Lista de Poemas
Fogo, Água, Terra, Ar
Foi-se o sol, porém é dia
A lua ofusca, atormenta, inibria
Ruídos, passos, uivos, uma cotovia?
A gota que cai do beirado, a maresia.
É noite, no entanto é dia.
Não sei quem és, mostra-te, aparece
A tua presença entorpece
Mas é falsa, engana, não aquece
Tenho frio, ouço um piar - será uma prece?
Quem és? Revela-te, aparece!
És afinal uma ilusão, és nada.
Vejo-te, sinto-te, mas estou cansada
De só te ver e sentir, deslumbrada,
E neão te ter nem tocar, não saciada.
És fogo, água, terra, ar? Não. És nada.
Paz
Uma suave melodia
Uma brisa calma
Escondem aquela paz
Escondem aquela magia
Escondem um estado de alma
Em que tudo nos satisfaz
Em que a linha do horizonte
Nos leva para além da serra e do monte
Deixo a vida correr
Deixo o destino guiar-me,
Deixo-me ir na corrente deste rio
Que é a minha vida, o meu ser,
E deixo o silêncio saciar-me
Sonho, respiro, sorrio
Vivo a vida lentamente
E sempre, sempre, suavemente.
Apenas um toque
Um leve toque, apenas
Como uma brisa envolvente
Que te domina suavemente
Um mar de açucenas
Que te invade pausadamente.
Sentir-te, cheirar-te, tocar-te...
Deixa-te levar pela corrente
Deixa essa onda amar-te
Dela emana o próprio perfume do ser,
Sente a força do querer
Que clama que o deixes saciar-te
Perde o controle, perde o poder.
Os sentidos desprendem-se da mente
Entregas o corpo ferozmente!...
A calma, o silêncio, o espairecer,
O amor completo a nascer.
Maré do tempo
Sinto o tempo passar, dentro e ao longe de mim,
As esperanças desvanecerem-se em mágoas,
As palavras esconderem-se em gestos,
Os sons afogarem-se em olhares esquecidos.
Sinto a cadência e o bater das horas
Que passam, não esperam por mim,
Sem esperarem pelos meus sonhos...
Sinto que perdi a fonte da força que me sustém
O sopro do alento invisível que me guia
A névoa do saber que procuro.
Será que existe, o saber?
Será que tudo isto não passa de sentimento,
E por isso é abstracto, irreal, absurdo?
Quem sou eu neste espaço que é nada,
Que tento representar num tempo injusto e impossível?
Sinto que à medida que vou procurando respostas,
Vou encontrando mais dúvidas...
E procuro-te.
A ti que trarás resposta às minhas dúvidas
A ti que me preenches de saber
Só por existires, por estares perto, dentro de mim
Mas como resposta, não trarás tu também mais dúvidas?
Creio que a vida é um constante deambular
Por um mar de interrogações
A onda que traz respostas
É imediatamente substituída por uma vaga de duvidas
E à medida que vai sendo desbravado, esse mar
Vai-se tornando mais turbulento
A corrente cada vez mais forte, que envolve e arrasta
para longe da costa, do terreno seguro.
Preciso da força para navegar até ti
Ilha que me acolhe, porto seguro do meu ser.
E tudo isto eu sonho, sinto e esqueço,
Porque embora o tempo me corroa e deturpe
E embora os sentidos se troquem com a mente
Ainda espero o tempo da maré que me leve a ti...
Vazio
Um espaço, um plano, um ponto
Ou a distância entre espaços, planos ou pontos
São casos perfeitamente mesuráveis, calculáveis
Mas quando surge o vazio
Aquela inexistência de espaço
Falta de planos
Distância entre nadas
Sem ponto de fuga
Aí o que somos?
Somos apenas corpos que deambulam
Sem motivo real nem objectivo final
Apenas o de transpor o dia de hoje
Tentando esquecer o de ontem
Planeando um amanhã que nunca chega.
Buscamos respostas fáceis
Que tragam uma mera sensação de preenchimento
E mesmo sabendo-a falsa e insuficiente
Porque precisamos de plenitude em tudo o que fazemos e sentimos
Para nos sentirmos completos naquilo que somos e cremos
Continuamos a iludir-nos conscientemente
E voluntariamente rumamos para um futuro
Que sabemos em aberto
e que provavelmente não vai dar certo.
Porquê resignarmo-nos a tão pouco?
Porquê cingirmo-nos ao "mais ou menos"
Porquê não tentar alcançar o máximo de nós próprios?
Porque, na verdade, somos fracos,
E porque precisamos de soluções instantâneas
Que preencham o vazio hoje
Para assim continuarmos a sonhar com um vão amanhã.
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