Lista de Poemas
Sonho morto
Com as mãos trêmulas tira da prateleira a xícara e o pires de porcelana.
Com as pernas do passado caminha até a mesa e, sem fazer ruído, pousa o pires, a xícara e a sua solidão.
Retorna à prateleira com os olhos vazios e retira o pote de café. Abre uma das gavetas onde dorme uma colher de aço que sobreviverá ao tempo.
Caminha até a mesa como um relógio que anda para trás.
Abre o pote de café e afunda nele a colher, mas se dá conta de que se esqueceu do bule, do filtro e da garrafa térmica.
Deixa a colher mergulhada no pó como uma pá cravada num cemitério.
Abre outra gaveta e seus dedos se movem como se tateassem algodão. Tira de lá o filtro de pano encardido de memórias. Abre a portinha superior do armário onde guarda o bule e a garrafa térmica.
Coloca o conjunto sobre a pia ao lado do fogão.
Encaixa o coador de pano e faz uma pausa para respirar.
Busca o pote de café e o coloca ao lado do filtro. Retira dele três colheres rasas para preencher o fundo do coador.
Enche o bule até a metade com a água da torneira.
Acende o fogão com um fósforo porque não gosta do ruído do funcionamento elétrico.
Deposita o bule sobre as chamas e observa a água tão calma como sua rotina sem palavras.
De repente um facho de sol raspa em sua janela e distrai sua atenção.
Observa o friso de luz que parece vasculhar sua intimidade, sua casa, seu resto de madrugada.
Entrevista o silêncio sem querer respostas. Que seja apenas o que tem sido, ora um confidente ora um vilão.
Borbulhas da fervura da água reclamam sua atenção.
Apaga o fogo e observa a água acalmar-se debaixo do vapor que desaparece no ar como tantas outras coisas.
Despeja a água no filtro sem nenhuma pressa, como quem derrama saudade e dor.
Vê o café atravessando o filtro feito um fiapo de escuridão solitária que se mistura nas espumas do tempo.
Conclui que cada dia é uma lâmina que disseca ilusões.
O sol faz mais força para invadir.
Suas mãos erguem a garrafa térmica como um troféu aposentado.
Caminha na frente da própria sombra em direção à mesa.
Apoia seu corpo com uma das mãos espalmada sobre aquela fração da eternidade, e senta-se ao som do próprio suspiro.
Olha sua xícara vazia e a cadeira vazia do outro lado.
O aroma do café lhe sussurra uma lembrança.
Despeja o café na xícara como quem enxerga um sonho morto.
Pega na xícara com a mesma lentidão dos dias anteriores. Toma um gole na esperança de que o futuro realize seu último segredo.
Com as pernas do passado caminha até a mesa e, sem fazer ruído, pousa o pires, a xícara e a sua solidão.
Retorna à prateleira com os olhos vazios e retira o pote de café. Abre uma das gavetas onde dorme uma colher de aço que sobreviverá ao tempo.
Caminha até a mesa como um relógio que anda para trás.
Abre o pote de café e afunda nele a colher, mas se dá conta de que se esqueceu do bule, do filtro e da garrafa térmica.
Deixa a colher mergulhada no pó como uma pá cravada num cemitério.
Abre outra gaveta e seus dedos se movem como se tateassem algodão. Tira de lá o filtro de pano encardido de memórias. Abre a portinha superior do armário onde guarda o bule e a garrafa térmica.
Coloca o conjunto sobre a pia ao lado do fogão.
Encaixa o coador de pano e faz uma pausa para respirar.
Busca o pote de café e o coloca ao lado do filtro. Retira dele três colheres rasas para preencher o fundo do coador.
Enche o bule até a metade com a água da torneira.
Acende o fogão com um fósforo porque não gosta do ruído do funcionamento elétrico.
Deposita o bule sobre as chamas e observa a água tão calma como sua rotina sem palavras.
De repente um facho de sol raspa em sua janela e distrai sua atenção.
Observa o friso de luz que parece vasculhar sua intimidade, sua casa, seu resto de madrugada.
Entrevista o silêncio sem querer respostas. Que seja apenas o que tem sido, ora um confidente ora um vilão.
Borbulhas da fervura da água reclamam sua atenção.
Apaga o fogo e observa a água acalmar-se debaixo do vapor que desaparece no ar como tantas outras coisas.
Despeja a água no filtro sem nenhuma pressa, como quem derrama saudade e dor.
Vê o café atravessando o filtro feito um fiapo de escuridão solitária que se mistura nas espumas do tempo.
Conclui que cada dia é uma lâmina que disseca ilusões.
O sol faz mais força para invadir.
Suas mãos erguem a garrafa térmica como um troféu aposentado.
Caminha na frente da própria sombra em direção à mesa.
Apoia seu corpo com uma das mãos espalmada sobre aquela fração da eternidade, e senta-se ao som do próprio suspiro.
Olha sua xícara vazia e a cadeira vazia do outro lado.
O aroma do café lhe sussurra uma lembrança.
Despeja o café na xícara como quem enxerga um sonho morto.
Pega na xícara com a mesma lentidão dos dias anteriores. Toma um gole na esperança de que o futuro realize seu último segredo.
👁️ 87
O tamanho da eternidade
Quem poderá dizer qual é a profundidade da eternidade?
