Lista de Poemas
Fogo, Água, Terra, Ar
Foi-se o sol, porém é dia
A lua ofusca, atormenta, inibria
Ruídos, passos, uivos, uma cotovia?
A gota que cai do beirado, a maresia.
É noite, no entanto é dia.
Não sei quem és, mostra-te, aparece
A tua presença entorpece
Mas é falsa, engana, não aquece
Tenho frio, ouço um piar - será uma prece?
Quem és? Revela-te, aparece!
És afinal uma ilusão, és nada.
Vejo-te, sinto-te, mas estou cansada
De só te ver e sentir, deslumbrada,
E neão te ter nem tocar, não saciada.
És fogo, água, terra, ar? Não. És nada.
Maré do tempo
Sinto o tempo passar, dentro e ao longe de mim,
As esperanças desvanecerem-se em mágoas,
As palavras esconderem-se em gestos,
Os sons afogarem-se em olhares esquecidos.
Sinto a cadência e o bater das horas
Que passam, não esperam por mim,
Sem esperarem pelos meus sonhos...
Sinto que perdi a fonte da força que me sustém
O sopro do alento invisível que me guia
A névoa do saber que procuro.
Será que existe, o saber?
Será que tudo isto não passa de sentimento,
E por isso é abstracto, irreal, absurdo?
Quem sou eu neste espaço que é nada,
Que tento representar num tempo injusto e impossível?
Sinto que à medida que vou procurando respostas,
Vou encontrando mais dúvidas...
E procuro-te.
A ti que trarás resposta às minhas dúvidas
A ti que me preenches de saber
Só por existires, por estares perto, dentro de mim
Mas como resposta, não trarás tu também mais dúvidas?
Creio que a vida é um constante deambular
Por um mar de interrogações
A onda que traz respostas
É imediatamente substituída por uma vaga de duvidas
E à medida que vai sendo desbravado, esse mar
Vai-se tornando mais turbulento
A corrente cada vez mais forte, que envolve e arrasta
para longe da costa, do terreno seguro.
Preciso da força para navegar até ti
Ilha que me acolhe, porto seguro do meu ser.
E tudo isto eu sonho, sinto e esqueço,
Porque embora o tempo me corroa e deturpe
E embora os sentidos se troquem com a mente
Ainda espero o tempo da maré que me leve a ti...
Paz
Uma suave melodia
Uma brisa calma
Escondem aquela paz
Escondem aquela magia
Escondem um estado de alma
Em que tudo nos satisfaz
Em que a linha do horizonte
Nos leva para além da serra e do monte
Deixo a vida correr
Deixo o destino guiar-me,
Deixo-me ir na corrente deste rio
Que é a minha vida, o meu ser,
E deixo o silêncio saciar-me
Sonho, respiro, sorrio
Vivo a vida lentamente
E sempre, sempre, suavemente.
Vazio
Um espaço, um plano, um ponto
Ou a distância entre espaços, planos ou pontos
São casos perfeitamente mesuráveis, calculáveis
Mas quando surge o vazio
Aquela inexistência de espaço
Falta de planos
Distância entre nadas
Sem ponto de fuga
Aí o que somos?
Somos apenas corpos que deambulam
Sem motivo real nem objectivo final
Apenas o de transpor o dia de hoje
Tentando esquecer o de ontem
Planeando um amanhã que nunca chega.
Buscamos respostas fáceis
Que tragam uma mera sensação de preenchimento
E mesmo sabendo-a falsa e insuficiente
Porque precisamos de plenitude em tudo o que fazemos e sentimos
Para nos sentirmos completos naquilo que somos e cremos
Continuamos a iludir-nos conscientemente
E voluntariamente rumamos para um futuro
Que sabemos em aberto
e que provavelmente não vai dar certo.
Porquê resignarmo-nos a tão pouco?
Porquê cingirmo-nos ao "mais ou menos"
Porquê não tentar alcançar o máximo de nós próprios?
Porque, na verdade, somos fracos,
E porque precisamos de soluções instantâneas
Que preencham o vazio hoje
Para assim continuarmos a sonhar com um vão amanhã.
Apenas um toque
Um leve toque, apenas
Como uma brisa envolvente
Que te domina suavemente
Um mar de açucenas
Que te invade pausadamente.
Sentir-te, cheirar-te, tocar-te...
Deixa-te levar pela corrente
Deixa essa onda amar-te
Dela emana o próprio perfume do ser,
Sente a força do querer
Que clama que o deixes saciar-te
Perde o controle, perde o poder.
Os sentidos desprendem-se da mente
Entregas o corpo ferozmente!...
A calma, o silêncio, o espairecer,
O amor completo a nascer.
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