Baile da Saudade
gdp2404
O Dia era sete, o mês era dezembro e o ano era dois mil e três. Tudo aconteceu nesta referida data. Esta data marcou e transformou inteiramente a minha vida. Eu tinha apenas dezesseis anos e muita liberdade, concedida pelos meus pais, é claro, para participar todos os finais de semanas de festas dançantes ou mesmo para ir tomar sorvete com os amigos na Praça Cônego Honório. Mas, como falei, esta me marcou muito. Havia da minha parte uma grande expectativa em relação ao evento mais badalado de Altos – O famoso Baile da Saudade.
Eu estive no fim da tarde num salão de beleza da elite altoense arrumando o cabelo e fazendo as unhas. E o meu pensamento estava atrelado somente a Ele: Márcio. Eu o havia conhecido na noite anterior na praça do Rotary, em frente ao colégio Cazuza Barbosa. Márcio era um rapaz muito bonito tinha o corpo “produzido em academia”, cabelos castanhos, pele clara, media aproximadamente 1.80 metros de altura, olhos azul-esverdeado, inteligente, formado em engenharia elétrica; em suma, um arraso de gato. Havíamos ficado por poucas horas; mas, o suficiente para nos apaixonarmos. Eu estava muito feliz por saber que Ele estaria comigo naquela belíssima festa e acreditava que também estava super-ansioso. Não era à toa, que muitos me admiravam como uma das mais belas jovens de Altos.
O local da festa era a Casa de Shows Hunscaraí. Da minha residência, no bairro Batalhão, ouvi o início da festa e gritei Ângela, minha colega e vizinha, para que se aprontasse logo a fim de não chagarmos atrasadas. Ela veio e me surpreendeu:
– Nossa Girlene! Mas como você está linda!
Eu me senti o máximo porque conhecia de verdade Ângela. Ela jamais me elogiaria se não fosse verdade. Estávamos de saída e Ângela sugeriu que ligasse para o celular de Márcio. Disquei o número e ouvi aquela voz grave, porém, delicada dizendo que nos pegaria em casa. Não demorou mais que dez minutos e Márcio já havia chegado. Foi logo me beijando calorosamente. Era bom demais, tudo aquilo parecia um conto de fadas. Chegamos ao local da festa de Corsa Sedan. Minhas colegas do Colégio Fênix ficaram babando. Pouco importava Elas. O mundo. Nada mais tinha significado para mim. Somente Márcio e aquele momento mágico que ali Eu presenciava e, sobretudo participava, interessava-me. Meu mundo e anseios se resumiam a Márcio. Ele era naquele momento o meu tudo. Quando Eu tocava o seu corpo sentia a coisa mais gostosa do universo. Ele estava maravilhosamente lindo: calça Jeans HD surf wear, camisa manga longa Ônix, tênis Rainha sistem. O perfume nem se fala. Era hipnótico. O aroma mais gostoso que já tinha sentido.
Infelizmente, não dá para descrever fielmente aquele maravilhoso momento e situação. Tudo era tão lindo mesmo que Eu sentia o meu espírito fora de mim; era fantástico! Eu acreditava que Márcio estava sentindo o mesmo. Não havia dúvida, Ele estava sim. Estávamos numa mesa tomando campari; Márcio, Eu, Ângela e Kelson. Este, o namorado de Ângela. Então, começou a rolar a seqüência de músicas românticas. Márcio me tirou para dançar ao som de making love out nothing at all, Air supply. Era tudo que Eu queria. Unida a Ele através da dança e daquela melodia romântica, que mais parecia o soar da trombeta do cupido. Aquele momento era sublime. Mas Eu sabia, estava apenas começando e mesmo antes de censurar minha mente, depois de dançarmos duas lindas canções, Márcio falou com tamanha sutileza e carinho, capaz de me fazer arrepiar toda. - deseja ficar a sós comigo? Era o que Eu mais queria. Fomos lá para fora tomar uma água mineral, sentados no banco do seu Corsa Sedan. Márcio abraçava e beijava-me toda. Eu me sentia a mulher mais amada do universo naquele momento.