Penso nesse amor no qual caio em queda livre, ao mesmo tempo em que os ponteiros dos segundos passam mais lentos que os das horas.
Meus desejos me cercam como um monstro calado com seus muitos braços, e muitos pensamentos também.
Eu sei que você pensa em mim quando quer, mas só quando quer.
O tempo é uma espécie de poço e cada um tem o seu próprio poço com diferentes ecos.
Agora mesmo minha garganta se abre com as sílabas do teu nome que gotejam do alto da minha mente.
Felizmente só eu escuto.
Tem sido sempre assim, esse gotejamento que depois vira uma cachoeira de outras palavras que espumam promessas misturadas com o teu nome.
Eu coloco uma tampa no poço.
Aprendi a fazer o tempo parar.
Cada pessoa tem a eternidade do tamanho que consegue.
Penso nesse amor no qual caio em queda livre, ao mesmo tempo em que os ponteiros dos segundos passam mais lentos que os das horas.
Meus desejos me cercam como um monstro calado com seus muitos braços, e muitos pensamentos também.
Eu sei que você pensa em mim quando quer, mas só quando quer.
O tempo é uma espécie de poço e cada um tem o seu próprio poço com diferentes ecos.
Agora mesmo minha garganta se abre com as sílabas do teu nome que gotejam do alto da minha mente.
Felizmente só eu escuto.
Tem sido sempre assim, esse gotejamento que depois vira uma cachoeira de outras palavras que espumam promessas misturadas com o teu nome.
Eu coloco uma tampa no poço.
Aprendi a fazer o tempo parar.
Cada pessoa tem a eternidade do tamanho que consegue.
👁️ 419
Alô?!
Vai demorar pra você me perdoar. Se te conheço bem, você já planejou esse dia. Será na cabeceira do meu túmulo. Você não vai perder a oportunidade de me enterrar mais fundo no cemitério com suas palavras. Depois de dizer o que bem entender, aposto que vai cuspir na foto da minha lápide.
Já te vejo voltando pra casa com um sorriso de vingança dançando na tua boca fechada. Sim. Você vai voltar de ônibus e não vai deixar ninguém perceber quem você é, nem de onde está vindo. Você sentada naquela janela dos fundos, olhando a paisagem veloz com teu velho sentimento de “aqui se faz, aqui se paga”. Só se esqueceu que eu estaria a sete palmos de terra e surdo para seus xingamentos. Não quer me perdoar, azar o seu. Vou terminar de arrumar minhas malas e ouvir teus gritos com você descabelada aqui dentro do quarto só serve para você mesma. Pra mim, você não passa de um amontoado de ideias vis misturadas com birras infantis. Pode gritar, pode arrancar os cabelos. Vou deixar de propósito, sem você ver, uma cueca no fundo do guarda-roupa. Você nunca arruma nada mesmo. Quando ficar velha e for vender tudo isso aqui para um brechó, vai descobrir minha cueca e você vai ouvir minha gargalhada lá do inferno.
Pronto. Nada como sair pela porta da frente com a cabeça erguida. Bati a porta com vontade. Se o vizinho chamar a polícia igual da outra vez, já não estarei mais aqui. Daquela vez bati a porta ao contrário: entrando em casa. Bati, e bateria mil vezes. Mas você nem ouviu. Estava naquele teu banho quente. Acho que foi isso, o vizinho ouviu a porta batendo, depois escutou meus gritos, ouviu teus gritos “para Alfredo, para com isso Alfredo”. Eu só estava fechando a porcaria do chuveiro, me molhei todo e queria uma explicação apontando o dedo para o teu celular sobre a tampa do vaso. O vizinho sacou que não eram gritos como os de nossas noites de sexo com aqueles abusos que você pede pra eu fazer com você. O vizinho estava certo. Tinha que chamar mesmo a polícia. Quando eles chegaram você teve a cara de pau de dizer “não conheço nenhum Bruno”. Esqueceu que sou perito em informática?
Agora eu bati a porta ao contrário. Bati saindo e carregando duas malas. Eu dei o troco e valeu a pena. A Vanessa é um espetáculo. E é do signo de escorpião, sacou? Sabe como fazer o negócio.
— Táxi!
-----------------------------------------------
Bem que minha mãe falou “não casa, não casa, homem é tudo igual”. Pode até ser, mas o Alfredo só batia onde eu pedia, na hora que eu pedia e do jeito que eu queria. Fui burra? Acho que não. Quando é que esses homens vão entender que estamos no século XXI? O Alfredo não ficou puto porque eu saí com o Bruno. Ficou puto porque não o chamei pra estar junto. Homem de peixes é foda. Eu já prefiro dizer “pisciano é tudo igual”. O povo acha que o pisciano é aquele tipo “paz e amor”, chegado a ervas, fumos e bebidas destiladas, acham que vivem ouvindo Enya e Kitaro, não sabem de nada. Esses caras de peixes são espertinhos, vão levando todo mundo no papo, com aquela voz de dengo, aquele jeitinho manso, mas ninguém sabe do que são capazes. Digo, psicologicamente. Todo mundo cai naquela de que vivem na deprê, kkkkkkk, pura fachada. Essa turma aí tem uma cabeça protegida por aço com titânio. E aquele fuzuê de gritaria é tudo fachada também. Eles têm uma técnica de jogar adrenalina no sangue da gente, pra depois pousarem as mãos no nosso corpo, a boca, os dedos e saiam da frente.
