Lista de Poemas
Aster
Com o correr do tempo,
a humanidade fez grandes descobertas.
Aprendeu a dominar a arte
da linguagem, dos números e do fogo.
Porém, no meio do caminho,
em sua sede inesgotável pelo poder,
se esqueceu da simples essência da vida.
É preciso enxergar a vida com lentes de aumento
para compreender as suas miudezas.
Somos seres finitos, e esse é um fato.
Mas é necessário perceber que a
verdadeira morte é fruto do esquecimento.
Enquanto restarem lembranças,
as pessoas continuarão vivas,
como o brilho eterno das estrelas.
E, o que realmente permanecerá serão
os momentos vividos ao acaso,
a bondade sem holofotes,
as amizades sinceras e desinteressadas
e uma compreensão mais profunda de si e do outro.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Aster. Revista Literatura Errante - Memória, p. 28, 22 jun. 2021.
a humanidade fez grandes descobertas.
Aprendeu a dominar a arte
da linguagem, dos números e do fogo.
Porém, no meio do caminho,
em sua sede inesgotável pelo poder,
se esqueceu da simples essência da vida.
É preciso enxergar a vida com lentes de aumento
para compreender as suas miudezas.
Somos seres finitos, e esse é um fato.
Mas é necessário perceber que a
verdadeira morte é fruto do esquecimento.
Enquanto restarem lembranças,
as pessoas continuarão vivas,
como o brilho eterno das estrelas.
E, o que realmente permanecerá serão
os momentos vividos ao acaso,
a bondade sem holofotes,
as amizades sinceras e desinteressadas
e uma compreensão mais profunda de si e do outro.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Aster. Revista Literatura Errante - Memória, p. 28, 22 jun. 2021.
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Retrato
A realidade é filtrada pelo olhar, por isso
o ato de observar o mundo é revolucionário.
É ir além da superfície rotineira e
mergulhar em busca de respostas
para perguntas que muitos ignoram.
A arte (r)existe para que nada retroceda.
As fotografias são espelhos de momentos, ecos do tempo.
Ao observá-las (re)vivemos e (re)criamos memórias.
Com a palavra, eu fotografo o mundo.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Retrato. Revista Literatura Errante - Memória, p. 29, 22 jun. 2021.
o ato de observar o mundo é revolucionário.
É ir além da superfície rotineira e
mergulhar em busca de respostas
para perguntas que muitos ignoram.
A arte (r)existe para que nada retroceda.
As fotografias são espelhos de momentos, ecos do tempo.
Ao observá-las (re)vivemos e (re)criamos memórias.
Com a palavra, eu fotografo o mundo.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Retrato. Revista Literatura Errante - Memória, p. 29, 22 jun. 2021.
👁️ 998
A origem
Me foi dada uma difícil missão,
nomear todos os seres da terra.
Capturar-lhes a essência,
identidade e significado,
em uma única palavra.
Escolher um nome é contar uma história.
Mas, o que veio primeiro?
O nome ou o significado?
Nessa minha difícil missão,
vivo sobressaltado.
E se um dia eu esquecer as palavras?
Como algo tão pequeno pode conter o mundo?
A palavra contém o mundo.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema A origem. In: Revista Sucuru, 02 jul. 2021.
nomear todos os seres da terra.
Capturar-lhes a essência,
identidade e significado,
em uma única palavra.
Escolher um nome é contar uma história.
Mas, o que veio primeiro?
O nome ou o significado?
Nessa minha difícil missão,
vivo sobressaltado.
E se um dia eu esquecer as palavras?
Como algo tão pequeno pode conter o mundo?
A palavra contém o mundo.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema A origem. In: Revista Sucuru, 02 jul. 2021.
👁️ 474
O Relicário
Após uma longa noite de sonhos intranquilos, Moira desperta sobressaltada, levanta-se e põe-se em frente a uma antiga penteadeira – uma relíquia pertencente à sua família por gerações. Por um instante, ela contempla o espelho e vê uma mulher de oitenta anos, com seus cabelos grisalhos em completo desalinho, rugas ao redor dos olhos e da boca, bem como olhos azuis, que outrora cintilavam, mas agora se encontram opacos.
