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Baile da Saudade



      O Dia era sete, o mês era dezembro e o ano era dois mil e três. Tudo aconteceu nesta referida data. Esta data marcou e transformou inteiramente a minha vida. Eu tinha apenas dezesseis anos e muita liberdade, concedida pelos meus pais, é claro, para participar todos os finais de semanas de festas dançantes ou mesmo para ir tomar sorvete com os amigos na Praça Cônego Honório. Mas, como falei, esta me marcou muito. Havia da minha parte uma grande expectativa em relação ao evento mais badalado de Altos – O famoso Baile da Saudade.

         Eu estive no fim da tarde num salão de beleza da elite altoense arrumando o cabelo e fazendo as unhas. E o meu pensamento estava atrelado somente a Ele: Márcio. Eu o havia conhecido na noite anterior na praça do Rotary, em frente  ao colégio Cazuza Barbosa.  Márcio era um rapaz muito bonito tinha o corpo “produzido em academia”, cabelos castanhos, pele clara, media aproximadamente 1.80 metros de altura, olhos azul-esverdeado, inteligente, formado em engenharia elétrica; em suma, um arraso de gato. Havíamos ficado por poucas horas; mas, o suficiente para nos apaixonarmos. Eu estava muito feliz por saber que Ele estaria comigo naquela belíssima festa e acreditava que também estava super-ansioso. Não era à toa, que muitos me admiravam como uma das mais belas jovens de Altos.

O local da festa era a Casa de Shows Hunscaraí. Da minha residência, no bairro Batalhão, ouvi o início da festa e gritei Ângela, minha colega e vizinha, para que se aprontasse logo a fim de não chagarmos atrasadas. Ela veio e me surpreendeu:

– Nossa Girlene! Mas como você está linda!

Eu me senti o máximo porque conhecia de verdade Ângela. Ela jamais me elogiaria se não fosse verdade. Estávamos de saída e Ângela sugeriu que ligasse para o celular de Márcio. Disquei o número e ouvi aquela voz grave, porém, delicada dizendo que  nos pegaria em casa. Não demorou mais que dez minutos e Márcio já havia chegado. Foi logo me beijando calorosamente. Era bom demais, tudo aquilo parecia um conto de fadas. Chegamos ao local da festa de Corsa Sedan. Minhas colegas do Colégio Fênix ficaram babando. Pouco importava Elas. O mundo. Nada mais tinha significado para mim. Somente Márcio e aquele momento mágico que ali Eu presenciava e, sobretudo participava, interessava-me. Meu mundo e anseios se resumiam a Márcio. Ele era naquele momento o meu tudo. Quando Eu tocava o seu corpo sentia a coisa mais gostosa do universo. Ele estava maravilhosamente lindo: calça Jeans HD surf wear, camisa manga longa Ônix, tênis Rainha sistem. O perfume nem se fala. Era hipnótico. O aroma mais gostoso que já tinha sentido.

         Infelizmente, não dá para descrever fielmente aquele maravilhoso momento e situação. Tudo era tão lindo mesmo que Eu sentia o meu espírito fora de mim; era fantástico! Eu acreditava que Márcio estava sentindo o mesmo. Não havia dúvida, Ele estava sim. Estávamos numa mesa tomando campari; Márcio, Eu, Ângela e Kelson. Este, o namorado de Ângela. Então, começou a rolar a seqüência de músicas românticas. Márcio me tirou para dançar ao som de making love out nothing at all, Air supply. Era tudo que Eu queria. Unida a Ele através da dança e daquela melodia romântica, que mais parecia o soar da trombeta do cupido. Aquele momento era sublime. Mas Eu sabia, estava apenas começando e mesmo antes de censurar minha mente, depois de dançarmos duas lindas canções, Márcio falou com tamanha sutileza e carinho, capaz de me fazer arrepiar toda.                                                                                     - deseja ficar a sós comigo? Era o que Eu mais queria. Fomos lá para fora tomar uma água mineral, sentados no banco do seu Corsa Sedan. Márcio abraçava e beijava-me toda. Eu me sentia a mulher mais amada do universo naquele momento.