Bateu a porta, eu sei. Ok, pode estar puto sim. Se leu a troca de mensagens, tem motivo de sobras pra ficar puto. Mas insisto na tese de que preferia participar do negócio, ver como as palavras seriam materializadas entre quatro paredes. Mas não viu. Isto é, só viu as palavras. Não viu o resto. Conheço o Alfredo. Em menos de três dias vai me ligar pedindo perdão. Eu vou dizer que dessa vez vai demorar pra perdoar. Ele me conhece. Eu gosto de guardar rancor. Certas emoções não vale a pena descartar. A gente se sente viva.
Agora tem uma coisa: se ele não telefonar ainda nesta semana, então a coisa ficou feia. Quem tá batendo na minha porta?
Oi, vizinho. Obrigada pela preocupação. Está tudo bem. O vento bateu a porta. “Esse cara é doido pra me comer, pensa que não percebo”.
Então, como eu tava dizendo, a coisa ficou feia porque não gosto de dormir sozinha. Eu minto pra meia-dúzia de pessoas, digo que sinto saudade de quando morava sozinha aqui, blá blá blá. Ainda vou numa psicóloga pra saber por que eu minto tanto. Tive a coragem de dizer naquela vez que eu não conhecia nenhum Bruno. E o pior: disse como sendo a mais pura verdade. E sei que não foi isso que deixou o Alfredo puto. Acho que já falei isso. Merda, quem tá me ligando na hora do meu autoexame de consciência?
— Alô?!
Já te vejo voltando pra casa com um sorriso de vingança dançando na tua boca fechada. Sim. Você vai voltar de ônibus e não vai deixar ninguém perceber quem você é, nem de onde está vindo. Você sentada naquela janela dos fundos, olhando a paisagem veloz com teu velho sentimento de “aqui se faz, aqui se paga”. Só se esqueceu que eu estaria a sete palmos de terra e surdo para seus xingamentos. Não quer me perdoar, azar o seu. Vou terminar de arrumar minhas malas e ouvir teus gritos com você descabelada aqui dentro do quarto só serve para você mesma. Pra mim, você não passa de um amontoado de ideias vis misturadas com birras infantis. Pode gritar, pode arrancar os cabelos. Vou deixar de propósito, sem você ver, uma cueca no fundo do guarda-roupa. Você nunca arruma nada mesmo. Quando ficar velha e for vender tudo isso aqui para um brechó, vai descobrir minha cueca e você vai ouvir minha gargalhada lá do inferno.
Pronto. Nada como sair pela porta da frente com a cabeça erguida. Bati a porta com vontade. Se o vizinho chamar a polícia igual da outra vez, já não estarei mais aqui. Daquela vez bati a porta ao contrário: entrando em casa. Bati, e bateria mil vezes. Mas você nem ouviu. Estava naquele teu banho quente. Acho que foi isso, o vizinho ouviu a porta batendo, depois escutou meus gritos, ouviu teus gritos “para Alfredo, para com isso Alfredo”. Eu só estava fechando a porcaria do chuveiro, me molhei todo e queria uma explicação apontando o dedo para o teu celular sobre a tampa do vaso. O vizinho sacou que não eram gritos como os de nossas noites de sexo com aqueles abusos que você pede pra eu fazer com você. O vizinho estava certo. Tinha que chamar mesmo a polícia. Quando eles chegaram você teve a cara de pau de dizer “não conheço nenhum Bruno”. Esqueceu que sou perito em informática?
Agora eu bati a porta ao contrário. Bati saindo e carregando duas malas. Eu dei o troco e valeu a pena. A Vanessa é um espetáculo. E é do signo de escorpião, sacou? Sabe como fazer o negócio.
— Táxi!
-----------------------------------------------
Bem que minha mãe falou “não casa, não casa, homem é tudo igual”. Pode até ser, mas o Alfredo só batia onde eu pedia, na hora que eu pedia e do jeito que eu queria. Fui burra? Acho que não. Quando é que esses homens vão entender que estamos no século XXI? O Alfredo não ficou puto porque eu saí com o Bruno. Ficou puto porque não o chamei pra estar junto. Homem de peixes é foda. Eu já prefiro dizer “pisciano é tudo igual”. O povo acha que o pisciano é aquele tipo “paz e amor”, chegado a ervas, fumos e bebidas destiladas, acham que vivem ouvindo Enya e Kitaro, não sabem de nada. Esses caras de peixes são espertinhos, vão levando todo mundo no papo, com aquela voz de dengo, aquele jeitinho manso, mas ninguém sabe do que são capazes. Digo, psicologicamente. Todo mundo cai naquela de que vivem na deprê, kkkkkkk, pura fachada. Essa turma aí tem uma cabeça protegida por aço com titânio. E aquele fuzuê de gritaria é tudo fachada também. Eles têm uma técnica de jogar adrenalina no sangue da gente, pra depois pousarem as mãos no nosso corpo, a boca, os dedos e saiam da frente.
Bateu a porta, eu sei. Ok, pode estar puto sim. Se leu a troca de mensagens, tem motivo de sobras pra ficar puto. Mas insisto na tese de que preferia participar do negócio, ver como as palavras seriam materializadas entre quatro paredes. Mas não viu. Isto é, só viu as palavras. Não viu o resto. Conheço o Alfredo. Em menos de três dias vai me ligar pedindo perdão. Eu vou dizer que dessa vez vai demorar pra perdoar. Ele me conhece. Eu gosto de guardar rancor. Certas emoções não vale a pena descartar. A gente se sente viva.
