Lista de Poemas

Sensações de Terceiro Grau

Uma velha foto:
tinta no papel
e também nas faces
fugindo do tempo,
vivendo entre enlaces
do dia em que a flor
não era tão espinhosa,
tampouco algo rosa
de mel ou de fel.

Um novo caminho:
a antiga pintura
descobre outras cores
e a velha tintura
está desgastada,
mesmo que acordada
com os lábios entreabertos,
esperando o beijo
de quem já partiu.
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Sem Definição

A poesia é bela,
mas a prosa é verdadeira
e sempre se esgueira
pela triste tela
de uma pintura velha
imitando aquarela
nos fundos da solidão.

O verso chacoalha
o amargor sublime
de quem tanto suprime
o descontentamento
e não vê sustento
nem mesmo ao relento
da própria exatidão.

Buscar a beleza
é viver na incerteza
dos bajuladores
e dos frágeis professores
cujo os óculos
não podem ir além 
das lentes de escansão.
👁️ 159

O Poço Está Cheio de Moedas

Sonho acordado
Entre bocejos,
Atordoado
Por esses desejos.

Ando tristonho
Mesmo em gracejos,
Tudo que sonho
Permeia desejos.

Vivo lampejos
De um instinto agudo
(No qual me iludo)
Criando desejos.

Dançando entre ensejos,
Prevejo quedas
No lugarejo
De frias moedas.
👁️ 151

Superposição Onírica

Já me esqueci do seu rosto
e das sombras acentuadas
em sua bochecha macia,
pouco me importa o seu cabelo
cujo os fios soltos são radiais
de um espiral celeste.

Já aprendi a ignorar você
quando sonho seus sonhos
- produto da angústia -
sem me ater ao porquê.
👁️ 145

O Limite do Horizonte

Aponto os olhos para mim
E não vejo um desejo intacto
Na vastidão do vão sem fim.

A essência que procuro - enfim -
Pela malha do próprio impacto,
Está mais morta que o latim.

Eu mesmo não a conheço, induzo
A partir de uma irritação
Pela pele, amargo cetim.

Sentir um sintoma inconcluso
Clareia minha conclusão:
Sou vazio, não há nada em mim.

De fim em fim, vou definhando
Enquanto descubro que o mundo
É profundo e feito de brim.

Um mero tecido profuso
Cobrindo o anseio, moribundo,
De ir além do céu carmesim.
👁️ 153

A Turma Dentro de Uma Turma

Eu não penso em uma aura singular
Quando sinto essa escassez em meu peito
Ou quando lembro de tudo que foi feito
Sob o riso de não só um olhar.

Eu sinto saudades, não de um lugar
Especial, mas do sorriso aceito
Nas piadas de um momento perfeito
Para ninguém além do nosso lar.

E quando sentávamos, no intervalo,
Vivíamos em dois mundos distantes
E deixávamos para longe o abalo.

Nosso tempo se deslocava em instantes
E, na verdade, acabou enquanto falo,
Mas sei que o meu amor é o mesmo de antes.
👁️ 184

Mente Motora

Quando não produzo estou morto.
Não um morto que suspira de alívio na esquife após uma árdua batalha,
mas um morto que arranha a madeira do caixão para resolver assuntos inacabados.

Quando produzo, começo outra produção.
Às vezes concebo o início, meio e fim de algo que nunca respirou o ar do mundo,
eu mesmo não respiro nada que não seja constante ansiedade e falso pertencimento.

Quando produzo não sou pessimista.
Sou, na verdade, uma das mentes mais positivas dentro do crânio humano,
trabalho pelo prazer de concatenar algo que o tempo irá, delicadamente, estilhaçar.

Quando não produzo, vejo outros produzirem.
Um amálgama de produtos e produções é a alvorada que invade meu horizonte,
o sossego é ilusório como as estrelas que refletem sua própria morte pelo espaço.

Quando não produzo sou eterno.
Mas a finitude é o que garante a existência da beleza em um mundo oblíquo,
afinal, não há paz ou quietude em nada: mesmo inerte, ouço o meu corpo produzindo.

Quando eu deixar de produzir
deixarei de me expressar e, certamente, estarei morto.
Seja em vida, sob a terra ou em cinzas.
👁️ 163

Segredos Brumais

Quando não tem ninguém olhando
e as ruas estão silenciosas,
uma parte minha se abre
e sai de entre as nuvens, como as estrelas,
para mostrar o quanto ainda resta
do meu eu, antes de ser corrompido pelo mundo.

Eu sinto saudades do passado
e das pessoas que já passaram
pela rua das minhas boas memórias,
do sorriso ingênuo
e dos corações quebrados
e até mesmo das grandes derrotas.
Antes eu sabia que eles estariam lá,
hoje não mais.

Eu anseio as conversas antigas,
demonstrar o quanto amei aqueles
que doaram parte de seu tempo com carinho,
abraçar os amigos benquistos
que eu nunca realmente abracei.
Dizer ao doce garoto que a vida
o amargaria ainda mais.

Tenho vontade de amar,
tenho vontade de chorar,
mas durmo e acordo no outro dia,
deixando os sentimentos na cama.

O tempo passou e não volta,
mas a saudade ainda me chama,
no entanto, não posso retornar.
👁️ 155

O Filho Que Não Tive

Rostos cobertos em paralelo
nos bancos vazios de uma praça
fechada, passos de quem passa
arrastando o sapato ou o chinelo
no chão, refletindo a tarde nublada.

Eu olho para baixo e enxergo o grão
de gente crescendo na terra molhada,
aumenta-se a paixão espraiada
cujo o motor é sempre a vazão
da dualidade deflorada.

Sinto o ar e contorno com as mãos
um corpo que nunca segurei
e os olhos que nunca me olharam.

Sigo o desfalque dos artesãos
ao pensar que sequer beijei
a pele pura dos que restaram.

Meus ares são elipses vazias
achatando os átomos restantes
- tornando-se nada em instantes -
das partes que viram os dias.

O que me move é a alma infante
sem ciência do tempo, sol ou lua,
presente e, ainda assim, distante
da vida, do campo ou da rua.
👁️ 143

Paradoxo

Não sou dono de nada além das palavras
que utilizo, mas não invento.
Minha mente fechada vive nas lavras
de minério e pensamento.

Roubo - e peço emprestado - um grito abafado
de alto distanciamento,
para guardar, na sacola do mercado,
a solidão e o fingimento.

Um observador sem os olhos do rosto,
uma vida sem vontade.
Uma comida sem gosto,
um olhar de pertencimento e vaidade.

São as faixas vermelhas da chuva no asfalto,
reflexos que se diferem.
Só quando as nuvens escapam do planalto
é que as nuances se aderem.

E eu não sou dono de nada, não sei tudo
e aguardo, espero eles verem
que em cada rima deixo um sussurro mudo
de estultices que me ferem.
👁️ 126

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