“Em qual espelho ficou perdida a minha face?”, suspirou, angustiada.
Moira é uma juíza renomada, aposentada há alguns anos, que mora em uma suntuosa mansão. Mas, apesar de toda a sua riqueza, não tem herdeiros. Logo após a aposentadoria, ela entrou em crise, pois encontrou-se frente a frente com a pergunta que a inquietou por toda a sua vida: quando será o meu tempo?
Ao sair de seu quarto, Moira caminha até uma grande janela, no final do corredor, e põe-se a observar a chuva. À medida que cada pequeno cristal d’água cai sobre a grama, traz à tona, com toda a vivacidade, as antigas memórias da aurora de sua vida.
A pequena Moira adorava dias de chuva, pois, nesses dias, sua mãe tinha o hábito de contar histórias, sentada em uma cadeira de balanço, para ela e suas duas irmãs, que faleceram em um trágico acidente quando Moira tinha apenas cinco anos de idade. Por isso, a menina cresceu sufocada pela superproteção materna e pelas altas expectativas do pai.
Agora, em frente à grande janela, Moira estava tão absorta em seus pensamentos que não percebeu o avançar das horas. Permaneceu nesse transe até as sete horas, quando a governanta veio chamá-la para tomar seu desjejum. Alguns instantes depois, Moira estava perante a mesa posta com fartura, mas estava sem apetite, e quis tomar apenas uma xícara de chá.
“De fato, do fundo do poço só se pode tirar memórias ou mesmices...”, refletiu Moira.
Que contraste Moira enxergou entre a fartura desse café da manhã, para uma única pessoa, e todas as refeições de sua família – ou até mesmo a ausência delas – em seus dias de infância. Essa percepção transportou-a para o dia em que sua mãe recebeu um misterioso presente de uma falecida senhora: uma penteadeira de mogno, com miligramas de ouro incrustado em desenhos floreados, e um espelho embutido no majestoso móvel.
Moira aprendeu a ler e escrever bem cedo. Seus dias eram milimetricamente administrados pelo pai, que tinha um único objetivo na vida: fazer com que a filha jamais enfrentasse as mesmas privações pelas quais ele passou. Por isso, a menina tinha de estudar, dia e noite, para que, no futuro, tivesse uma profissão de prestígio e retorno financeiro a curto prazo.
Após o seu desjejum, Moira caminha por vários corredores e decide ir até o seu oásis particular: uma biblioteca de grandes dimensões, com prateleiras até o teto, todas preenchidas com edições de luxo de centenas de livros, desde os clássicos até os contemporâneos da literatura universal, em vários idiomas. Um leve lampejo acende uma fagulha em seus olhos azuis. Ela está no único lugar em que realmente se sente realizada.
Moira pensou como teria sido sua infância em uma biblioteca como aquela, como teria se divertido inventando suas próprias histórias, ou até mesmo imaginando ser a protagonista de seus romances favoritos.
Quando menina, seus passatempos favoritos, nas folgas de sua pesada rotina de estudos imposta pelo pai, eram ler contos de fadas e romances que a transportavam para outros momentos e mundos, e brincar em frente à majestosa penteadeira de sua mãe. Ao contemplar o espelho, ela não via a pequena garota de belos cachos castanhos e olhos azuis cintilantes, e sim a protagonista da história que estava lendo ou escrevendo.
O maior sonho de Moira era se tornar uma grande escritora no futuro. Por isso, ela tinha um diário, no qual criava um mundo todo seu, cuja única lei era a liberdade. Bem, esse era o seu sonho, porém ele não estava nos planos de seu pai, que queria, a todo custo, que ela fosse rica. Por essa razão, ela escondia seu diário na última gaveta do imponente móvel de mogno, assim também como sua força para escolher o próprio destino.
Ainda na biblioteca, uma pequena lágrima cai dos tristes olhos azuis de Moira, ao lembrar de seu antigo diário infantil e perceber o quanto a sua existência foi vazia... Vazia de significado, e, principalmente, de felicidade.
“Cada instante do nosso passado nos faz ser quem nós somos”, disse consigo mesma.
Nesse instante, a governanta entra na biblioteca e encontra Moira em prantos.
