Escritas

Lista de Poemas

EXTASIA


para aquilo que se paga, dinheiro
e pra tudo que custa caro, poesia
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GUICHÊ CLICHÊ


estas são as estações:
uma a uma, recebem
e despacham os trens à vida

(da série "haicaos")
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GREENTOWN ST.


ode aos olhos é
ver tingir de verde
a paisagem à passagem

(da série "haicaos")
👁️ 181

MOTO-CONTÍNUO


o mendigo bateu em meu portão,
"um poema, pelamordedeus!"
abro a porta, atendo ele
uma testemunha aproveita e me mostra o paraíso
de relance
depois me pergunta se tenho um minutinho
digo que não

à mesa, pergunto ao garçom se tem rimbaud
o garçom me oferece aimé
me deleito com um hermeto 1979

faz frio nas ruas
vestido de oiticica, pergunto a pirandello
"que aconteceu? por que está em silêncio?"
"tô na minha, ceciliando"

a cigana pede para ler a minha mão
dou a ela dez reais e ganho
um amém, um axé e um namastê

viro a página, dobro a esquina
tropico na minha sombra
sempre à frente de mim
caio mas não desmaio
ressuscito sempre antes do fim
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...

EXTASIA
para aquilo que se paga, dinheiro
e pra tudo que custa caro, poesia
👁️ 186

HAIQUASE - LXXII


céu aceso
flocos de nuvens
pintam os olhos
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ONIBLUES


em pé ou sentado
tanto faz, só queria você
aqui, ao meu lado

(da série "haicaos")
👁️ 153

MÚSICA, PASTEL E CALDO DE CANA

MÚSICA, PASTEL E CALDO DE CANA

Na minha infância, duas situações marcaram profundamente as manhãs de meus domingos: os programas de música caipira que passavam na tv (minha mãe adorava) e as idas à feira, onde ganhávamos pastéis de vento. Naqueles dias que providencialmente caíam após o pagamento, às vezes ganhávamos um pastel de carne e em momentos de fartura à beça, até um caldo de cana era-nos permitido, e ficávamos (eu e meus irmãos - mas creio que meus pais também), inundados pelo acesso quase livre aos prazeres do paraíso gustativo.
Das músicas que preenchiam as ensolaradas manhãs, ficou tatuado em mim esse profundo respeito pelo cheiro de terra molhada e o aroma de café que emanam até hoje quando ouço Inezita Barroso, Trio Para Dura, Almir Sater, Irmãs Galvão e Pena Branca e Xavantinho. Ainda agora uma dor florida aliada a um repouso desassossegado ecoam em mim quando Belmonte e Amaraí cantam Saudade de Minha Terra. Ou rio desavergonhado quando Inezita despeja a Marvada Pinga em meus ouvidos. E o Cio da Terra então? Deveria ser tombada como patrimônio histórico.
Obras de arte são atemporais.
Pastel de carne e caldo de cana gelado também são obras de arte. Cada mordida ou gole é um sortilégio único que carregamos para sempre dentro de nossas lembranças afetivas. Morder um pastel hoje traz à memória cada detalhe vivido há 40, 30, 10 anos. Traz à tona o perfume salgado e quente de domingo passado. E cada sorvo no copo verde de bigodinho branco traz consigo o doce do açúcar de todo esse tempo, que passa, que fica, que mora na paisagem de nossa memória.
E se hoje a saúde inspira cuidados e exige certos comedimentos, não se trata de resmungar com o destino. Convém curvar-se à soberania desse tempo, que traz consigo o diálogo sempre antagônico e nunca concluído entre deus e diabo, o bom e mau, o bem e o mal, o crédito e a cobrança.
Esse talvez o mistério - portanto, a beleza - daquilo que orquestramos na vida: o tempo é uma sinfonia que carrega em si a brevidade que, com suas notas únicas, criam a ideia de eternidade, essa que estamos vivendo agora.

Escobar Franelas
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ADVIR

ADVIR

os versos não estão escritos
naquele corpo estendido no chão
nem nos olhos nem nas lágrimas
da mulher que chora

os versos, mermão
estão escritos nas sementes
ainda não germinadas

depois que a mulher parir
depois que a terra parir
o primeiro verso começará a ser escrito

há de vir o dia
em que o poema dirá solene
estou pronto
me escreva
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NATURALMENTE

NATURALMENTE

todo dia
o mesmo amor
é diferente

(da série "haicaos")
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