Lista de Poemas

A Vertigem

Sofro uma vertigem sincóptica
Ao contemplar a natureza
Da tua feérica beleza
Oh! Criatura hipnótica.

A tua rosicler face gótica
É um engodo de singeleza
Que dissimula sua cruel frieza
De besta fera robótica

Que me deixa paralisado
Como um ébrio extasiado
Pensativo num gélido entardecer:

“Por que tu estás distante
Do meu abraço amante
Que anseia nos aquecer?”
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Dualidade

O meu corpo frágil, inerme,
Que herdei dos meus ancestrais
Que foram ferozes animais,
Sucumbe até mesmo ante um germe.

Dentro e fora da minha epiderme
Há uma pletora de sinais
Que nem com produtos medicinais
Consigo me defender de um verme.

Contudo, esse meu estado de vulnerabilidade
Não é um estado de decadência,
Mas uma afirmação da minha humanidade.

Com isso, tenho plena consciência
Que, a despeito de toda fragilidade,
Sou uma maravilha da existência!
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A beleza da Vida

Nas imensidões astronômicas,
poucos são os planetas
propícios à eclosão de gametas
com complexas estruturas atômicas.

Todas as variações cromossômicas,
conhecidas, aparecem em silhuetas
imperceptíveis aos não estetas
das maravilhas anatômicas.

Que seguem lindos padrões,
evolutivamente selecionados
das miríades de possíveis mutações.
 
As quais por gerações se refizeram
em detalhes finamente ajustados
E, hoje, beleza magistral exuberam.
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Paradoxo substancial

A constatação da minha inscícia
ante a plenitude de luminância
do Cosmo em completa exuberância
aflige-me como perversa sevícia.
 
A cada estrela que tenho notícia,
reconheço a minha irrelevância
de matéria bariônica, substância,
exterminável sem laivos de nequícia.
 
No entanto, exulto de alegria
por ser partícipe na epifania
do surgimento da vida planetária.
 
Em que cada molécula solitária
aglutinou, mudando sua essência;
E hoje, contém do Cosmo consciência.
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As três dimensões do Sentido

Se a vida não lhe parece fazer sentido
Saiba que assim o é, pois o deveria ser.
Não há nenhum roteiro a ser seguido,
Tua própria história tu deves escrever.
 
Se não valoras o que tens sentido
Desprezando todo o teu querer,
Vais viver do mundo escondido
E seus significados nunca poderá entender.
 
A vida é bela e vale a pena ser vivida
Não desista, nem reclames
Por mais que pareça estar ruída
 
A tua história não está concluída.
Erga-te e o teu percurso reprogrames,
Que verás o quão ainda pode ser divertida, a vida!
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Amazônia

O flagelo que aflige o meu povo
com dores excruciantes e asfixia,
é algo com o qual eu me comovo.
Não suporto mais esta pandemia.

Quero a felicidade de um dia novo,
mas sou impedido pela hipocrisia
daqueles que se dizem um renovo,
mas são representantes da vil tirania.

Para eles nenhum tipo de evidência
encontrada pelos esforços da ciência
parece fazer algum sentido ou importar.

Governam com maestria na incompetência
nos fazendo viver uma ironia, uma incongruência:
“O pulmão do mundo não consegue respirar”.
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Jornada Cósmica

Quando eu ligava as estrelas com pontos
Garatujando no céu sonhos e devaneios
Que se traduziam em sublimes contos
Onde eu podia expressar os meus anseios
 
Eu não imaginava quantos confrontos,
Quantas batalhas e quantos bombardeios
Eu teria que enfrentar sem descontos
Para garantir da sobrevivência, os meios.
 
Me deixei iludir pelo brilho das estrelas
E me que esqueci que o espaço é escuro,
É frio e é solitário. A definição de inseguro. 
 
Hoje, no entanto, eu ainda não fechei as minhas janelas,
Pois embora viver neste Universo seja algo obscuro,
Sonhar com as estrelas me direciona para o futuro.
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Caminhando no Escuro

Em uma noite fria
uma fogueira estava a queimar.
Este fogo ardia numa caverna
que alguém as paredes começou arranhar.
 
Aqueles riscos e rabiscos
formas eternas começaram nas rochas deixar.
Insígnias das coisas e seres
que aquele ser impressionado que as via
queria de alguma forma demonstrar.
 
Imprimir o que impressiona.
Exaurir o peso que sob os ombros pressiona.
Fixar o passageiro.
Lembrar o esquecido.
 
De lá a cá
muitos  anos se passou.
Nos movimentos da dança entre a Terra e o Sol,
esse passo continuou.
 
Eu homem numa Selva de Pedra estou.
A porta da minha casa não possui mais seres
que sobre a minha carne deseja os dentes amolar.
Pior!! Aqueles que perto estão
são os que querem me devorar.
 
O que dizer?
O que contar?
Se dentro de uma Selva de Pedra
não há coisas firmes e robustas
as quais eu possa me expressar.
 
O que sobra a mim
é o sangue das árvores.
Frágil, maleável e marcado,
assim como eu.
 
A minha caverna na Selva de Pedra
parece me isolar, proteger e guardar.
Mas ela não me deixa alheio
aos seres que ao redor estão a perambular.
Será que como os meus ancestrais, eu devia com
tais seres me importar?
 
Por que ter o peso deles em mim?
Ter suas imagens fixas em minha mente?
Lembrar sempre de suas maneiras de agir ao alvorecer?
Pensar em algo para com eles fazer?
 