– A senhora está se sentindo bem? – perguntou a governanta.
– Não se preocupe comigo, só estou um pouco emotiva – disse Moira, enxugando as lágrimas.
– Desculpe interrompê-la, mas o Contador está lhe aguardando na sala de visitas. Devo pedir-lhe que retorne em outro momento? – disse a governanta, com um olhar compreensivo.
– Não. Diga que irei descer em alguns minutos – disse Moira, resignada.
– Certo, senhora. Você realmente está se sentindo bem? – insistiu a governanta.
– Obrigada pela preocupação, mas o meu problema não pode ser resolvido agora – disse Moira, enigmática. – Não deixe o Contador esperando, diga que irei em instantes.
A compaixão de sua funcionária a fez viajar mais uma vez em suas memórias. Moira viu-se perante o seu único e melhor amigo, que era também seu vizinho. Os dois costumavam brincar juntos no quintal de suas casas. Ele costumava ouvir pacientemente as queixas de Moira sobre a superproteção dos pais e como se sentia sufocada por isso. O garoto sempre a alegrava e distraía com suas histórias, pois ele também era dono de uma imaginação fértil. Porém, estava fadado a um destino no qual sua criatividade de nada valia. Ele era extremamente pobre, vivia em uma miséria maior do que a família de Moira jamais experimentaria. Por isso, quando completou apenas dez anos de idade, teve de começar a trabalhar em uma fábrica de tijolos, para que a família não definhasse de fome.
Temendo que a filha se apaixonasse pelo garoto quando eles chegassem à juventude e, assim, tivesse um destino diferente do que ele planejara, o pai de Moira proibiu a amizade das duas crianças, o que as condenou a um caminho no qual não havia tempo nem espaço para amizades ou sentimentos, somente para a monotonia diária e a solidão.
O temor do pai de Moira tinha uma explicação. No passado, ele é que fora o melhor amigo pobre de sua esposa. A avó, que Moira jamais conhecera, era uma mulher muito rica, que tinha apenas duas filhas, dentre as quais a primogênita um dia viria a ser a mãe de Moira. Contudo, a rica senhora não aprovava o relacionamento entre sua distinta filha e um rapaz tão humilde, pois acreditava não passar de um mero interesse financeiro. Por isso, deserdou sua primogênita no dia em que recebeu a notícia do casamento, e se ausentou, assim, para sempre da vida de sua filha. Somente em seu leito de morte arrependeu-se pela dura decisão e suplicou a sua segunda filha, a única herdeira de toda a sua fortuna, que entregasse a penteadeira à sua irmã, pois era uma relíquia que atravessava gerações de primogênitos dos seus antepassados.
Agora, em seu escritório, Moira discute acaloradamente com o seu Contador, pois descobre um desfalque em suas finanças. E toda essa agitação causa-lhe uma enorme dor no peito, e ela cai desmaiada.
Quando Moira recobra seus sentidos, ela encontra-se deitada em sua cama e percebe o olhar cansado de sua governanta, que ficara em vigília a noite inteira, cuidando de sua estimada senhora. Um turbilhão de pensamentos invade a mente de Moira. Ela enxerga sua vida como um delicado castelo de areia que está sendo soprado pelo impetuoso vento da morte. Restam, agora, poucos grãos... Ela percebe que sua existência foi preenchida unicamente pelas ausências de seu passado.
Em seu peito, aquela mesma dor se acentua; ela enxerga uma luz muito forte e imagina como teria sido a sua vida se ela tivesse, de fato, tomado as rédeas de seu próprio destino. Pois, em seu último suspiro, ela compreendeu que o futuro é um quebra-cabeça, com inúmeras lacunas, que podem ser preenchidas por várias peças disponíveis.
Inquieta, com a respiração ofegante, Moira desperta no dia de seu décimo oitavo aniversário. Tudo não passou de um sonho...
VELOSO, Gabriela Lages. Conto O Relicário. Revista Intransitiva - Memórias que nos atravessam, Rio de Janeiro, p. 62 - 67, 09 dez. 2020.
“Em qual espelho ficou perdida a minha face?”, suspirou, angustiada.
