Lista de Poemas

NA PRAIA

Na praia
há pessoas na areia
e banhos de mar.
Na praia
há surfistas nas ondas
e o marulho singular.

Na praia
há o milho verde,
a agua de coco
e o sorvete
andando prá lá e prá cá...

Não há Netuno,
nem há sereias,
mas há desfiles na areia
e vendedores de peixe
recém chegados do mar.

Na praia há tatuíras,
carangueijos e gastrópodes,
gaivotas e maçaricos
entre outros seres
camuflados à beira-mar.

Pelas marés
que sobem e descem
avançam e recuam 
em eterna sintonia
com o luar.

E é na praia que,
sua majestade,
o verão, repousa
antes do outono
chegar.

👁️ 29

A BIFURCAÇÃO


Os anos rapidamente
vão nos puxando pra frente 
por este caminho de ida 
que apelidamos de vida.

Levamos como bagagem 
nesta singular viagem 
nossas escolhas, rascunho
de um último testemunho.

Quando a estrada a nossa frente 
abrir assim de repente 
uma derradeira opção 
ante uma bifurcação.
👁️ 21

PERDA DOS PAIS, PERDA DE UM FILHO

O maior egocentrismo de um filho
é querer morrer antes de seus pais.
Esquece ele que a vida segue um trilho
por caminhos, em geral, naturais.

Buscando se livrar de um sofrimento
este filho delirante, entretanto
transfere esse corrosivo tormento
para àqueles que afirma amar tanto.

Morrer faz parte da vida e perder
a quem se ama traz uma dor impar,
principalmente sendo nossos pais.

Mas temos, todavia, que entender,
se prematura, a vida nos deixar
eles, por certo, sofrerão ainda mais.
👁️ 29

HAIKAI'S


A folha sem pressa
escolhe no cair dengoso
o lugar do pouso.

***

O mar chega e vai
em ondas, recua e avança
o mar não descansa.

***

A sombra do pássaro
que voa na imensidão
se arrasta no chão.

***

Os pingos da chuva
afagam fraternalmente
a pobre semente.
👁️ 20

INSONE

Em meio à madrugada
acordo acompanhado.
Problemas do cotidiano
agitam-se ao meu lado.
 
Preocupações grandes,
preocupações pequenas
e preocupaçõezinhas de nada
resolveram me cobrar
soluções imediatas.

As horas congelam
e meu sono se vai.
Junta seus trapos
para dormir 
no sofá da sala.

Meus pensamentos nervosos
brigam entre si.
Inutilmente, movo-me 
de um lado para o outro
e tento dormir.

Levanto-me...
sirvo café para as preocupações
e sentados frente a frente
discutimos até o amanhecer.

Publicado no livro "SE ESTA RUA FOSSE MINHA"
👁️ 24

CEMITÉRIO ESQUECIDO


Ah, cemitério esquecido
e morto como seus mortos
no meio de uma coxilha
longe de todos os olhos.

Foi em tuas proximidades 
que o campo virou mortalha
ao fim de uma batalha
da grande revolução. 

Quantos de teus habitantes
lutaram sem ideal
e agora repousam longe
da sua terra natal?

Ah, cemitério esquecido
nem um mapa te registra,
nem estrada te visita
e não há cerca ou marcação.

Só o vento te cochicha
um punhado de segredos
recolhidos no degredo
sina de todos os ventos.

Ah, cemitério esquecido
com cruzes enferrujadas
e nomes já apagados
de lápides desgastadas.

Hoje o mato nasce e morre
sobre tuas sepulturas
e as raízes se forjam
a tua velha estrutura.

És a imagem do abandono,
da desconsideração
com tantos homens valentes
que repousam neste chão.

Ah, cemitério esquecido
tua localização
só a noite denuncia
através da combustão

Do fogo-fátuo que assombra 
o xirú desinformado
que imagina estar diante 
de um cemitério assombrado.
👁️ 24

VANDALISMO


I

Arranquei uma pedra
um tanto polida
da base dos planos
que fiz para a vida.

II

Atirei-a por pirraça
- logo que a noite chegou -
contra uma frágil vidraça,
porém, ela se quebrou.
👁️ 29

ESTES ANOS ACELERADOS


Estes anos que passaram
assim tão rapidamente,
afoitos atropelaram 
a vida de tanta gente.

Minha vida, por exemplo,
mais sonhada que vivida
à espera de um momento,
de um ponto de partida.

Mas o tempo não espera,
não se enquadra em nossos planos
ele vai girando a esfera
na qual vão passando os anos.

E assim diariamente
neste ritmo acelerado
mal vivemos o presente
e ele já cheira a passado.
👁️ 33

O TEMPO NÃO TEM DÓ

O tempo não tem dó
nem tem tolerância
com quem desperdiça
sua breve infância.

O tempo não tem dó
nem tem piedade
com quem joga fora
sua mocidade.

O tempo não tem dó
e não sente culpa
por quem malgastou
sua vida adulta.

O tempo não tem dó
nem se compadece
com quem se agarra
à sua velhice.

O tempo não tem dó,
passa simplesmente,
levando em seu bojo
a vida da gente.
👁️ 31

MORTE NO CAMPO

I

Era um costume que eu tinha,
subir naquele morro mais alto das cercanias
e lá de seu cume apreciar as coxilhas
que se estendiam em todas as direções.

Eram campos, campos e mais campos,
campos cobertos de pasto e abertos em flor.
Campos malhados por árvores solitárias,
algumas casas valentes e taperas tristonhas.
Campos povoados por vacas, cavalos, ovelhas
e por homens habituados às lidas campeiras.
Todo dia, todo dia após dia, todo o santo dia,
– era um costume que eu tinha –
eu subia aquele morro, apreciava aquelas paisagens
e via aqueles personagens atuando em seus papéis.

 II

Porém, numa tarde úmida e fria,
ao concluir a minha lenta subida
lancei para todos os lados
o meu olhar mais atento, mas não vi ninguém,
não vi nada além das coxilhas estranhamente cinzentas.
Não vi flores. Não vi vacas. Não vi cavalos. Não vi ovelhas.
Não vi casas. Não vi taperas.
Não vi homens. Não vi nada.
Vi apenas um vulto sombrio
de vestes negras e rosto esquálido,
subindo o morro em que eu me encontrava.
Subindo, encarando-me decididamente
e me chamando com sua voz pausada.

III

Pedras e pedras rolavam enquanto este vulto subia
e um calafrio me abraçava.
Estático, acompanhei a sua subida,
vi suas vestes que esvoaçavam,
senti sua mão gélida
tocando a minha
e depois disso
não vi mais 
nada!


Publicado no livro "NOVA (DES)ORDEM"
👁️ 30

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments