Noite Outonal

O azul desvanece no horizonte
e surgem rúbidos¹ raios solares
na imensidão inóspita dos ares
colorindo tudo que estou defronte
com as purpúreas cores do outono.
Solitário, em agro² abandono,
vejo brilhos luminosos nas alturas
e fico a contemplar, por alvedrio³,
a temporã⁴ chegada dum cruel frio,
juntamente com nuvens muito escuras.
 
Anoitece e levanto as minhas mãos
ao céu, numa tentativa de tocar
as longínquas estrelas nos espaços vãos
por onde se estendem luzes a brilhar
e assim tentar abraçar a mudança
dos astros celestes como uma dança,
que num sutil movimento, traz o longe
para perto, indo em gestos e passos
aos poucos conquistando os espaços
imanes⁵ da minha solidão de monge.
 
E nessa minha divagação imota⁶
vejo na terra como do céu reflexos 
estendidos sob uma área remota,
fazendo das estrelas pontos conexos
com um volume de matéria sombria
que os humanos tornaram moradia
para salvarem a si e aos filhos
das fortes intempéries da natureza
que preenchem a vida com incertezas,
por ameaçar tirar dela os trilhos.
 
Contudo, ao observar com atenção
como esse fenômeno se comporta,
percebo uma paradoxal relação
que minha mente erma⁷ não suporta:
"Diferente das estrelas que parecem
perto, mas muito distante resplandecem,
as casas embora estejam contíguas⁸
possuem longitudes intransponíveis
estradada por tijolos invisíveis
e por concreto de proporções exíguas⁹".

Através dessa fenda, dessa vacância¹⁰,
não me são evidentes os obstáculos
para transladar tão ínfima distância
que há entre tais nexos habitáculos.
Não havia nenhum tipo de porfia¹¹
para justificar símil¹² apatia,
e é insabido¹³ outras desavenças
que forneçam alguma elucidação
para uma convivência sem união
entre seres em que não há diferenças.
 
Como um testigo¹⁴ de pasmado¹⁵ cariz¹⁶
fiquei ante tais paradoxais asserções¹⁷
que me fizeram da vida um aprendiz
por tornarem perceptíveis as aflições
de residir nesse planeta, sozinho,
mesmo com alguém do lado, um vizinho.
Sem vãs pretensões de encontrar um fanal¹⁸.
Parti em direção aquele meu lugar,
a minha morada, o meu humilde lar,
divagando só, nesta Noite Outonal.
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