Escritas

Lista de Poemas

Esvoaços



Uma história como a vossa não se repete.
Foi escrita no céu com a tinta de todos os beijos que foram semeando no campo
do vosso encontro.
É a esse mesmo céu que a vou buscar, sempre que desejo ouvir-vos voar.
Se te vir rolar uma lágrima, não ta vou limpar, não a farei parar. Vou ver como ela se vai aninhar nesse vosso começo.Tudo ficará quieto e eu vou poder olhar-vos, sem que mais nada seja preciso dizer, apenas imaginando que, talvez um dia, seja eu capaz, de esvoaçar
assim, no horizonte dum abraço.
Um beijo, Mãe.


Não quero que disfarces,
quando corres a vestir à pressa
um sorriso,
porque te vejo chorar.

Não faças isso, peço-te!
Não vês?
Esse teu choro
é o colar que te envolve
que te torna ainda mais bonita.
É o que ele te diz
do olhar que guardas.

Curioso!
Nem reparas que não estás aqui,
pois não?
Que te deixas levar,
derrogando a falta que sentes
ao tornares-te no gesto,
alagando-te por esse campo de lembrança
com o movimento sereno
em constante crescendo nas palavras só vossas!

Adoro ouvir-te voar!
Quão doce ver como lhe vestes a voz,
deixando que ele te vá despindo,
passeando pelos segredos bonitos
que te vai sussurrando.
Abres as janelas do lar do vosso começo
com tal enlevo,
a casa onde guardas as mais ternas expressões,
os vossos olhares,
que bordas com beijos
todos os que ele te vai depondo,
à entrada do teu olhar!

Por isso te peço:
Não escondas o rosto
mesmo que seja
com pétalas de lágrima.
Deixa que se espalhe a saudade,
aceita dela esse enlaço, vive-o
e chove!
Chove muito, muito,
para que eu apreenda de ti
esse talhe de sedução
e me torne capaz de voar assim,
sentindo que me olham,
comovidos,
tal como estou eu agora
a olhar-te
saboreando o prazer imenso
de esvoaçar no céu
desse tão vosso terno e doce abraço!


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Voo

dispo-me para me vestir de ti.
leva-me num simulacro de rapto.
leva-me que volto a ter asas
que te acompanho num voo planado.

sentes a vontade
de arrepiar cada um dos poros do corpo?

deitada na noite
soletro os teus gestos.
finge que dormes
finge
para que invente o tempo capaz de parar.
quando abrires os olhos
serei desejo rubro.

Agora vem
para te degustar o corpo
e reter na boca o sabor dúctil do poema.
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Não te digo que te amo


Ponho entre lábios essa vontade
serpenteio aromas de hortelã
a curva das nossas bocas.
Chovo em bagos rubros no nimbo
onde cabe o pensamento
que tal como um olhar
desagua
ansioso
pelo desejo.

Mostro-te como nos respiramos
afastando os dias mornos
enquanto percorro as ruas
que desembocam na clareira da nossa pele.
Biso em nós toda a chuva
tomo forma de ventos
voando pela malha das ruas que teci
sobre lençóis que amanhecem em vagas de espuma alva.

Vou dar voz às mãos
ouvir cada gesto
sob véus que dançam
formando nuvens róseas
onde o sol se deleita num céu
leito de deuses.

Quando voltarmos a amanhecer
nos nossos corpos adormecidos
sem nos darmos conta que o tempo acordou
conta-me o segredo de um beijo
desvenda-te num abraço
e repetir-te-ei
eternamente
num sussurro
que não vou dizer que te amo.
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Infinito


Comprazemo-nos
trajando adolescências,
abafando o som dos risos,
quando nos espreitamos à socapa,
pela cortina que afastamos
na janela dos nossos dedos.

Deleitosa esta espécie de olhar de garotos,
nesta ciranda em que dançamos,
visualizando-nos tão bem,
que nos tocamos.
Fundamental saber o que amamos tanto
com as mãos do imaginário,
com os olhos rasos de mil pedaços,
nesta imagem de estarmos juntos.
Relevante que nos emocionemos
ao experimentar com análoga intensidade
desenlear do tempo comum,
o tempo só nosso.
Singular a carência de cruzarmos silêncios,
de não nos deixarmos concluir,
numa interrupção atabalhoada
própria do desejo de nos mantermos conspirados.

Temos ainda tanto para trocar entre nós.
Temos um mundo próprio,
esta paisagem pré concebida,
grafitada num muro de uma avenida qualquer,
só pelo prazer de nos vermos
quando por ela nos circulamos.

