cidade em que nasci.
De poucas coisas me lembro
desse povo que fui membro,
mas é difícil esquecer
os olhares perpetrados²
por juízos antolhados³
mirando me envilecer⁴.
Do centro aos arrabaldes⁵
vi na faina⁶ desse povo,
sob o sol e tempestades,
a busca por um renovo.
Um anseio por mudança,
próprio da esperança,
mas não para o bem fazer.
Era algo de vilania,
típico da tirania
desejosa pelo poder.
- Ocorreu-me uma certa vez,
perambulando as ruas
sem pressa e sem rapidez,
pela tarde, lá pras duas,
entrar em uma boa loja
e vê que algo enoja
aos transeuntes do local.
- Era a minha presença
sem real anuência
dos guardiões da moral.
O meu corpo foi medido
dos pés até a cabeça,
como para ser vendido
a quem preço ofereça.
Um animal em exposição
sujeito a torpe visão
dos que atribuem meu valor
não pelo ser vivo que sou,
mas pelo que se formulou
dos corpos o exterior.
- No mundo do atacado
em que nada é pessoal,
fui como todos, taxado,
por um contexto social.
Eu não era mais um eu,
sim algo que se escreveu.
Não vêem como pessoa
A mim. Sou tipo um monstro
E nada do que demonstro
Tornam a mim coisa boa.
- “Do mal representante
Meu destino é a morte
E desse pesar tocante
Nem me liberta a sorte.
Eu já vim ao mundo assim
E o serei até o fim”.
- O único erro crasso⁷
dos meus opositores
é que dos meus valores
eu jamais deles desfaço.
Essa falta de verdade
Nesse ar condescendente
Torna toda essa gente
Contra a autenticidade.
- Na terra do nevoeiro,
de íncola⁸, estrangeiro
é o como sou medido,
nem pelos meus ancestrais,
in memoriam, sou jamais
nessa terra fria querido.
- Sentei-me e tomei um chá.
- Nesta terra me formei
sem muitas chances ter, quiçá
as condições que sonhei,
mas hoje em retrospecto
vejo todo meu trajecto
e entendo o que passei,
não eram simples avenidas
eram lições adquiridas
dos povos por onde andei...
Aprendi a valorizar
tudo que realmente sou
assim como em paz amar
aqueles que me magoou.
Nunca que eu saberia
a diferença que havia
em mim, sem que por eles não
o fosse. Por isso feliz
afinco minha sã raiz
nas profundezas desse chão
Tornando-me estandarte
do ideário humano
para conquistar destarte
o delírio insano
de que todo diferente
não tem direitos de gente
e sempre são ameaça.
Onde eu andar, levarei
esse saber, tanto ao rei
como aos jovens na praça!
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Amazônia
O flagelo que aflige o meu povo
com dores excruciantes e asfixia,
é algo com o qual eu me comovo.
Não suporto mais esta pandemia.
Quero a felicidade de um dia novo,
mas sou impedido pela hipocrisia
daqueles que se dizem um renovo,
mas são representantes da vil tirania.
Para eles nenhum tipo de evidência
encontrada pelos esforços da ciência
parece fazer algum sentido ou importar.
Governam com maestria na incompetência
nos fazendo viver uma ironia, uma incongruência:
“O pulmão do mundo não consegue respirar”.
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Noite Outonal
O azul desvanece no horizonte
e surgem rúbidos¹ raios solares
na imensidão inóspita dos ares
colorindo tudo que estou defronte
com as purpúreas cores do outono.
Solitário, em agro² abandono,
vejo brilhos luminosos nas alturas
e fico a contemplar, por alvedrio³,
a temporã⁴ chegada dum cruel frio,
juntamente com nuvens muito escuras.
Anoitece e levanto as minhas mãos
ao céu, numa tentativa de tocar
as longínquas estrelas nos espaços vãos
por onde se estendem luzes a brilhar
e assim tentar abraçar a mudança
dos astros celestes como uma dança,
que num sutil movimento, traz o longe
para perto, indo em gestos e passos
aos poucos conquistando os espaços
imanes⁵ da minha solidão de monge.
E nessa minha divagação imota⁶
vejo na terra como do céu reflexos
estendidos sob uma área remota,
fazendo das estrelas pontos conexos
com um volume de matéria sombria
que os humanos tornaram moradia
para salvarem a si e aos filhos
das fortes intempéries da natureza
que preenchem a vida com incertezas,
por ameaçar tirar dela os trilhos.
Contudo, ao observar com atenção
como esse fenômeno se comporta,
percebo uma paradoxal relação
que minha mente erma⁷ não suporta:
"Diferente das estrelas que parecem
perto, mas muito distante resplandecem,
as casas embora estejam contíguas⁸
possuem longitudes intransponíveis
estradada por tijolos invisíveis
e por concreto de proporções exíguas⁹".
Através dessa fenda, dessa vacância¹⁰,
não me são evidentes os obstáculos
para transladar tão ínfima distância
que há entre tais nexos habitáculos.
Não havia nenhum tipo de porfia¹¹
para justificar símil¹² apatia,
e é insabido¹³ outras desavenças
que forneçam alguma elucidação
para uma convivência sem união
entre seres em que não há diferenças.
Como um testigo¹⁴ de pasmado¹⁵ cariz¹⁶
fiquei ante tais paradoxais asserções¹⁷
que me fizeram da vida um aprendiz
por tornarem perceptíveis as aflições
de residir nesse planeta, sozinho,
mesmo com alguém do lado, um vizinho.
Sem vãs pretensões de encontrar um fanal¹⁸.
Parti em direção aquele meu lugar,
a minha morada, o meu humilde lar,
divagando só, nesta Noite Outonal.
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