Agora tem uma coisa: se ele não telefonar ainda nesta semana, então a coisa ficou feia. Quem tá batendo na minha porta?
Oi, vizinho. Obrigada pela preocupação. Está tudo bem. O vento bateu a porta. “Esse cara é doido pra me comer, pensa que não percebo”.
Então, como eu tava dizendo, a coisa ficou feia porque não gosto de dormir sozinha. Eu minto pra meia-dúzia de pessoas, digo que sinto saudade de quando morava sozinha aqui, blá blá blá. Ainda vou numa psicóloga pra saber por que eu minto tanto. Tive a coragem de dizer naquela vez que eu não conhecia nenhum Bruno. E o pior: disse como sendo a mais pura verdade. E sei que não foi isso que deixou o Alfredo puto. Acho que já falei isso. Merda, quem tá me ligando na hora do meu autoexame de consciência?
— Alô?!
👁️ 74
Esperas
Ela entrou na emergência do hospital, tropeçou no meu pé, seguiu até o balcão sem parar de falar ao celular.
A recepcionista informou que seu pai foi levado para a cirurgia. Colocou o celular no ouvido outra vez, disse que esperaria ali e desligou.
Eu estava ali porque minha mãe também estava na sala de cirurgia.
A mulher do celular sentou-se, abriu sua bolsa e tirou um cigarro. Lembrou-se que ali não era lugar. Levantou-se e foi fumar no lado de fora.
Ela parou de fumar dois anos depois daquele tropeço. Hoje estávamos relembrando nosso encontro naquela sala de espera. Seu pai não resistiu à cirurgia, minha mãe também não. Soubemos disso quase ao mesmo tempo. Paula saiu do balcão chorando e sentou-se ao meu lado com o rosto entre as mãos. Ela disse que não se lembra, mas eu tenho certeza que foi ela que deitou a cabeça em meu ombro para chorar. Enquanto ela chorava chamaram o meu nome no balcão. Pedi licença. “Com licença, estão me chamando”, e ela retirou a cabeça do meu ombro, levantou-se e saiu. No balcão eu recebia a notícia da morte de minha mãe. Eu não tinha tanta esperança. Minha mãe descansou.
No dia seguinte Paula e eu nos encontramos noutro setor do hospital, no local onde os parentes cumprem a burocracia com assinaturas de papéis. Paula estava sozinha. Era filha única do falecido que era viúvo. Eu estava sozinho, filho único também. Não conheci meu pai.
Isso faz quinze anos. Temos a mesma idade, quarenta e cinco anos.
Hoje estamos aqui no mesmo hospital. Ela e eu aguardamos o resultado da mamografia. Estar aqui nos fez lembrar de como nos conhecemos.
Agora que chegamos em casa ela não quer falar do resultado do exame. Ao sair do carro, ela me pediu para ajudá-la a organizar suas coisas para doar. Livros, bijuterias, alguns calçados, casacos. Eu não queria fazer aquilo, mas eu conheço a Paula. Ela estava me pedindo uma prova de coragem, uma prova de amizade, um prova de resistência psicológica e, no entender dela, uma prova de amor.
Eu nunca fui de questioná-la. Comecei a retirar os livros dela da estante e separá-los em categorias. Os romances ela certamente doará para a Glorinha; os livros de sociologia vão para aquele chato do Alberto; as partituras de violino ela é capaz de doar ao ex-namorado e, meu Deus, o que ela vai fazer com aquela mala amarela lá no quintal?
Cheiro de fumaça. Espio pela janela da cozinha. As cartas guardadas. Uma por uma nas chamas. Eu prefiro observar. Eu sei que a Paula não faz mais aquelas coisas de se autoflagelar, furar partes de seu corpo com alfinetes... isso faz algum tempo. O pior já passou. Uma vez quebrou um copo e fez um risco com um caco de vidro na palma da mão. A Paula não vai se jogar naquela fogueira. Vou ficar de olho.
------------------------------
Ele conta que tropecei no pé dele quando entrei na emergência do hospital. Dizem que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Então foi isso. Sem saber tropecei no pé do Maurício e ganhei um companheiro de vida. Coisas de Deus. Eu já tinha me convencido de nunca me casar. Mas Deus sabe o que faz, me empurrou pra tropeçar naquele pé. Que sorte.
A recepcionista disse que meu pai já estava em cirurgia. Depois veio a notícia: não resistiu. De repente eu estava chorando sentada no ombro de alguém.
Um tropeço que não percebi, um ombro que não sei de quem era, um homem que nunca me questionou, um homem enviado dos céus.
Sempre fui sozinha. Minha cabeça vive focada nos minutos, ou melhor, nos segundos de cada instante. Eu nunca fui de guardar datas, nomes, mas sei identificar as pessoas que julgam as outras. Então preferia ficar sozinha. Aliás, o Maurício foi exceção. Quinze anos morando juntos, quinze anos de um ombro amigo.
Eu parei de fumar. Mas o estrago já estava feito.
Eu to vendo o Maurício me espiando pela janela da cozinha. Ele tem medo de eu fazer alguma coisa além de queimar as cartas do meu ex-namorado. Ninguém precisa ler as cartas do primeiro amor de uma pessoa. Alguém mais inteligente deduziria quando comecei a fumar, com quem comecei a fumar e por que estou diante dessa fogueira.