Moira é uma juíza renomada, aposentada há alguns anos, que mora em uma suntuosa mansão. Mas, apesar de toda a sua riqueza, não tem herdeiros. Logo após a aposentadoria, ela entrou em crise, pois encontrou-se frente a frente com a pergunta que a inquietou por toda a sua vida: quando será o meu tempo?
Ao sair de seu quarto, Moira caminha até uma grande janela, no final do corredor, e põe-se a observar a chuva. À medida que cada pequeno cristal d’água cai sobre a grama, traz à tona, com toda a vivacidade, as antigas memórias da aurora de sua vida.
A pequena Moira adorava dias de chuva, pois, nesses dias, sua mãe tinha o hábito de contar histórias, sentada em uma cadeira de balanço, para ela e suas duas irmãs, que faleceram em um trágico acidente quando Moira tinha apenas cinco anos de idade. Por isso, a menina cresceu sufocada pela superproteção materna e pelas altas expectativas do pai.
Agora, em frente à grande janela, Moira estava tão absorta em seus pensamentos que não percebeu o avançar das horas. Permaneceu nesse transe até as sete horas, quando a governanta veio chamá-la para tomar seu desjejum. Alguns instantes depois, Moira estava perante a mesa posta com fartura, mas estava sem apetite, e quis tomar apenas uma xícara de chá.
“De fato, do fundo do poço só se pode tirar memórias ou mesmices...”, refletiu Moira.
Que contraste Moira enxergou entre a fartura desse café da manhã, para uma única pessoa, e todas as refeições de sua família – ou até mesmo a ausência delas – em seus dias de infância. Essa percepção transportou-a para o dia em que sua mãe recebeu um misterioso presente de uma falecida senhora: uma penteadeira de mogno, com miligramas de ouro incrustado em desenhos floreados, e um espelho embutido no majestoso móvel.
Moira aprendeu a ler e escrever bem cedo. Seus dias eram milimetricamente administrados pelo pai, que tinha um único objetivo na vida: fazer com que a filha jamais enfrentasse as mesmas privações pelas quais ele passou. Por isso, a menina tinha de estudar, dia e noite, para que, no futuro, tivesse uma profissão de prestígio e retorno financeiro a curto prazo.
Após o seu desjejum, Moira caminha por vários corredores e decide ir até o seu oásis particular: uma biblioteca de grandes dimensões, com prateleiras até o teto, todas preenchidas com edições de luxo de centenas de livros, desde os clássicos até os contemporâneos da literatura universal, em vários idiomas. Um leve lampejo acende uma fagulha em seus olhos azuis. Ela está no único lugar em que realmente se sente realizada.
Moira pensou como teria sido sua infância em uma biblioteca como aquela, como teria se divertido inventando suas próprias histórias, ou até mesmo imaginando ser a protagonista de seus romances favoritos.
Quando menina, seus passatempos favoritos, nas folgas de sua pesada rotina de estudos imposta pelo pai, eram ler contos de fadas e romances que a transportavam para outros momentos e mundos, e brincar em frente à majestosa penteadeira de sua mãe. Ao contemplar o espelho, ela não via a pequena garota de belos cachos castanhos e olhos azuis cintilantes, e sim a protagonista da história que estava lendo ou escrevendo.
O maior sonho de Moira era se tornar uma grande escritora no futuro. Por isso, ela tinha um diário, no qual criava um mundo todo seu, cuja única lei era a liberdade. Bem, esse era o seu sonho, porém ele não estava nos planos de seu pai, que queria, a todo custo, que ela fosse rica. Por essa razão, ela escondia seu diário na última gaveta do imponente móvel de mogno, assim também como sua força para escolher o próprio destino.
Ainda na biblioteca, uma pequena lágrima cai dos tristes olhos azuis de Moira, ao lembrar de seu antigo diário infantil e perceber o quanto a sua existência foi vazia... Vazia de significado, e, principalmente, de felicidade.
“Cada instante do nosso passado nos faz ser quem nós somos”, disse consigo mesma.
Nesse instante, a governanta entra na biblioteca e encontra Moira em prantos.
– A senhora está se sentindo bem? – perguntou a governanta.
