Escobar Franelas

Escobar Franelas

Escritor e cineasta. Participante de várias antologias de poesias, contos e crônicas. Escreve em diversos sítios virtuais, jornais e revistas. Em audiovisual já produziu, dirigiu e roteirizou filmes em diversos formatos e gêneros.

n. 0000-09-30, São Paulo SP

27 409 Visualizações

DOIS POEMAS NO ROSTO


a cor de seus olhos é a cor de um poema
que não consigo verbalizar.
apenas contemplar.
a cor de seus olhos é a cor
da poesia quando nasce.


Escobar Franelas
Ler poema completo

Poemas

119

organicidade


"organicidade"

o chinês toca pandeiro no bloco de rua
da cidade tiradentes

na cidade de tiradentes, em minas
um mineiro morre na carvoaria clandestina

nesse momento tem um pastor batizando índios
que falam inglês e outro dialetos
em algum rio do interior do brasil

venezuelanos invadem boa vista
brasileiros invadem miami
cubanos idosos exilados em miami
voltam para se tratar em cuba

síria líbia rio de janeiro
tantas gentes diferentes
tantas gentes iguais
tantos lugares tantos lugares

(canadá só atrai porque é frio)

e finalmente
e fielmente
o aquecimento global
e as redes sociais
367

noite tropical


"noite tropical"


há pouco tempo
era uma estrela tatuada
na pele flácida do lago


veio a nuvem, como borracha
e limpou tudo
e sujou tudo
e tudo virou camadas de cinza
cinzas sobrepostas
cinzas negras cinzazuis
desmanchando na pele do lago
361

desejo de hoje


"desejo de hoje"

tem tanto aniversário por aí
ela eles benjorge
léia zacarias
outras
tantos

hora solene do nome tatuado
na pele sensível da memória
cujo corpo cobrimos com perfumes
óleos jóias adornos
dia de alguém
dia de festa em algum lugar aqui
dia d
celebrar o outro ser que há em nós
raro ser que abraço em nós
abraçaço que dá voltas e nós

hoje é aniversário de alguém que não conheço
por isso mesmo celebro
(celebremos!)

disseram que também é
o dia mundial da água
(que a gente beba
pra comemorar)
365

rebelião

"rebelião"

trucidar a inveja que abala e abate
a morbidade humana
a deformidade das almas

chegou a hora de dar um basta
na violência da submissão
uns gritos ao pé do ouvido
dessa timidez mórbida
uns petelecos bem dados na cara
de quem ousar baixar a cabeça


na guerra crua e cruel
morre duas vezes aquele
que tem medo de mata
286

permuta


"permuta"

troco o pote de ouro
pela cor da íris dos seus olhos
382

Declaração de humor para a pessoa armada

Declaração de humor para a pessoa armada



repetiu mais uma vez, antes de bater à porta: sabe? eu te... te... sorteio!
324

adaptação

"adaptação"


e esses seres seguem
vão criando deus
à imagem e circunstância
que preferem
396

fuga da rima

"fuga da rima"


tento fugir da rima
mas não consigo
e quanto mais tento deixar
o verso solto no limbo
à meia-altura, um tanto abaixo
nem tanto assim acima
mais ele ganha gordura
e pesa, e pensa, e posa
como um seixo
lastro mal colocado
depois da vírgula, antes do ponto.


intento fugir da rima
mas sou impreciso
e quanto mais recorro aos recursos
mais o verso alaga
no álcool de um blues antigo
no improviso do jazz
no sangue de uma tragédia grega
ou brasileira, tanto faz.


eu tento tento tento fugir da rima
mas mal consigo sair do prumo
297

selvagem


"selvagem"


se me quer de presente
me doo
à venda? vendo


cego
sou mais
cara
320

as estações do dia

"as estações do dia"


o sono é outono
trocar as folhas, crescer, renovar
trocar a cor


primavera, acordar, ser flor


verão e inverno
o inferno do dia-a-dia


eis a vida
às vezes dor doída, dolorida
de suor insuportável


às vezes não
354

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.