Vou queimar essa mala também. O Maurício deve estar com o coração a mil.
Vou entrar e chamá-lo para tomar um banho comigo. Ele gosta de passar xampu em mim, massagear meus cabelos com os dedos, passear o sabonete no meu corpo e fazer uma nuvem de espuma na palma da mão. Aí ele coloca a espuma no alto da minha cabeça e sorri.
Quando eu fechar meus olhos, irei com aquele sorriso.
A recepcionista informou que seu pai foi levado para a cirurgia. Colocou o celular no ouvido outra vez, disse que esperaria ali e desligou.
Eu estava ali porque minha mãe também estava na sala de cirurgia.
A mulher do celular sentou-se, abriu sua bolsa e tirou um cigarro. Lembrou-se que ali não era lugar. Levantou-se e foi fumar no lado de fora.
Ela parou de fumar dois anos depois daquele tropeço. Hoje estávamos relembrando nosso encontro naquela sala de espera. Seu pai não resistiu à cirurgia, minha mãe também não. Soubemos disso quase ao mesmo tempo. Paula saiu do balcão chorando e sentou-se ao meu lado com o rosto entre as mãos. Ela disse que não se lembra, mas eu tenho certeza que foi ela que deitou a cabeça em meu ombro para chorar. Enquanto ela chorava chamaram o meu nome no balcão. Pedi licença. “Com licença, estão me chamando”, e ela retirou a cabeça do meu ombro, levantou-se e saiu. No balcão eu recebia a notícia da morte de minha mãe. Eu não tinha tanta esperança. Minha mãe descansou.
No dia seguinte Paula e eu nos encontramos noutro setor do hospital, no local onde os parentes cumprem a burocracia com assinaturas de papéis. Paula estava sozinha. Era filha única do falecido que era viúvo. Eu estava sozinho, filho único também. Não conheci meu pai.
Isso faz quinze anos. Temos a mesma idade, quarenta e cinco anos.
Hoje estamos aqui no mesmo hospital. Ela e eu aguardamos o resultado da mamografia. Estar aqui nos fez lembrar de como nos conhecemos.
Agora que chegamos em casa ela não quer falar do resultado do exame. Ao sair do carro, ela me pediu para ajudá-la a organizar suas coisas para doar. Livros, bijuterias, alguns calçados, casacos. Eu não queria fazer aquilo, mas eu conheço a Paula. Ela estava me pedindo uma prova de coragem, uma prova de amizade, um prova de resistência psicológica e, no entender dela, uma prova de amor.
Eu nunca fui de questioná-la. Comecei a retirar os livros dela da estante e separá-los em categorias. Os romances ela certamente doará para a Glorinha; os livros de sociologia vão para aquele chato do Alberto; as partituras de violino ela é capaz de doar ao ex-namorado e, meu Deus, o que ela vai fazer com aquela mala amarela lá no quintal?
Cheiro de fumaça. Espio pela janela da cozinha. As cartas guardadas. Uma por uma nas chamas. Eu prefiro observar. Eu sei que a Paula não faz mais aquelas coisas de se autoflagelar, furar partes de seu corpo com alfinetes... isso faz algum tempo. O pior já passou. Uma vez quebrou um copo e fez um risco com um caco de vidro na palma da mão. A Paula não vai se jogar naquela fogueira. Vou ficar de olho.
------------------------------
Ele conta que tropecei no pé dele quando entrei na emergência do hospital. Dizem que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Então foi isso. Sem saber tropecei no pé do Maurício e ganhei um companheiro de vida. Coisas de Deus. Eu já tinha me convencido de nunca me casar. Mas Deus sabe o que faz, me empurrou pra tropeçar naquele pé. Que sorte.
A recepcionista disse que meu pai já estava em cirurgia. Depois veio a notícia: não resistiu. De repente eu estava chorando sentada no ombro de alguém.
Um tropeço que não percebi, um ombro que não sei de quem era, um homem que nunca me questionou, um homem enviado dos céus.
Sempre fui sozinha. Minha cabeça vive focada nos minutos, ou melhor, nos segundos de cada instante. Eu nunca fui de guardar datas, nomes, mas sei identificar as pessoas que julgam as outras. Então preferia ficar sozinha. Aliás, o Maurício foi exceção. Quinze anos morando juntos, quinze anos de um ombro amigo.
Eu parei de fumar. Mas o estrago já estava feito.
Eu to vendo o Maurício me espiando pela janela da cozinha. Ele tem medo de eu fazer alguma coisa além de queimar as cartas do meu ex-namorado. Ninguém precisa ler as cartas do primeiro amor de uma pessoa. Alguém mais inteligente deduziria quando comecei a fumar, com quem comecei a fumar e por que estou diante dessa fogueira.
Vou queimar essa mala também. O Maurício deve estar com o coração a mil.
Vou entrar e chamá-lo para tomar um banho comigo. Ele gosta de passar xampu em mim, massagear meus cabelos com os dedos, passear o sabonete no meu corpo e fazer uma nuvem de espuma na palma da mão. Aí ele coloca a espuma no alto da minha cabeça e sorri.
Quando eu fechar meus olhos, irei com aquele sorriso.