– Não se preocupe comigo, só estou um pouco emotiva – disse Moira, enxugando as lágrimas.
– Desculpe interrompê-la, mas o Contador está lhe aguardando na sala de visitas. Devo pedir-lhe que retorne em outro momento? – disse a governanta, com um olhar compreensivo.
– Não. Diga que irei descer em alguns minutos – disse Moira, resignada.
– Certo, senhora. Você realmente está se sentindo bem? – insistiu a governanta.
– Obrigada pela preocupação, mas o meu problema não pode ser resolvido agora – disse Moira, enigmática. – Não deixe o Contador esperando, diga que irei em instantes.
A compaixão de sua funcionária a fez viajar mais uma vez em suas memórias. Moira viu-se perante o seu único e melhor amigo, que era também seu vizinho. Os dois costumavam brincar juntos no quintal de suas casas. Ele costumava ouvir pacientemente as queixas de Moira sobre a superproteção dos pais e como se sentia sufocada por isso. O garoto sempre a alegrava e distraía com suas histórias, pois ele também era dono de uma imaginação fértil. Porém, estava fadado a um destino no qual sua criatividade de nada valia. Ele era extremamente pobre, vivia em uma miséria maior do que a família de Moira jamais experimentaria. Por isso, quando completou apenas dez anos de idade, teve de começar a trabalhar em uma fábrica de tijolos, para que a família não definhasse de fome.
Temendo que a filha se apaixonasse pelo garoto quando eles chegassem à juventude e, assim, tivesse um destino diferente do que ele planejara, o pai de Moira proibiu a amizade das duas crianças, o que as condenou a um caminho no qual não havia tempo nem espaço para amizades ou sentimentos, somente para a monotonia diária e a solidão.
O temor do pai de Moira tinha uma explicação. No passado, ele é que fora o melhor amigo pobre de sua esposa. A avó, que Moira jamais conhecera, era uma mulher muito rica, que tinha apenas duas filhas, dentre as quais a primogênita um dia viria a ser a mãe de Moira. Contudo, a rica senhora não aprovava o relacionamento entre sua distinta filha e um rapaz tão humilde, pois acreditava não passar de um mero interesse financeiro. Por isso, deserdou sua primogênita no dia em que recebeu a notícia do casamento, e se ausentou, assim, para sempre da vida de sua filha. Somente em seu leito de morte arrependeu-se pela dura decisão e suplicou a sua segunda filha, a única herdeira de toda a sua fortuna, que entregasse a penteadeira à sua irmã, pois era uma relíquia que atravessava gerações de primogênitos dos seus antepassados.
Agora, em seu escritório, Moira discute acaloradamente com o seu Contador, pois descobre um desfalque em suas finanças. E toda essa agitação causa-lhe uma enorme dor no peito, e ela cai desmaiada.
Quando Moira recobra seus sentidos, ela encontra-se deitada em sua cama e percebe o olhar cansado de sua governanta, que ficara em vigília a noite inteira, cuidando de sua estimada senhora. Um turbilhão de pensamentos invade a mente de Moira. Ela enxerga sua vida como um delicado castelo de areia que está sendo soprado pelo impetuoso vento da morte. Restam, agora, poucos grãos... Ela percebe que sua existência foi preenchida unicamente pelas ausências de seu passado.
Em seu peito, aquela mesma dor se acentua; ela enxerga uma luz muito forte e imagina como teria sido a sua vida se ela tivesse, de fato, tomado as rédeas de seu próprio destino. Pois, em seu último suspiro, ela compreendeu que o futuro é um quebra-cabeça, com inúmeras lacunas, que podem ser preenchidas por várias peças disponíveis.
Inquieta, com a respiração ofegante, Moira desperta no dia de seu décimo oitavo aniversário. Tudo não passou de um sonho...
VELOSO, Gabriela Lages. Conto O Relicário. Revista Intransitiva - Memórias que nos atravessam, Rio de Janeiro, p. 62 - 67, 09 dez. 2020.