         O tempo era nosso inimigo, 2:40h da manhã Eu ali nos braços de Márcio, amando e sendo amada. Não lembrava mais de Ângela e Kelson. Na minha mente só existia dois nomes que se transformara numa regra lingüística: Márcio Girlene = Amor. Márcio me convidou para tomarmos sorvete lá no Dedé Lanches, ao lado da casa lotérica. Eu jamais negaria um pedido à pessoa que Eu mais amava. Fomos e no caminho Márcio parece desistir fazendo o retorno em frente ao Ginásio Estadual Pio XII. Perguntei-lhe o porquê de ter mudado de idéia:

–Não se preocupe meu amor, vamos para um lugar muito melhor, você vai gostar.

         Márcio acelerou o automóvel e com 100 km/h passamos em frente à Hunscaraí em direção à cidade de Campo Maior. De repente estamos em frete à sub-estação da Cepisa, curiosa com tudo aquilo que estava acontecendo perguntei para onde Ele estava me levando, e sem que fosse possível Ele me responder, nos deparamos com a fachada do Way Motel. Cruzei os braços e fiz um sinal de negação com    a cabeça. Porém, Márcio, carinhosamente, insistia muito. Tomada pelo impulso da paixão, lembro que estava desfrutando daquele momento prazeroso, primeiro e único. Como se não bastasse amanhecemos juntos naquele apartamento. Eu pensava duramente nas conseqüências que ia sofrer por ter cedido a tão grande prazer. Saindo daquele local, fomos em direção ao centro da cidade e Márcio me deixou por trás da igreja matriz de São José. De lá segui a pé para casa. Justifiquei o atraso para minha mãe, mentindo que, ao sair do baile, tinha me separado de Ângela e tinha ido com Flávia à residência desta, a fim de tomar café com Ela.

         Márcio se foi e Eu fiquei na expectativa de que  um dia Ele aparecesse, mas isso não aconteceu. Eu sempre ligava para Ele. Mas, só dava desligado ou fora de área. O tempo foi se passando. Já fazia um mês que Eu não tinha noticias de Márcio.

     Um certo dia, após o almoço Eu me senti mal, cheguei a vomitar e em seguida a desmaiar. Minha mãe levou-me para o hospital e o médico me colocou sob observação e requisitou alguns exames. Um dos exames foi a causa da grande transformação da minha vida: o exame positivo de gravidez. Três dias, após ter tido alta do hospital Eu liguei para Márcio, e finalmente consegui falar com Ele:                                                   — Márcio, meu amor, quanto tempo! Deus do céu... Como é maravilhoso... É como se Eu estivesse tocando no teu corpo!

— Oh! Girlene, por favor, fala logo meu bem, estou super-ocupado  com os trabalhos da empresa e não tenho tempo disponível para o teu romantismo maluco.

— Está bem meu querido. Você vai adorar! Eu gostaria de falar pessoalmente, mas já que você insiste... sabe, meu amor, Deus nos contemplou com bênçãos dos céus... o nosso herdeiro, o nosso...

— Pode parar com essa loucura! Eu não tenho filho, muito menos compromisso sério com você. Portanto, meu bem, te vira, até porque não estou morando mais em Teresina, atualmente resido em Porto Alegre. E não pretendo jamais colocar os pés novamente nessa terra de índios. Por favor, esqueça-me e passar bem!

     Márcio desligou o telefone e antes mesmo de gotejar as primeiras lágrimas da derrota, Eu ainda segurava o telefone ao ouvido e numa atitude de desespero:                                                                       — Márciooo! Por favor, não faz isso comigo! Não!...Não!... Meu amor... Não faz isso comigo e com teu filhooo!!! 