👁️ 74
Humana e mulher
Protagonista de preconceitos
Acusada de erros
Impedida de falar
Enjaulada em vilanias
Tolhida em seu caminhar
Personagem subalterna
Importância desinventada
Existência mutilada
Rebaixada por livros egóicos
Ontologia proibida
Desmerecida a priori
Ser outra à noite
Medida como objeto
Medida em cifrões
Medida em obediência
Medida em privações
Propriedade de parentes
Dilapidada por leis
Destino funesto
Sangue com ferrugem alheia
Ideias atadas em fogueiras
Mortas com o olhar no horizonte
Séculos insólitos
Desmentem futuros
Mulheres e mulheres
Atípicas, ácidas
Genuínas, lídimas
Cientistas, artistas
Maternais, guerreiras
Libertas, abertas
Avós da livre idade
A voz da liberdade
Humana e mulher
Acusada de erros
Impedida de falar
Enjaulada em vilanias
Tolhida em seu caminhar
Personagem subalterna
Importância desinventada
Existência mutilada
Rebaixada por livros egóicos
Ontologia proibida
Desmerecida a priori
Ser outra à noite
Medida como objeto
Medida em cifrões
Medida em obediência
Medida em privações
Propriedade de parentes
Dilapidada por leis
Destino funesto
Sangue com ferrugem alheia
Ideias atadas em fogueiras
Mortas com o olhar no horizonte
Séculos insólitos
Desmentem futuros
Mulheres e mulheres
Atípicas, ácidas
Genuínas, lídimas
Cientistas, artistas
Maternais, guerreiras
Libertas, abertas
Avós da livre idade
A voz da liberdade
Humana e mulher
👁️ 421
É óbvio
Quando a noite chega eu me deito e meus olhos ficam pendurados no escuro.
É óbvio que te enxergo.
Quando o dia amanhece eu me levanto e meus olhos ficam trancados atrás das pálpebras.
É óbvio que não me vês.
É óbvio que te enxergo.
Quando o dia amanhece eu me levanto e meus olhos ficam trancados atrás das pálpebras.
É óbvio que não me vês.
👁️ 422
A gente vai embora
Enfim, chega o dia.
A gente nasce, a gente chega ao mundo.
E um dia a gente vai embora. Quando a gente briga com alguém, a gente vai embora.
Um dia de cada vez, com amigos, parentes, colegas de escola ou de trabalho, quantas despedidas fizemos com o silêncio e o descaso pela dor do outro?
Cometemos suicídios afetivos.
A gente vai embora quando não pede desculpa.
Fazemos despedidas tácitas.
Vamos em nosso barco sem acenar aos pais, aos irmãos, aos filhos, aos amigos. O barco segue seu rumo ao horizonte vazio.
Alguém que tentou nos amar e não teve retribuição. Alguém que nos procurou em busca de uma palavra e nesse momento ainda está só.
Sem perceber, um dia após o outro, a gente vai embora em doses pequeninas. A gente simplesmente se vai.
Lembrar de alguém e deixar para o dia seguinte, não cumprimentar as pessoas, desdenhar da alegria alheia, depreciar um conselho, não reconhecer um gesto, a gente sempre dá um jeito de ir embora.
Enfim, chega a noite.
A gente nasce, a gente chega ao mundo.
E um dia a gente vai embora. Quando a gente briga com alguém, a gente vai embora.
Um dia de cada vez, com amigos, parentes, colegas de escola ou de trabalho, quantas despedidas fizemos com o silêncio e o descaso pela dor do outro?
Cometemos suicídios afetivos.
A gente vai embora quando não pede desculpa.
Fazemos despedidas tácitas.
Vamos em nosso barco sem acenar aos pais, aos irmãos, aos filhos, aos amigos. O barco segue seu rumo ao horizonte vazio.
Alguém que tentou nos amar e não teve retribuição. Alguém que nos procurou em busca de uma palavra e nesse momento ainda está só.
Sem perceber, um dia após o outro, a gente vai embora em doses pequeninas. A gente simplesmente se vai.
Lembrar de alguém e deixar para o dia seguinte, não cumprimentar as pessoas, desdenhar da alegria alheia, depreciar um conselho, não reconhecer um gesto, a gente sempre dá um jeito de ir embora.
Enfim, chega a noite.
👁️ 706
A vela
A vela
Luz da vela e sombras que gesticulam na parede. Formas que se evaporam no cimento inerte, vultos que dançam na tela dissimulada. A fumaça escoa manchando o ar. Cheiro de fogo e fumaça com cera derretida. Luz impaciente, debate-se presa ao pavio, deseja sua vida e estar viva na aurora. Por isso se gesticula tentando estar livre do breve destino que se esgota no pires.
O pires, alheio e anônimo na penumbra do quarto, ampara a vela e receberá o clamor da chama no instante derradeiro, em que desfar-se-ão todas as sombras - recentes tentáculos da escuridão.
A cera impregnada na porcelana se acumula enquanto a chama clareia.
Claridade discreta e duvidosa.
Lacrimeja a vela. Chora, chora porquanto incendeia. Luz da vela que luta pela eternidade. O pavio, carbonizado e conformado, não lhe dá trégua. Aprisiona a pobre chama.
E a vela se derrama sobre si própria enquanto pingam estas palavras de meus dedos.