👁️ 627
À própria sorte
In memorian às vítimas da COVID-19
“Ei, hoje eu tô aqui, porque preciso da ajuda de ocês. Eu sô pobre, eu passo nicissidade. Eu e minha filha precisamu de dinhero pra comprá carvão, farinha e arroz. Eu só tô pedindo aqui, porque passo nicissidade” – na porta de uma agência bancária, gritava, cada vez mais alto, a velha senhora, em uma espécie de monólogo. Aparentemente, esse é somente um dia comum. Quantas pessoas como ela não vivem mendigando para sobreviver? Porém, estamos bem distantes do que antes era conhecido como normalidade. Um ano já se passou. Tantos entes queridos partiram. Em média, estamos perdendo 4.000 brasileiros, diariamente, para a COVID-19.
Lembro-me bem, em um dia todos estávamos trabalhando, estudando, caminhando... vivendo. No instante seguinte, fomos bombardeados com a notícia de que deveríamos ficar em casa por apenas 15 dias, mas disseram que não deveríamos entrar em pânico. O tempo passou e os dias foram multiplicando-se. Nas ruas, nas casas, nos estabelecimentos, o medo se instalou permanentemente, pois a morte, com seu vento devastador, passou a levar a cada dia mais vítimas. Agora estamos nas trincheiras dessa guerra invisível, lutando pela vida, com armas simples, mas eficazes – higiene, máscaras e distanciamento social.
Entretanto, a negligência seletiva, aprendida desde o início dos tempos, tem prevalecido. E, agora, não somente as súplicas dos necessitados tem sido ignoradas, mas também a dos governadores, médicos e cientistas. Apesar das milhares de mortes, para muitos o negacionismo impera. “Nada está acontecendo, isso é só uma gripezinha, vai passar logo logo” – em uma esquina, dois amigos conversam, rindo da preocupação mundial. E, assim, a pandemia tem se agravado e prolongado. Até quando essa situação irá perdurar? Somente o tempo dirá.
VELOSO, Gabriela Lages. Crônica À própria sorte. In: Revista Minerva, 26 abr. 2021.
👁️ 533
Sobre viver
Minha casa é o mundo.
Navio sem porto.
Minha comida é esmola.
Chuva no deserto.
Invisível, que sou,
Ando para sempre e nunca.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Sobre viver. In: Revista Cosmopolita, 10 mai. 2021.
Navio sem porto.
Minha comida é esmola.
Chuva no deserto.
Invisível, que sou,
Ando para sempre e nunca.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Sobre viver. In: Revista Cosmopolita, 10 mai. 2021.
👁️ 482
Vida
Sou intensamente breve,
Como um sonho.
Feita de retalhos de instantes.
E, nessa minha brevidade,
De segundos contados,
Devo ser tratada sabiamente.
Nas tormentas,
Os pesos devem ser arremessados
No mar do esquecimento.
Nas bonanças,
As lembranças devem ser recolhidas,
Ternamente, no abrigo da memória.
Em mim, tudo é essencial
Chuva e aridez.
Resisto ao tempo e às intempéries.
Não tenho caminhos fixos,
Sou caleidoscópica.
Por isso, não se engane,
Não existe um único propósito para mim.
Sou um enigma a ser descoberto.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Vida. In: As Literatas. MARANHAY - (Revista do Léo ) - 56 - março 2021 - EDIÇÃO ESPECIAL: ANTOLOGIA - MULHERES DE ATENAS, São Luís - MA, 04 mar. 2021.
Como um sonho.
Feita de retalhos de instantes.
E, nessa minha brevidade,
De segundos contados,
Devo ser tratada sabiamente.
Nas tormentas,
Os pesos devem ser arremessados
No mar do esquecimento.
Nas bonanças,
As lembranças devem ser recolhidas,
Ternamente, no abrigo da memória.
Em mim, tudo é essencial
Chuva e aridez.
Resisto ao tempo e às intempéries.
Não tenho caminhos fixos,
Sou caleidoscópica.
Por isso, não se engane,
Não existe um único propósito para mim.
Sou um enigma a ser descoberto.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Vida. In: As Literatas. MARANHAY - (Revista do Léo ) - 56 - março 2021 - EDIÇÃO ESPECIAL: ANTOLOGIA - MULHERES DE ATENAS, São Luís - MA, 04 mar. 2021.
👁️ 478
Dilema
Pessoas. Animais. Plantas.
