Lista de Poemas

A Borra do Mundo

Nada é capaz de comover
os olhos secos e cansados
que leem palavras sem sentido
e encaram as faces sem amor
pela frieza dos paralelepípedos
opostos a um céu unicolor.

As mortes refletem apatia,
quem sabe chega a hora
desses olhos se fecharem
e o coração nunca aberto
fazer as lágrimas descerem
para o corpo - agora liberto.

A rapidez é sem alma, sem calma
e quer tudo enxuto, fácil
como o impossível pode ser.
Já esqueci os meus costumes,
o amigo morto, o odor dos perfumes
e o que a vida pode oferecer.
👁️ 358

Retratos do Nada

O suspiro gentil
assombrando a janela
e, com toda a cautela,
roubando o sol de abril.

O amor da escuridão,
pautado no sentido
do instinto incontido
para além da emoção.

O reflexo sutil
no espelho e na memória,
traçando a trajetória
nas linhas do perfil.

A lua e a imensidão
nessa rua lotada
ou na casa fechada
da minha solidão.
👁️ 280

Quadra Realista

As verdade insensíveis
sempre possuem um porquê,
o mundo é grande demais
e nada é feito para você.
👁️ 193

Planejamento

Na primeira vez eu ignorei, por achar efêmero,
na segunda vez eu me atentei, por desconfiar,
na terceira vez eu tive medo, não quis perder
o sentimento que me era familiar.

Na penúltima vez eu entendi, mesmo sem querer,
e na última vez eu me preparei - de nada adiantou.
Depois eu me esqueci, antecipando o meu sofrer,
não sendo mais o que eu era, e sim o que restou.
👁️ 213

Aquilo Que Se Foi Com Os Pássaros

Os pássaros mudam a rota
para deixar somente um rastro
daquilo que já se denota
pela frieza geral do astro
cujo o calor jamais se esgota
mas, para mim, veio a esgotar.

Pouco adianta lastimar
o grande abismo de contato
que torna denso até mesmo o ar
e faz da memória um retrato
onde nós caímos no mar
para se afogar em orgulho.

Na intensidade de um mergulho
procuro mensagens avulsas
do que restou do nosso entulho
de emoções que foram expulsas
tão rápidas quanto um barulho
em que o eco tende a persistir.
👁️ 213

O Olhar De Um Arquiteto

Esse mesmo vento que toca o concreto
arrepia as memórias de um homem morto
e faz da lágrima o triunfo do arquiteto.

Um edifício, abandonado e incompleto,
obra de uma lembrança, avulsa no porto,
interditada sem aviso ou decreto.

A maresia é miragem do teto
que protege o espírito do desconforto
quando se rasga as páginas do projeto.

E pode parecer um futuro abjeto
crescendo como um fungo letal e absorto
no legado transformado em um dejeto.

Mas é somente a visão de um homem morto,
um decadente e arrependido arquiteto
que, ao envelhecer, percebeu o mundo torto.
👁️ 247

Literata

Deixe-me ser o seu livro,
me leve nas mãos
como se me lesse
e entendesse,
entre as letras miúdas,
o quanto guardo a ti
a minha afeição.

Sinta minhas sentenças
onde faltam vírgulas
pontos e traços
sem pausa
um descompasso
que só faz sentido
no amor.

Não me guarde na estante,
entre os outros livros
cujas as capas pedem
e as folhas imploram
o toque dos teus dedos.

Me leve para todos os lugares,
mate comigo seu tédio
do mundo fosco
que só brilha
nas páginas brancas
ou amareladas
da imaginação.
👁️ 190

Muito Além do Bicho

Animais por todos os lados,
animais em meu sangue,
nas lojas e fachadas,
nas expressões incertas,
nas luxuosas sacadas,
nas camas e cobertas.

Animais de rara consciência
e estupidez majoritária,
animais do céu divino,
animais de várias falhas,
comendo com a boca aberta
a refeição das velhas gralhas.

Animais na minha casa
construída em plena selva,
animal é o meu destino,
animal é a minha essência
quando olho no espelho
e a ciência me condena:
quem me dera eu fosse um cão.
👁️ 120

Repente Meridional

O sol não me queima a face
no decorrer de um longo ano,
não há pintura que me trace
como bom samaritano.

Mas dizer que a minha classe
não contempla o gesto humano
é mentira, certo impasse
do crescente ardor urbano.

Entre os prédios e a avenida
nosso sangue perde a cor,
mas o cinza não erradica
a insistência de um amor.

E por amar, aceitamos
todo gesto e até rumor,
transformando nossas lágrimas
nessa máquina a vapor.

E que linda é a bruma
crescendo pela manhã,
toca a moça mais bonita
e não esquece da anciã.

Pela tarde se dissipa
na secura campeã,
em uma aura nordestina
- Poderoso talismã.
👁️ 125

Entrelaçado

Parei de escrever,
não por querer,
mas por precisar
rememorar
a paisagem
que me invade
e reivindica
aquilo que só
se faz em um nó:
as curvas
e o aperto
da existência.
👁️ 217

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments