Lista de Poemas

Falso


Eis em ponto morto o que estava acelerado, 
síntese não sei o que é, mas já sabemos
das rachaduras, das trincas e manchas 
nas paredes e nos altares, tudo
parecia nos trilhos, fingindo-se felizes
todos, mas em ponto morto tudo está, 
a casa é quase que só baratas e formigas
sob o jugo da procura, o pavor nas vitrinas
na noite de luzes artificiais, sim, eis em ré
a velha estrutura de moer carnes e mentes, 
uma ópera dos mortos
vai coroando os dias dos semivivos
reagindo como um zero por trás da máscara.

 

*: Òpera dos Mortos é alusão ao livro de Autran Dourado (1926-2012, MG)

👁️ 757

Mural



Sentados no meio da neblina
nos muros de pedra de sua casa
os alienados captados por Lu Nan*
contentam-se com o olhar vidrado
numa tez sem expressão normal
e quanto mais lhes passa o dia
nada de mais nem de menos valia.
Talvez vejam o que não podemos.
👁️ 827

Fake


In neutral what was accelerated, symphysis
I don't know what it is, we only know now
from cracks, cracks and stains
on the walls and the foundations, everything
seemed on the rails, pretending to be happy
everyone, but in neutral everything is, the house
it's just cockroach bark and amputated ants
under the yoke of tiny being, dread in the shop windows
in the old night of artificial lights, yes, in reverse
the old structure of grinding meat and minds - opera of the dead*
crowning the days of the living, all reacting
as a zero behind the mask.*



*: Opera of the Dead is an allusion to Autran Dourado's book (1926-2012, MG, BRAZIL)
Translated with www.DeepL.com/Translator (free version)

👁️ 835

Vapor



O amanhã demora a chegar
mas chega e inspira e respira
com desconhecido método
abrindo catarse exemplar

anodinia e metástase
abertas à flora e à fauna
ao humano, mas logo passa
e deixa para trás o assombro
pelos baldes de água fria
num punhado de mãos vazias.
👁️ 844

Filtro



O escritor busca incógnitas

esse demente com um teclado
e a sociedade no pensamento.
Vive assim de olho nas feridas,
no imponderável, alquebrado
à espera do imprevisível,
de vez em quando salta dele
uma lágrima ou um sorriso
cheio de palavras não percebidas.
👁️ 835

Rota da sede

Nessa rota há muitas noites e dias
mas aqui não se abre voz para o que virá
menos ainda por um certo passado
com hierógligos, caracteres, ideogramas
dicionários, enciclopédias e relatórios
dando contas falsas de vertebrados
e invertebrados, mas pela conta da míngua
justiçados - para o bem ou para o mal, tanto
fez e tanto faz, que nada disso a essa rota apraz.

Nada ao furtivo, menos ainda ao lascivo,
os viajantes entram nas linhas do tempo
presente, demente ou não, praticam noções
estranhas às minhas, que assim é o embate
entre o forte e o fraco, e se venço
alguma ilusão numa troca de mercadorias
não abdico de beber luz do Diabo ou de Alá
nessa perigosa rota aberta ao benvirá.
👁️ 789

Silensidão

A mãe morreu em pouco
tempo (mãe de quem
e de quanto tempo se fala ?
Aqui, nada se explicita), 
silensidão é a praxe 
neste entorno vivalma não há

que se lhe meça os colhões
ou o diâmetro dos seios
(coisas poucas, sim
nada de latim - paucas sed bonas - 
menos ainda ir ao tradutor
onde tantos se roem por if of off.

Pois bem, o pai foi de suicídio
mas sobreviveste (aqui, tudo
é breu, calotes ao previsível),
a irmã é da moda, vive o relho 
mas o verdadeiro espelho aí está
de nome anamorfose, sempre 

deformador, reformador, realista ?

👁️ 803

Teoria aérea



Sob temporal a aldeia grita

mundo gasto mundo, onde já se viu
o amor não reagir ao coma
o pavor não ter fundo?


Se alguém sonha deus na terra
e ele no céu, é viável essa troca
já agora com o fim à vista
de fauna e flora e da humana hora ?


👁️ 757

Trevos



De uma forma ou de outra
vamos à cata de grãos que vinguem
e de água que nos lave os erros.

Anda-se nos calcanhares
com a linha do equador nos cotovelos
e o amor mastigando dúvidas

e se no verso infinito da solidão
um homem corre com outro, demente,
o dia fecha em baixa

porque outro homem foi morto
a toque de caixa, por juros pendentes.
👁️ 982

Soma




O corpo sofre variações sob sol maior
e racha no gelo, a pressão variando
sob o salário do medo
no atacado e no varejo murmura-se
"vou me jogar debaixo de algum amém."

Na aldeia com seus climas psíquicos
deteriorados, procura-se tábua de salvação
nem sempre apta, mas tubarões há
na rampa do navio, porque corpo é danação
e tu somatizas o que não queres

sofrendo variações em ré sustenido menor.
👁️ 816

Comentários (4)

Iniciar sessão para publicar um comentário.
namastibet
2018-04-21

Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão
2018-04-03

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

Sônia Brandão
Sônia Brandão
2018-04-03

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo
2017-12-04

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.