Somos a natureza.
Então, por que ferimos a nós mesmos?
Para que tanta violência?
Fome é violência.
Desmatamento é violência.
Cárcere é violência.
Ser ou não ser? Essa é a questão.
Contra quem lutamos?
O que queremos?
Dinheiro, fama ou destruição?
Miséria é violência.
Egoísmo é violência.
Poluição é violência.
Ser ou não ser?
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Dilema. In: Revista Literatura Errante, 28 abr. 2021.
Somos a natureza.
Então, por que ferimos a nós mesmos?
Para que tanta violência?
Fome é violência.
Desmatamento é violência.
Cárcere é violência.
Ser ou não ser? Essa é a questão.
Contra quem lutamos?
O que queremos?
Dinheiro, fama ou destruição?
Miséria é violência.
Egoísmo é violência.
Poluição é violência.
Ser ou não ser?
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Dilema. In: Revista Literatura Errante, 28 abr. 2021.
👁️ 509
A ilha de pedra
Certa vez foi dito que
Precisamos sair da
Ilha para vê-la,
Em sua plenitude.
Daqui observo os telhados,
O traçado das ruas,
O ir e vir de pessoas
Carros e motocicletas.
Daqui enxergo tudo claramente,
O verde quase inexistente,
O ar cinzento,
Os lugares invisíveis.
Daqui vejo a ilha de pedra
Edificada sobre os restos de vida,
Onde todos correm sem destino
E os dias são sempre os mesmos.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema A ilha de pedra. In: As Literatas. MARANHAY - (Revista do Léo ) - 56 - março 2021 - EDIÇÃO ESPECIAL: ANTOLOGIA - MULHERES DE ATENAS, São Luís - MA, 04 mar. 2021.
Precisamos sair da
Ilha para vê-la,
Em sua plenitude.
Daqui observo os telhados,
O traçado das ruas,
O ir e vir de pessoas
Carros e motocicletas.
Daqui enxergo tudo claramente,
O verde quase inexistente,
O ar cinzento,
Os lugares invisíveis.
Daqui vejo a ilha de pedra
Edificada sobre os restos de vida,
Onde todos correm sem destino
E os dias são sempre os mesmos.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema A ilha de pedra. In: As Literatas. MARANHAY - (Revista do Léo ) - 56 - março 2021 - EDIÇÃO ESPECIAL: ANTOLOGIA - MULHERES DE ATENAS, São Luís - MA, 04 mar. 2021.
👁️ 574
O maquinário
De Mão em Mão,
Peça por peça,
Tudo é padrão.
Produtos. Palavras. Pessoas.
Tudo é instantâneo.
Em um piscar de olhos,
Tudo é lixo.
E as Mãos recomeçam a sua árdua tarefa,
Peça por peça,
Tudo é eternamente novo.
Velocidade. Padrão. Lixo.
Antigo ciclo da novidade.
De Mão em Mão,
Peça por peça,
Tudo é insuficiente.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema O maquinário. Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea, 15 mar. 2021.
Peça por peça,
Tudo é padrão.
Produtos. Palavras. Pessoas.
Tudo é instantâneo.
Em um piscar de olhos,
Tudo é lixo.
E as Mãos recomeçam a sua árdua tarefa,
Peça por peça,
Tudo é eternamente novo.
Velocidade. Padrão. Lixo.
Antigo ciclo da novidade.
De Mão em Mão,
Peça por peça,
Tudo é insuficiente.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema O maquinário. Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea, 15 mar. 2021.
👁️ 460
Comentários (4)
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Gabriela Lages Veloso
2021-04-08
Luana, minha amiga, obrigada!
Luana Kerly
2021-04-08
Perfeitos!! ????
Gabriela Lages Veloso
2021-04-05
Muito obrigada pela leitura, João Euzébio!
joaoeuzebio
2021-04-05
COMO AS PALAVRAS FLUEM EM UM JEITO MAGICO DE POEMA ÉLINDO UM ABRAÇO
Contista, cronista, poetisa e ensaísta. Em 2021, foi membro da Revista Literatura Errante. Atualmente, é Colunista da Revista Sucuru e Editora da Sociedade Carolina.
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