Escritas

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Malas têm histórias - roubadas extraviadas trocadas esquecidas -
carregadas pelo sóbrio e pelo delirante
uns dias lhes foram de cão, outros de cristais entre algodão.

O bar assoa o nariz e ri da aldeia que não viaja, bagagens há
que viveram tempestades e ficaram num terminal
pelo que têm o que calar e o que contar de ti e de mim

do mundo, enquanto ajustam costuras e zíperes no couro gasto
(deixe no lugar cada adesivo, eles nos lembrarão das trilhas).
No fundo do bolso uma moeda extrangeira; noutro um vazio sem fim.
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Osmose



O pescador remenda a rede com a qual cerca o mar.
Sal e algas em seus cabelos o denunciam artesão
da água; ao largo, alguém faz um cinto, odor de boi
no ambiente, por osmose
e por intuição se faz o que deve ser feito, eleição instintiva.

Entre o bar e a igreja, as vacas; no adro, as velhas
tomam a si as cores do mundo, rezando, sutis, quase levitam.
Mundo, vasto mundo
gasto mundo do qual, por osmose, sei algo.
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Fantásmico

Arma branca é o nome genérico
da lâmina em seu mister de regular o tono
muscular, o oco psíquico, de abrir picadas na selva
ou de servir de enfeite na parede
senão sobre a mesa de centro.

Eis a katana, ali o punhal malaio e a serviçal peixeira
porque o mundo precisa ser escamado, tomado
de vícios que sempre foi, há quem o queira
numa trilha reta como a de um trem
(fantasma ?)
.
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Certas dúvidas da Madame Min

Aonde terão ido os que não abriram a boca
em nenhum dos três tempos,
que negaram três vezes três
o costume da fala entre si e com o entorno ?

2.
O dia segue conosco, não termina
à meia-noite ? Se o amor exige
salvas, também impõe ressalvas
porque no amor não se assenta bem o formal
sua estirpe é de uma dimensão
para além-lá de matéria e imatéria,
e assim ainda falta algo a ser decifrado,
pulsando entre essas duas instâncias.

3.
Se a noite não desata laços, é que o dia
colheu tantas curvas em pedra
bruta, viu tantas frestras minadas pelos dois
lados da luta, que só lhe resta
dormir num pasto de lenha seca, tombada.
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Trasgo



Babuja esse prato essa bandeja essa cama
suja esta manhã e amarra com a tua sátira
a distância entre os seres cada vez mais
rabujentos, tu podes porque és um trasgo
e a tua gênese te concede oprimir pela sátira
a pátina dos baixos mentores, a dança dos falsos
e o sono dos sujos, tu podes e deves minar
a calçada a ponte o salão de festas da aldeia a fé.
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Antes da sátira



Um homem deve ser capaz de adotar
o improvável, de buscar nele a garganta
as perdas em diagonal, furar o bloqueio
do entorno que lhe vede os caminhos ao erro.

Um homem tem de se suprir
daquilo que depura: a dor é mãe da cosmogonia
pedra-ímã, pedra-senão, enfim
não desfiar tempo contando minutos -
que todos eles enganam de um modo ou de outro.
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Enfermaria



Rumor de sombras antigas afetam o inquilino
do torpor, seu equilíbrio preso a tambores
de couro de desconhecidos animais,
o rumor persiste sobre a vítima
que quanto mais se afasta
mais lhe exigem distorção entre o real e o imaginário.
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Gênese



Desde sempre a rampa se repete
no inconsciente mais sutil.

Lugar de subir e descer, que nos enforma
o estro, um cão qualquer abana ali o rabo

e se infiltra entre as estrelas, alheio à trama
e seu concreto (cápsulas de cianeto).

Rampa por atacado e varejo, as pirâmides
contam histórias assim: de se ir ao céu

de se ir acompanhado à câmara final,
o que desde sempre se repete, inconsciente, afinal.
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Escuro-escuro



Arredio é o dia, arredia a noite,
tanto que ambos não se dão,
não se encontram para nada
embora respingos de um
no outro, e essa distorção
apena o homem e a mulher
ambos vivendo em ambos os lados,
levados pelas duas partituras
que os fazem sentir que são escritas
em ré sustenido maior.
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Dissolving boundaries*



Antes de mais nada, descalçar luvas.
Limpos de excelências, pedras nos rins
fome e sede e nenhum sono, romper a cerca
antes de mais nada, gritar a que propósito vieram
(não viemos por teu pranto)*
limpos de exceções que o redemoinho dá, entrar
no terreno minado, calçando luvas
encher o terreno. Nada de ovelhas, pastores
morreram. Viver é acomodar fronteiras ?
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Comentários (4)

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namastibet
namastibet
2018-04-21

Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão
2018-04-03

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

Sônia Brandão
Sônia Brandão
2018-04-03

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo
sergioricardo
2017-12-04

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.