Naquele exato momento Eu perdi todos os meus sentidos, sendo socorrida, mais uma vez pela minha mãe.

Novamente Eu era atendida no hospital José Gil Barbosa. Desta vez o médico recomendou-me bastante repouso em detrimento de fortes emoções. 

Após estes episódios marcantes da minha vida de adolescente, jurei que ia ser forte o suficiente para manter o meu filho vivo e superar aquela horrível dor. Percebia-me fracassada e humilhada. Infelizmente aquele lindo e maravilhoso amor havia transformado inteiramente a minha vida...
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Desilusão



 

O nascer de um novo dia,

uma nova esperança...

no percurso o desengano.

 

Nada se realizou

somente sol, nuvem, chuva...

até a tarde deixar de existir.

 

Vem o pôr do sol,

trazendo uma real solidão...

que desaba numa ligeira escuridão.

 

O nascimento de uma esperança

só num esquecido diário...

que não fala, não geme, se cala.

 

Nada, absolutamente nada

pode aquecer a desilusão...

que estaciona sem dizer não.

                                                                                                                                                         02/03/03
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Inexistência Física


         Era um momento mágico . Eu estava sozinha naquela festa dançante. De repente Ele apareceu. Não sei de onde, só sei que Ele veio. Me sentia bem naquela solidão. As luzes estavam distantes e eu via a multidão, mas queria mesmo era estar só. Então ele veio. Não sei de onde e quando ele chegou. Eu percebi não sei porque, mas gostei de sua presença. Estava muito bem sozinha, não necessitava de companhia. Aquela noite escura me encantava e fazia parte de mim. Ele se aproximou bastante de mim, seu corpo tocou ao meu sem dizer uma só palavra. O perfume, a respiração, a roupa, tudo me falava. Eu não tinha namorado. Não pretendia ter namorado. Queria estar só, mas não foi possível naquela noite. Era noite de domingo, 11 de novembro de 1993. Aquele momento jamais esqueci e nunca esquecerei.

         Pensei em lhe falar assim que seu corpo tocou ao meu. Mas faltou-me a fala, não conseguia dizer ou mesmo pedir que se afastasse de mim. Eu não tinha coragem para tomar uma atitude, ele sim: Levantou os meus longos cabelos que cobriam o meu pescoço e apenas acariciou. Uma energia percorreu todo o meu corpo como se tivesse me elevado acima das nuvens. Parece que sabia e sentia o mesmo que eu. Não falava, só continuava. Ninguém observava aquela cena, porque todos estavam distantes. Somente nós dois, naquela escuridão. Era uma noite inédita naquele clube denominado de “Os Criulís”, bairro Bacurizeiro, periferia de Altos, zona norte da cidade; saída para a cidade de José de Freitas e povoado da Prata. O local específico era o morro da Santa Cruz, distantes trezentos metros do clube. De cima dava para contemplar a multidão e as luzes. Mas, não nos prendíamos a tanto. Ele me abraçava fortemente e beija-me com um intenso ardor. Já me sentia segura e amada nos seus braços como nunca tinha me sentido antes. Resolvi pôr fim àquele silêncio verbal. Digo verbal; pois, já havíamos nos falado em espírito. Perguntei o seu nome: “A-lex” e continuou “O - seu – grande – amor”. Foi demais, só isso era tudo. Já era uma hora e trinta da manhã, estávamos sentados numa enorme pedra na beira da estrada da Prata, ali mesmo no morro da Santa Cruz. Ele me falava sobre a sua vida e dizia coisas lindas para mim. Era encantador e eu queria mais ainda. Ele também. Não contive o impulso da paixão, estava presa ao seu amor, porque o seu amor era o meu amor. Ele me conduziu a um planalto, aproximadamente uns trinta metros de onde estávamos. O capim estava frio e estiado. Ele nada falava. Somente me beijava ofegantemente. Eu o compreendia mais do que ele pudesse imaginar. Ousadamente, Alex retirou-me a blusa e, em seguida, todo o vestuário seu e meu. Começou a acariciar todo o meu corpo com suas mãos maravilhosas. Sim, eram dois corpos simultaneamente convertidos em apenas um. Senti meu hímen romper como se estivesse provado de um bisturi. Eu não sabia se gritava ou se chorava. Era tudo maravilhoso. Ele sentia o mesmo que eu; pois, seu corpo falava e seu espírito também. Era duas e quarenta da madrugada. Não podia permanecer, porque as minhas colegas já estavam a esperar para juntas voltarmos para casa.    Ele insistiu que ficasse mais um pouquinho. Não era possível. Mais uma vez cedi. Fizemos amor pela segunda vez. Foi ainda mais gostoso! Não sei onde Eu estava com a cabeça. Não entendi porque me entreguei a ele daquela forma. Já não era mais virgem como há três horas atrás. Não estava arrependida, pelo contrário. Alex era lindo e maravilhoso. A minha entrega de corpo e alma ainda era pouco. Aquele lindo amor merecia muito mais. Três e quinze da madrugada. Nos despedimos em frente ao clube, com um longo e nostálgico beijo. Assim, eu e minhas colegas fomos para nossas casas, na localidade Segurança. No caminho para casa não ouvia minhas colegas falarem, somente Alex falava na minha mente. As imagens, aquelas cenas eram bem nítidas na minha memória e me diziam o quanto é bom ser amada e dá amor a quem se ama. Enfim, ser feliz de verdade.