Luminosidade frágil que ilumina esta página, a vela ataca-me com sua luz amarela de intensidade reticente. Sou cúmplice de seu inevitável destino. Do contrário ela ainda estaria na gaveta, pálida e fria. Mas dela eu preciso para escrever estas linhas na escuridão noturna.
Aqui, sozinho neste quarto, na companhia vaga das sombras, vago os olhos na chama e sua cercania. Vejo o contorno do pires e sua superfície onde quase lhe toca a chama. Ou melhor, onde já lhe toca a chama. E agora surge a fumaça mais negra e densa, e seu cheiro que avança me condena neste instante derradeiro. Observo a chama. Quase chama.
Tudo se mistura em total anarquia, tal como o grito - língua, boca e garganta. Lá estão unidos no seu espanto a diminuta vela, o pavio, a chama e a porcelana. A cera agora parece um tumor.
E a chama...
Quase que...
Quase...
Agonizam todas as sombras, agonizam todas as sombras, agonizam todas as sombras.
Nada vejo.
Luz da vela e sombras que gesticulam na parede. Formas que se evaporam no cimento inerte, vultos que dançam na tela dissimulada. A fumaça escoa manchando o ar. Cheiro de fogo e fumaça com cera derretida. Luz impaciente, debate-se presa ao pavio, deseja sua vida e estar viva na aurora. Por isso se gesticula tentando estar livre do breve destino que se esgota no pires.
O pires, alheio e anônimo na penumbra do quarto, ampara a vela e receberá o clamor da chama no instante derradeiro, em que desfar-se-ão todas as sombras - recentes tentáculos da escuridão.
A cera impregnada na porcelana se acumula enquanto a chama clareia.
Claridade discreta e duvidosa.
Lacrimeja a vela. Chora, chora porquanto incendeia. Luz da vela que luta pela eternidade. O pavio, carbonizado e conformado, não lhe dá trégua. Aprisiona a pobre chama.
E a vela se derrama sobre si própria enquanto pingam estas palavras de meus dedos.
Luminosidade frágil que ilumina esta página, a vela ataca-me com sua luz amarela de intensidade reticente. Sou cúmplice de seu inevitável destino. Do contrário ela ainda estaria na gaveta, pálida e fria. Mas dela eu preciso para escrever estas linhas na escuridão noturna.
Aqui, sozinho neste quarto, na companhia vaga das sombras, vago os olhos na chama e sua cercania. Vejo o contorno do pires e sua superfície onde quase lhe toca a chama. Ou melhor, onde já lhe toca a chama. E agora surge a fumaça mais negra e densa, e seu cheiro que avança me condena neste instante derradeiro. Observo a chama. Quase chama.
Tudo se mistura em total anarquia, tal como o grito - língua, boca e garganta. Lá estão unidos no seu espanto a diminuta vela, o pavio, a chama e a porcelana. A cera agora parece um tumor.
E a chama...
Quase que...
Quase...
Agonizam todas as sombras, agonizam todas as sombras, agonizam todas as sombras.
Nada vejo.
👁️ 138
Noite crua
Fumaça.
Vela derretida.
Fome.
Brasa entre minhas pernas.
Fome que faz doer, fome de dois sons entre duas gargantas.
A lua se derrete, o tempo se derrete, meus líquidos, ácidos ávidos, evaporam dentro de mim.
Vela e lua, claridade fugaz.
Deixei o portão aberto.
Meu corpo descoberto. Sou teu alvo, traz tua flecha. Mas não aquela dos cupidos, traz a tua que destrói meu pudor e marca minha carne.
Se não vier por devoção a mim, se não vier por paixão ou desejo, venha por pena. Sinta pena de mim e venha. Você sabe que não raciocino nessa cama vazia. Da outra vez você fez o que quis comigo, mas achei pouco. Você é muito puro, ah se conseguisse imaginar o que as mulheres fantasiam mas não têm coragem. Eu tenho.
Vem.
Entrou um vento pela janela. Tem cheiro de terra molhada. Está chovendo em algum lugar. Vai chover. Cenário perfeito para essa noite. Você disse que vinha. Deixa para os poetas essa coisa de ouvir a chuva, de fazer café, de escrever. Se um deles viesse aqui para poetizar meu corpo, duvido que ouvisse a chuva.
Vou fechar a janela, o céu desapareceu no aguaceiro.
Duvido que conseguisse ouvir a chuva ou tomar café ou escrever. Duvido que pudesse me enfeitar com palavras.
Meu cheiro borbulha no vulcão que carrego, tenho uma palpitação fora do coração, bem aqui ó.
Agora faltou luz. Mas o portão está aberto.
Numa noite como esta só falta você chegar.
Taquicardia.
Vela acesa.
Fogo.
Vela derretida.
Fome.
Brasa entre minhas pernas.
Fome que faz doer, fome de dois sons entre duas gargantas.
A lua se derrete, o tempo se derrete, meus líquidos, ácidos ávidos, evaporam dentro de mim.
Vela e lua, claridade fugaz.
Deixei o portão aberto.
Meu corpo descoberto. Sou teu alvo, traz tua flecha. Mas não aquela dos cupidos, traz a tua que destrói meu pudor e marca minha carne.
Se não vier por devoção a mim, se não vier por paixão ou desejo, venha por pena. Sinta pena de mim e venha. Você sabe que não raciocino nessa cama vazia. Da outra vez você fez o que quis comigo, mas achei pouco. Você é muito puro, ah se conseguisse imaginar o que as mulheres fantasiam mas não têm coragem. Eu tenho.
