Alô?!

Vai demorar pra você me perdoar. Se te conheço bem, você já planejou esse dia. Será na cabeceira do meu túmulo. Você não vai perder a oportunidade de me enterrar mais fundo no cemitério com suas palavras. Depois de dizer o que bem entender, aposto que vai cuspir na foto da minha lápide.

Já te vejo voltando pra casa com um sorriso de vingança dançando na tua boca fechada. Sim. Você vai voltar de ônibus e não vai deixar ninguém perceber quem você é, nem de onde está vindo. Você sentada naquela janela dos fundos, olhando a paisagem veloz com teu velho sentimento de “aqui se faz, aqui se paga”. Só se esqueceu que eu estaria a sete palmos de terra e surdo para seus xingamentos. Não quer me perdoar, azar o seu. Vou terminar de arrumar minhas malas e ouvir teus gritos com você descabelada aqui dentro do quarto só serve para você mesma. Pra mim, você não passa de um amontoado de ideias vis misturadas com birras infantis. Pode gritar, pode arrancar os cabelos. Vou deixar de propósito, sem você ver, uma cueca no fundo do guarda-roupa. Você nunca arruma nada mesmo. Quando ficar velha e for vender tudo isso aqui para um brechó, vai descobrir minha cueca e você vai ouvir minha gargalhada lá do inferno.

Pronto. Nada como sair pela porta da frente com a cabeça erguida. Bati a porta com vontade. Se o vizinho chamar a polícia igual da outra vez, já não estarei mais aqui. Daquela vez bati a porta ao contrário: entrando em casa. Bati, e bateria mil vezes. Mas você nem ouviu. Estava naquele teu banho quente. Acho que foi isso, o vizinho ouviu a porta batendo, depois escutou meus gritos, ouviu teus gritos “para Alfredo, para com isso Alfredo”. Eu só estava fechando a porcaria do chuveiro, me molhei todo e queria uma explicação apontando o dedo para o teu celular sobre a tampa do vaso. O vizinho sacou que não eram gritos como os de nossas noites de sexo com aqueles abusos que você pede pra eu fazer com você. O vizinho estava certo. Tinha que chamar mesmo a polícia. Quando eles chegaram você teve a cara de pau de dizer “não conheço nenhum Bruno”. Esqueceu que sou perito em informática?

Agora eu bati a porta ao contrário. Bati saindo e carregando duas malas. Eu dei o troco e valeu a pena. A Vanessa é um espetáculo. E é do signo de escorpião, sacou? Sabe como fazer o negócio.

— Táxi!

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Bem que minha mãe falou “não casa, não casa, homem é tudo igual”. Pode até ser, mas o Alfredo só batia onde eu pedia, na hora que eu pedia e do jeito que eu queria. Fui burra? Acho que não. Quando é que esses homens vão entender que estamos no século XXI? O Alfredo não ficou puto porque eu saí com o Bruno. Ficou puto porque não o chamei pra estar junto. Homem de peixes é foda. Eu já prefiro dizer “pisciano é tudo igual”. O povo acha que o pisciano é aquele tipo “paz e amor”, chegado a ervas, fumos e bebidas destiladas, acham que vivem ouvindo Enya e Kitaro, não sabem de nada. Esses caras de peixes são espertinhos, vão levando todo mundo no papo, com aquela voz de dengo, aquele jeitinho manso, mas ninguém sabe do que são capazes. Digo, psicologicamente. Todo mundo cai naquela de que vivem na deprê, kkkkkkk, pura fachada. Essa turma aí tem uma cabeça protegida por aço com titânio. E aquele fuzuê de gritaria é tudo fachada também. Eles têm uma técnica de jogar adrenalina no sangue da gente, pra depois pousarem as mãos no nosso corpo, a boca, os dedos e saiam da frente.

Bateu a porta, eu sei. Ok, pode estar puto sim. Se leu a troca de mensagens, tem motivo de sobras pra ficar puto. Mas insisto na tese de que preferia participar do negócio, ver como as palavras seriam materializadas entre quatro paredes. Mas não viu. Isto é, só viu as palavras. Não viu o resto. Conheço o Alfredo. Em menos de três dias vai me ligar pedindo perdão. Eu vou dizer que dessa vez vai demorar pra perdoar. Ele me conhece. Eu gosto de guardar rancor. Certas emoções não vale a pena descartar. A gente se sente viva.

Agora tem uma coisa: se ele não telefonar ainda nesta semana, então a coisa ficou feia. Quem tá batendo na minha porta?

Oi, vizinho. Obrigada pela preocupação. Está tudo bem. O vento bateu a porta. “Esse cara é doido pra me comer, pensa que não percebo”.

Então, como eu tava dizendo, a coisa ficou feia porque não gosto de dormir sozinha. Eu minto pra meia-dúzia de pessoas, digo que sinto saudade de quando morava sozinha aqui, blá blá blá. Ainda vou numa psicóloga pra saber por que eu minto tanto. Tive a coragem de dizer naquela vez que eu não conhecia nenhum Bruno. E o pior: disse como sendo a mais pura verdade. E sei que não foi isso que deixou o Alfredo puto. Acho que já falei isso. Merda, quem tá me ligando na hora do meu autoexame de consciência?

— Alô?!
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