Escritas

Lista de Poemas

Uma Foda

Meu bem,
um dia você aprenderá que nem tudo
pode ser resolvido com uma foda,
e que o mais apertado dos abraços
pode ser vazio.

Um dia, meu bem, você aprenderá que
o beijo roubado é o mais
sincero. E que o sorriso de uma criança
pode ser o mais fingido.

Um dia, meu bem, você descobrirá
que a traição começa antes mesmo dela
e nela não se encerra. Um dia perceberá
que sem te trair,
já te trai por inteira.
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Brasa

Aceitar que a vida seja brasa.
Que o amor venha da alma,
que se beije com calma
que se transe como água.

Que a vida seja suave,
que pela pedra se esgueire.
Que mude-se de ideia
do que se disse antes,

que mude-se o dizer
pra manter aquela. 


Que após uma poesia inverno
dessa que viva alma
não tem,
uma poesia primavera
desabroche como cerejeira,
e ecoe os versos na mente:
"Sim, inverno. Estamos vivos"
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Oração a Xangô e Iansã

Ó Xangô, ó Iansã
Peço passagem para todos Exus
e a benção de Oxalá.

Que nessa vida eu possa ser
a justiça da garoa da manhã,
que nutre o campo do trabalhador
e os sonhos das crianças que dormem.

Que não deixe nunca de ser relâmpago,
trazendo luz à escuridão,
e esperança aos desacreditados.

E que quando precisar, seja
a tempestade, trazendo justiça
aos injustiçados,
nos momentos de mudança.
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Snow Crash (Amor imperfeito)

Quero um amor que me baste. 
E que me bastando,
não seja suficiente estarmos
um no outro. Que queiramos estar
um consigo.

Quero um amor que me bata
como um pico de heroína
quando a vejo dobrar a esquina.

Um que me fascina, que com seu gozo
me alucine, como o brilho dos astros
sob o efeito de uma anfetamina.

Quero um amor que sendo eu todo,
seja minha droga. Que sendo eu nada,
seja meu copo e depois meu colo.
Quero um amor que sendo tudo perfeito,
seja ele imperfeito.

Quero um amor, que de qualquer jeito
que fale, não seja espelho do meu.
O amor que quero comigo,
é o seu.
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Souza (com s)

A vida é mais do que se imagina.
Enquanto o Doutor
nem dá bom dia, revela o ascensorista:
Isso aqui é um quebra-galho.
Na verdade, sou saxofonista.
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Canto de urgência

Serei eu o último são em um mundo caduco?
Serei o último caduco em um mundo são?
Será meu último suspiro agudo ou eterno?

Não. Não é esse o poema que quero.
Quero um verso-ser e ser um verso,
quero falar sobre tudo que há para viver e não vivemos.
Sobre o grito de liberdade e o grito de desespero,
quero falar sobre ter...
Ter histórias e ter beijos,
ter romances e ter carícias,
sobre ser amor e ser vivo.

Ser amor é ser vivo,
e ser amor é se permitir ser triste.
Não sou o primeiro poeta neste canto,
E nem serei o último.

É preciso lembrar que vivemos
pela neblina que desce no nascer do sol na baía,
pela incomoda felicidade de uma criança,
pelo choro baixo no final de um dia.

Não há poema mais urgente de ser escrito.
Não há métrica, não há originalidade,
não há rima, cadência ou ritmo,
mais importante ou rico do que este poema-memória.

Esse poema é vivo,
este poeta é você
e neste último verso, vá embora.
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Amo-te

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Infinitivo

Não forçarei meus versos
A terminarem com infinitivos
Para garantir uma rima ao final do dia.

Rimarei, ainda que sem ritmo,
Seus conteúdos.
Conjugarei meus versos
Com todas as possíveis flexões do verbo vida.

Para que quando em duas sílabas
A vida finde,
Saberei que nada que
Experimentei
Foi em vão.
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Bandido

- Tem certeza que é só isso? 
- É isso elevado a potências. É isso repetido 
na linha de tempo de um amor eterno,
que em sua finitude, se repetiu por 10 anos.

Viver é ter noção da própria morte.
É estar preparado para ser o bandido
na sua própria história. 
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Aquela Loucura de Napalm na Selva do Vietnã

Será o que me falta, coragem ? 
Sou um poeta maldito
que bate cartão, quarenta por sete. 
 
Mas o que é ser livre em um mundo de abismos?
De cartas marcadas, de esgotos e lixos,
onde os jardins só são acessíveis
àqueles que tem caixa.
 
Toma um fósforo, 
mas guarda o trago.
Teu cigarro, amigo, é caro.
E todos estão de olho no seu corpo.
 
Mas não em sua saúde! Ansiolíticos, 
anfetaminas, cafeína e termogênicos.
Viva o cloridrato de metilfenidato!
Sem prescrição não tem problema,
e sem nota é mais barato.
Tudo pode, se passa pelo mercado,
se mira a produtividade. 
 
Será o que me falta, insanidade? 
Um revolucionário mais 
crente no Apocalipse, que na revolução.
 
Vai amigo, agora acende.
Não há nenhum corpo a menos de 100 metros,
nem teto sob sua cabeça, teu fumo então é lícito. 
Mas não teu baseado! Este não!
apenas quando patenteado e regulamentado
pela indústria, que manda no Estado.
 
Será o que me falta, conhecimento? 
Tão pouco nisso tudo me faz sentido...
Nem mesmo o brado e a placa do meu vizinho,
na massa que marcha contra o que acham que é o sistema.
 
Alguns dias ligo o foda-se. 
Como do pão, bebo do vinho, deixo as conexões
me levarem para algum vídeo sem sentido.
Mas nem isso, nem isso,
impede que acorde na madrugada,
suando frio. Que olhe pra retaguarda
na noite alta, aflito. Com medo ora da
polícia, ora do bandido. 
 
O que fazer, se tudo me parece tão megalomânico?
Enquanto os manicômios para alguns voltam a ter estilo,
sigo eu, com esta minha revolta, sem endereço conhecido.
Volto para os versos, num conhaque, num vazio agudo,
cheio de tudo, cheio de nada. 
 **
Entre quadros, do alto do prédio, desaba o corpo
do Comediante. 
Numa poça, seu bótom sujo de sangue.
E toda aquela imagem, 
aquela loucura de napalm na selva do Vietnã,
em lágrimas, me dá um mormaço,
irônica, em mim faz morada.
 
Num riso insano, poeta,
sou eu mesmo o Comediante. E agora,
só me resta aquele tango argentino. 
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