         No dia seguinte, o meu rosto resplandecia como um luzeiro. Era só felicidade, nada mais. Assim me justificava perante as minhas colegas confidenciais. Das  oito da manhã ao meio dia, era fantástico. A recordação daquela noite passada só me fazia feliz e amada. Olhando para a fotografia três por quatro de Alex me sentia dona daquele fenômeno masculino, obra de um grandioso deus. Em minha residência costumavam ouvir o famoso “Jornal da São José”, e meu Pai não perdia uma só edição do programa e para mim, não havia outro entretenimento, senão ouvir o famoso rádio-jornal.

         Aquela segunda-feira parecia ser o dia mais feliz da minha vida. Era sem dúvida porque sucedera a noite mais linda que eu já tivera em toda a minha estória. Estava sentado no alpendre olhando as árvores e os pássaros que ali cantavam e glorificavam a Deus. Eu sentia vontade de fazer o mesmo. Não fazia porque poderiam me confundir com uma louca qualquer. Só Deus poderia testemunhar a minha felicidade, Eu agradecia aos céus pela aquela grande bênção.

         O rádio estava ligado e após a música do “Caminhoneiro” de Roberto Carlos tem início o programa Jornal da São José. O apresentador do noticioso divulgava as manchetes, quando uma delas me chamou a atenção. Era sobre um acidente acontecido na noite anterior na rua D. Pedro II, no centro de Altos. Um jovem tinha sido atropelado por um automóvel e teve morte imediata. Na medida em que o apresentador narrava o acontecimento, Eu me tornava pálida e distante de tudo aquilo que antes sentia no meu coração. Não era possível! A minha mente acusava que tudo aquilo que estava sendo dito não passava de um sonho mentiroso, ou seja, um pesadelo. O sangue me fugiu das veias, não havia força dentro de mim. O apresentador repetiu mais uma vez o nome da vítima. Eu não suportei e caí. Papai apanhou-me nos braços e colocou-me na cama. Naquele momento eu me encontrava longe desse mundo, só via o rosto do meu amado Alex. Ele já não falava coisas boas e bonitas como antes. Na minha mente apagada só aparecia seu rosto sem fala e sem vida.

         O destino foi cruel e traiçoeiro. Mas, Deus uniu Alex e eu em perfeição de espírito. Haja vista não haver mais nenhuma possibilidade de aproximação de nossos corpos. Agora eu estava juntinha dele naquele último e eterno sonho...

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