Com isso eu quero o poder do caçador?
A glória do guerreiro?
A honra do Líder?
Os recursos do vencedor?
 
O que do mundo importei pra mim,
é realmente o que me importa?
Será que importa exportar o que importado foi?
A quem de interesse será o que há em mim?
A você? Aos meus pais? Meus irmãos e familiares?
Aos amigos, amantes, vizinhos e viajantes?
Não importa.
 
Questões e pensamentos,
Arrazoações dos sentimentos.
Tudo para manifestar, por riscos e rabiscos,
eletrônicos, as coisas que estão a mim assustar.
 
O que seria viver se eu não me importasse?
Se, as experiências que vivo não tivessem nenhum valor?
Se, as pessoas que estão ao meu redor fossem vistas como um nada,
um ser outro que não eu?
Eu simplesmente as Mataria? Escravizaria? Exterminaria?
 
No baile galáctico, onde a terra e o Sol brincam,
os homens essas questões tiveram que enfrentar.
Muitos tropeçaram nos passos,
outros, poucos, um show a humanidade vieram dar.
 
Nessa luta da sobrevivência, dessa guerra travada.
Dos homens contra si mesmos, das almas cansadas.
Muito sofrimento foi gerado e vidas são despedaçadas.
 
Mas mesmo em tal guerra há compasso,
há calor nos choques, ouvindo-se
assim algo como um ritmo a tocar.
 
São as batidas dos corações, revelando em cada Ser através das pulsações
a vida tentando majestosamente mais tempo poder contemplar
Os movimentos que todo o Universo está a bailar.
 
Oh caverna ingrata que meus sentimentos quer prender.
Não ficarei preso em seus recintos com as gravuras sombrias
daqueles que me importam.
Exportarei de suas portas o que o mundo imprimiu em mim.
Verei a luz que brilha lá fora e deliciar-me-ei
com as coisas em sua plenitude.
Encararei o mundo como é e não como de dentro de ti eu o via.
Que o fogo das minhas palavras queime nesse papel e ilumine
a minha visão enquanto eu estiver em ti.
Para assim poder ver que preso em sua escuridão
estou acostumando-me com a imobilidade mortal.
A luz que há fora de ti permite-me visualizar os movimentos
e esbarrões da guerra/dança da sobrevivência
e que enfrentar essa situação
é a Arte de Viver.  
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A Lição

Não precisei residir no degredo
nem testemunhar dias tenebrosos
para viver momentos dolorosos
que me deixaram aflito e com medo.

Entendi assim que há na vida um segredo
oculto em lugares misteriosos
acessíveis aqueles corajosos
que ousam percorrer o próprio penedo.

— “A vida é um curso de tragédias
     que nos colocam diante um conflito:
     Ter ações ou nos render às acédias?”

Ninguém irá encontrar algo escrito
nos livros sãos e nas enciclopédias
como resposta para isto que edito.
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Noite Outonal

O azul desvanece no horizonte
e surgem rúbidos¹ raios solares
na imensidão inóspita dos ares
colorindo tudo que estou defronte
com as purpúreas cores do outono.
Solitário, em agro² abandono,
vejo brilhos luminosos nas alturas
e fico a contemplar, por alvedrio³,
a temporã⁴ chegada dum cruel frio,
juntamente com nuvens muito escuras.
 
Anoitece e levanto as minhas mãos
ao céu, numa tentativa de tocar
as longínquas estrelas nos espaços vãos
por onde se estendem luzes a brilhar
e assim tentar abraçar a mudança
dos astros celestes como uma dança,
que num sutil movimento, traz o longe
para perto, indo em gestos e passos
aos poucos conquistando os espaços
imanes⁵ da minha solidão de monge.
 
E nessa minha divagação imota⁶
vejo na terra como do céu reflexos 
estendidos sob uma área remota,
fazendo das estrelas pontos conexos
com um volume de matéria sombria
que os humanos tornaram moradia
para salvarem a si e aos filhos
das fortes intempéries da natureza
que preenchem a vida com incertezas,
por ameaçar tirar dela os trilhos.
 
Contudo, ao observar com atenção
como esse fenômeno se comporta,
percebo uma paradoxal relação
que minha mente erma⁷ não suporta:
"Diferente das estrelas que parecem
perto, mas muito distante resplandecem,
as casas embora estejam contíguas⁸
possuem longitudes intransponíveis
estradada por tijolos invisíveis
e por concreto de proporções exíguas⁹".

Através dessa fenda, dessa vacância¹⁰,
não me são evidentes os obstáculos
para transladar tão ínfima distância
que há entre tais nexos habitáculos.
Não havia nenhum tipo de porfia¹¹
para justificar símil¹² apatia,
e é insabido¹³ outras desavenças
que forneçam alguma elucidação
para uma convivência sem união
entre seres em que não há diferenças.
 
Como um testigo¹⁴ de pasmado¹⁵ cariz¹⁶
fiquei ante tais paradoxais asserções¹⁷
que me fizeram da vida um aprendiz
por tornarem perceptíveis as aflições
de residir nesse planeta, sozinho,
mesmo com alguém do lado, um vizinho.
Sem vãs pretensões de encontrar um fanal¹⁸.
Parti em direção aquele meu lugar,
a minha morada, o meu humilde lar,
divagando só, nesta Noite Outonal.
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