Vem.
Entrou um vento pela janela. Tem cheiro de terra molhada. Está chovendo em algum lugar. Vai chover. Cenário perfeito para essa noite. Você disse que vinha. Deixa para os poetas essa coisa de ouvir a chuva, de fazer café, de escrever. Se um deles viesse aqui para poetizar meu corpo, duvido que ouvisse a chuva.
Vou fechar a janela, o céu desapareceu no aguaceiro.
Duvido que conseguisse ouvir a chuva ou tomar café ou escrever. Duvido que pudesse me enfeitar com palavras.
Meu cheiro borbulha no vulcão que carrego, tenho uma palpitação fora do coração, bem aqui ó.
Agora faltou luz. Mas o portão está aberto.
Numa noite como esta só falta você chegar.
Taquicardia.
Vela acesa.
Fogo.
👁️ 163
Sonho morto
Com as mãos trêmulas tira da prateleira a xícara e o pires de porcelana.
Com as pernas do passado caminha até a mesa e, sem fazer ruído, pousa o pires, a xícara e a sua solidão.
Retorna à prateleira com os olhos vazios e retira o pote de café. Abre uma das gavetas onde dorme uma colher de aço que sobreviverá ao tempo.
Caminha até a mesa como um relógio que anda para trás.
Abre o pote de café e afunda nele a colher, mas se dá conta de que se esqueceu do bule, do filtro e da garrafa térmica.
Deixa a colher mergulhada no pó como uma pá cravada num cemitério.
Abre outra gaveta e seus dedos se movem como se tateassem algodão. Tira de lá o filtro de pano encardido de memórias. Abre a portinha superior do armário onde guarda o bule e a garrafa térmica.
Coloca o conjunto sobre a pia ao lado do fogão.
Encaixa o coador de pano e faz uma pausa para respirar.
Busca o pote de café e o coloca ao lado do filtro. Retira dele três colheres rasas para preencher o fundo do coador.
Enche o bule até a metade com a água da torneira.
Acende o fogão com um fósforo porque não gosta do ruído do funcionamento elétrico.
Deposita o bule sobre as chamas e observa a água tão calma como sua rotina sem palavras.
De repente um facho de sol raspa em sua janela e distrai sua atenção.
Observa o friso de luz que parece vasculhar sua intimidade, sua casa, seu resto de madrugada.
Entrevista o silêncio sem querer respostas. Que seja apenas o que tem sido, ora um confidente ora um vilão.
Borbulhas da fervura da água reclamam sua atenção.
Apaga o fogo e observa a água acalmar-se debaixo do vapor que desaparece no ar como tantas outras coisas.
Despeja a água no filtro sem nenhuma pressa, como quem derrama saudade e dor.
Vê o café atravessando o filtro feito um fiapo de escuridão solitária que se mistura nas espumas do tempo.
Conclui que cada dia é uma lâmina que disseca ilusões.
O sol faz mais força para invadir.
Suas mãos erguem a garrafa térmica como um troféu aposentado.
Caminha na frente da própria sombra em direção à mesa.
Apoia seu corpo com uma das mãos espalmada sobre aquela fração da eternidade, e senta-se ao som do próprio suspiro.
Olha sua xícara vazia e a cadeira vazia do outro lado.
O aroma do café lhe sussurra uma lembrança.
Despeja o café na xícara como quem enxerga um sonho morto.
Pega na xícara com a mesma lentidão dos dias anteriores. Toma um gole na esperança de que o futuro realize seu último segredo.
👁️ 161
Comentários (0)
Iniciar sessão
para publicar um comentário.
NoComments
Farlley Derze vive em Brasília, Distrito Federal. Nascido em Rio Branco, capital do Acre, morou no Rio de Janeiro, Guaratinguetá (SP), Madri (Espanha) e Miami Beach (EUA). Escreve desde a adolescência. Começou com poemas e este é seu primeiro livro de contos. É pianista, formado pelo Conservatório Carminha Alonso (RJ), graduou-se em Licenciatura em Música, pela UNIRIO (RJ), possui três pós-graduações: especialização em música brasileira, especialização em história da arte e especialização em teoria da literatura e produção de textos. Possui mestrado em música, é doutor em arquitetura e urbanismo e fez seu pós-doutorado em estética, semiótica e hermenêutica (UnB, Brasília). É autor do Método de Rearmonização com Acordes Menores. Possui cinco discos autorais. Escreve artigos, contos, crônicas e poesias.
Livros publicados na Amazon: https://amzn.to/3sS8iMP
Site: farlleyderze.com
Blog: farlleyderze.wordpress.com
Medium: https://farlleyderze.medium.com
E-mail: info@farlleyderze.com
Twitter: @farlleyderze
Facebook: www.facebook.com/farlleyderze
Youtube: youtube.com/farlleyderze
Editora: microeditorapress.com
Livros publicados na Amazon: https://amzn.to/3sS8iMP
Site: farlleyderze.com
Blog: farlleyderze.wordpress.com
Medium: https://farlleyderze.medium.com
E-mail: info@farlleyderze.com
Twitter: @farlleyderze
Facebook: www.facebook.com/farlleyderze
Youtube: youtube.com/farlleyderze
Editora: microeditorapress.com
Português
English
Español