O tempo era nosso inimigo, 2:40h da manhã Eu ali nos braços de Márcio, amando e sendo amada. Não lembrava mais de Ângela e Kelson. Na minha mente só existia dois nomes que se transformara numa regra lingüística: Márcio Girlene = Amor. Márcio me convidou para tomarmos sorvete lá no Dedé Lanches, ao lado da casa lotérica. Eu jamais negaria um pedido à pessoa que Eu mais amava. Fomos e no caminho Márcio parece desistir fazendo o retorno em frente ao Ginásio Estadual Pio XII. Perguntei-lhe o porquê de ter mudado de idéia:
–Não se preocupe meu amor, vamos para um lugar muito melhor, você vai gostar.
Márcio acelerou o automóvel e com 100 km/h passamos em frente à Hunscaraí em direção à cidade de Campo Maior. De repente estamos em frete à sub-estação da Cepisa, curiosa com tudo aquilo que estava acontecendo perguntei para onde Ele estava me levando, e sem que fosse possível Ele me responder, nos deparamos com a fachada do Way Motel. Cruzei os braços e fiz um sinal de negação com a cabeça. Porém, Márcio, carinhosamente, insistia muito. Tomada pelo impulso da paixão, lembro que estava desfrutando daquele momento prazeroso, primeiro e único. Como se não bastasse amanhecemos juntos naquele apartamento. Eu pensava duramente nas conseqüências que ia sofrer por ter cedido a tão grande prazer. Saindo daquele local, fomos em direção ao centro da cidade e Márcio me deixou por trás da igreja matriz de São José. De lá segui a pé para casa. Justifiquei o atraso para minha mãe, mentindo que, ao sair do baile, tinha me separado de Ângela e tinha ido com Flávia à residência desta, a fim de tomar café com Ela.
Márcio se foi e Eu fiquei na expectativa de que um dia Ele aparecesse, mas isso não aconteceu. Eu sempre ligava para Ele. Mas, só dava desligado ou fora de área. O tempo foi se passando. Já fazia um mês que Eu não tinha noticias de Márcio.
Um certo dia, após o almoço Eu me senti mal, cheguei a vomitar e em seguida a desmaiar. Minha mãe levou-me para o hospital e o médico me colocou sob observação e requisitou alguns exames. Um dos exames foi a causa da grande transformação da minha vida: o exame positivo de gravidez. Três dias, após ter tido alta do hospital Eu liguei para Márcio, e finalmente consegui falar com Ele: — Márcio, meu amor, quanto tempo! Deus do céu... Como é maravilhoso... É como se Eu estivesse tocando no teu corpo!
— Oh! Girlene, por favor, fala logo meu bem, estou super-ocupado com os trabalhos da empresa e não tenho tempo disponível para o teu romantismo maluco.
— Está bem meu querido. Você vai adorar! Eu gostaria de falar pessoalmente, mas já que você insiste... sabe, meu amor, Deus nos contemplou com bênçãos dos céus... o nosso herdeiro, o nosso...
— Pode parar com essa loucura! Eu não tenho filho, muito menos compromisso sério com você. Portanto, meu bem, te vira, até porque não estou morando mais em Teresina, atualmente resido em Porto Alegre. E não pretendo jamais colocar os pés novamente nessa terra de índios. Por favor, esqueça-me e passar bem!
Márcio desligou o telefone e antes mesmo de gotejar as primeiras lágrimas da derrota, Eu ainda segurava o telefone ao ouvido e numa atitude de desespero: — Márciooo! Por favor, não faz isso comigo! Não!...Não!... Meu amor... Não faz isso comigo e com teu filhooo!!!
Naquele exato momento Eu perdi todos os meus sentidos, sendo socorrida, mais uma vez pela minha mãe.
Novamente Eu era atendida no hospital José Gil Barbosa. Desta vez o médico recomendou-me bastante repouso em detrimento de fortes emoções.
Após estes episódios marcantes da minha vida de adolescente, jurei que ia ser forte o suficiente para manter o meu filho vivo e superar aquela horrível dor. Percebia-me fracassada e humilhada. Infelizmente aquele lindo e maravilhoso amor havia transformado inteiramente a minha vida...
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