Lista de Poemas

Sabiá

Sem saber por que, não voava.
Pé atado ao fino fio,
Que de aço, que de nada,
que de algo que ali estava
e prendia a Sabiá.

Se não se entregava
ao ar e vento, bela ave,
punha-se, alta e plena
a assobiar.

Sem gaiola, não via galhos
pra que alçasse um decolar.
Sabia se um forte frio
esperava, sabe-se onde lá?

Sem asa virou menina,
e deixou de assobiar.
Sem gorjeio, nasceu um pranto
feito frio fio
de chuva branco.

Não sabendo que teve penas,
sobrevivia, com a tristeza
de nunca mais assobiar.

Mas um dia, desfez seus planos,
deixou seus panos, plumou seu manto.
Entre cantos e sem alvoroço,
sem fazer nenhum esforço
alçoou vôo a Sabiá.

Daquele dia em diante
Em qualquer instante,
ganhava ela o ar,
sabendo que nunca mais
fino fio que fosse
lhe prenderia a qualquer lugar.
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Marielle Franco (14/03/18)

Hoje o dia amanheceu branco.
O engarrafamento era branco,
As pessoas em seus ternos, brancos, 
A indiferença do bom dia, brancos
(O céu nublado, feio e branco). 

Mas a tristeza era negra,
A coragem era negra,
O sangue era de negra 
E a indignação era negra,
Assim como a tempestade na noite anterior,
(Seria o pranto das mães pela filha negra,
também morta?)

A vida de uns passa, branco,
A vida das que lutam segue, negra.
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O que é limpo, esconde o Diabo (Versos para outro agora)

Queria viver, indepedente das luas,
das marés, dos poderes, do sistema. 
Queria aquela liberdade, que só um jogo
sem sistema lhe dá: vá e seja.
E assim será o mais feliz nisso. 

Queria que o que escolho fosse,
e o que não quero, foi.  Queria a vida 
sem mais que perfeito, sem imperativo, 
sem futuro do pretérito. 
Uma forma de verbo que falasse 
que todas as expectativas, se trabalhadas,
são a realidade. 

Queria falar como seria ouvido,
escrever como seria lido,
festejar como se houvesse motivo. 

Tudo passado, o que cato no chão
é o que foi aproveitado.
Ficou de ontem o azedo, ácido,
refluxo do complexo, asia do discurso. 
Pudera nosso diálogo
fazer de tudo belo.

Esse conhaque de trago forte,
é a síntese da minha vida:
dúbia sinestesia em minhas sinapses, 
o cheiro do podre é o que da esperança.
O que é limpo, esconde o Diabo. 
 
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Cansei do Rio de Janeiro

Cansei do Rio de Janeiro.
Esta cidade que tem 
mais sorrisos que dentes
e mais pessoas
que gente.

Cansei do Rio de Janeiro,
de suas garotas na praia,
de seus surfistas na onda,
de seus sambas na esquina.

Algo nesta felicidade
me incomoda.

É que me incomoda crer
que é possível ser feliz
se tudo é miserável 
concreto,
contrato.

Falta tanto, falta tato,
falta contato.
Se falo isso prum carioca,
sou esculaxado.

O rio de janeiro continua lindo,
até o menino que me vendeu a bala
disse, com um sorriso sem graça,
muito embora seus olhos
lacrimejassem crack.

Ah! Rio, rio,
rio pra ser clichê
e fugir do tédio.

Viver tem disso
como em Leminski,
rimo tudo
com mistério.
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Passo/espaço

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@griva (TOC 140)

A gente quer tanto ser
que às vezes
esquece o quê.
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Boca seca, coração seco

Boca seca,
coração cheio.

Ainda posso sentir
a textura do seu cabelo,
enquanto me recuso a abrir os olhos
e ver que não está deitada ao meu lado,
e que seus lábios não me darão bom dia.

Boca cheia,
Coração seco.

O que espera de mim ainda é
o que não posso te dar.
O que mais sentiu falta
não foi do meu corpo,
nem do meu sexo.

Boca seca,
Coração seco.

As lagrimas que derramou ontem
não tinham o meu nome
(percebeu que as minhas tinham o seu?).
E embora a boca que beijasse
fosse minha,
o beijo que queria não era meu.
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Consequente

A chuva que me fez poema
é a mesma que destrói casas.

Tudo na vida acaba,
cerveja, cigarro, poeta.
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Soneto da Barbie

Mesmo não sendo meu corpo plástico,
não serei eu, nascida Valéria,
criatura do sadismo clássico,
imagem da mais pura miséria?

Ou será tu, com seu guia prático,
mais pura imagem deletéria
de um antecessor à mim, sádico,
divino barro de nossa matéria?

- Hipócritas, nosso dedo em riste,
sem entender que a extravagância
apenas nossa loucura prova.

Somos, por excelência, triste
reflexo de nossa ignorância.
Somos todos Val Lukyanova.
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Brasa

Aceitar que a vida seja brasa.
Que o amor venha da alma,
Que se beije com calma
Que se transe como água.

Que a vida seja suave,
Que pela pedra se esgueire.
Que mude-se de ideia
Do que se disse antes,

Que mude-se o dizer
Pra manter aquela. 

Que após uma poesia inverno
Dessa que viva alma
Não tem,
Uma poesia primavera
Desabroche como cerejeira,
E ecoe os versos na mente:
"Sim, inverno. Estamos vivos"
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