Importa o resto?
Claro que não!
Importa que continuemos a compartir silêncios ilimitados.
Enquanto continuarmos nesta permuta
Importam-nos sim,
as frases,
imagens nossas que prendemos na lapela,
condecorações deste bem-estar que cogitámos:
Falta um infinito imenso!
Falta o inimaginável para que nos dissipemos!
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Vira do Minho

Tão belo, cheio de cor. Tão belo, cheio de música, pleno de
finais da tarde, pleno de noites para se bailar na eira, ao som dum
acordeão, duns ferrinhos, duma viola braguesa, dum cavaquinho.Demoramo-nos por aqui, onde o tempo nos dá o braço, nos puxa, nos rodeia a cintura e nos encanta, ausente de pressa.

Queria ser vilarejo,
Aldeia de casas caiadas,
Sardinheiras nas janelas,
Cheiro a flor de campo pelo chão!
Ser a fonte,
Beber de água,
Ser ribeirinha a correr,
Regadio de muitos prados.

Queria ser o "bom dia!",
Saudação bonacheirona,
Queria ser banco da venda,
Ser conversa,
Ser velhinho,
A sua boina,
Ser o grupo que ali se encontra,
Um jogo de dominó,
Uma boa gargalhada,
Ser uma história de avó,
Alvos fios de cabelo,
Ser semblante enrugado,
Ser olhos, ouvidos de neto...

Ser o sabor do estio,
O sol deitado p'los muros,
O chiado de duas rodas,
O cantar de carros de bois,

Ser o portão de uma quinta
Aberto de par em par,
Ser muitas arvores de fruto!

Ser o recreio de escola,
Ser meninos a correr,
Ser uma cantiga de roda,
Meninas de cabelo aos cachos,
Ser a alegria de uma boneca de trapos
Ser fisga de rapazinho,
Ser um pássaro, ser um ninho.
Ser tanque de água gelada,
Ser roupa branca a secar.

Queria ser feira,
Ser toalha,
Cântaro de barro,
Jarrinha,
Roupa interior colorida,
Gaiola de passarinho,
Ser morena,
Ser trigueira,
Ser tamancos, ser sapatos,
Chinelo de meter o dedo,
Ser tecidos,
Ser cadeiras, escaninhos,
Armários, mesas, panelas,
Discussão de lavradeiras,
Cestos de vime entrançado,
Ser a foice,
Ser ancinho,
O cabo de uma enxada,
Alguidares, jarros e loiça,
Vasos a abarrotar de flores,
Bebé no meio de mantas.

Ser domingo,
Saída da missa,
Ser chão do adro da igreja,
Um bonito fato engomado,
Ou vestido vindo da França...
O casamento a preceito,
Boda à sombra da latada,
Ser riso da jovem casada,
Ser dela o noivo bonito,
O galanteio guloso,
Uma flor na lapela.

Ser desejo, ser anseio,
Da vontade que não acaba
Ser só dele, dali a nada...
Queria ser um Arraial,
Foguetes de muitas cores,
Mesas com bancos corridos,
Tendinha de pano-cru.
Ser cheiro a sardinha assada,
Pão ensopado em azeite,
Vinho a pintar a tigela,
Boroa de forno de lenha,
Fêvera a grelhar no carvão...

Queria ser festa animada,
Um coreto engalanado,
Um rancho de folclore,
Uma chula, um vira do Minho,
Ser a dança ou rodopio,
Ser andar de braço dado,
Ser voz da rapariga animada
O olhar de moço cobiçado
Um beijo dado à socapa,
Ser lenço de namorados.
Ser ainda a última cantiga,
Ser as "santas noites!" a todos,
A porta da casa encostada,
Ser do sono a recompensa...
Ser o silêncio satisfeito
Ou céu pejado de estrelas.

Eu queria ser madrugada,
O galo a cantar no poleiro,
O chilreio da andorinha,
Ser povoação, ser um largo,
Ser aquele vilarejo,
Ser todas as casas branqueadas,
Um gato a dormir no colo,
A cortina da janela,
Ser caminho,
Ser um passeio.

Eu queria ser um ano,
Ser um mês,Ser só um dia,
Ser uma hora ou um minuto,
Ou ainda que por menos tempo,
Ser vida a andar com vagar,
Bordada a mil e uma cor,
Na barra de um avental!

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Encanta-me com resquícios de lua

Serena a montanha quando acorda
Com ela acordam cheiros
fragrâncias que se espreguiçam
como risos azuis buscando o dia

Despertam árvores
estendendo ramos

Renasço
paulatinamente
no respirar do teu corpo descansado

Deixa que me deite
no leito da tua pele
para que te sussurre:
Espalha o teu sonho
pelo meu avesso.

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Por de Poema



Aparto-me do corpo
Abandonando a voz num grácil descanso.
Sou o teu silêncio.
Sente,
Devagar,
Como me enleio pela tua imaginação,
Como se de ti, fizesse parte.
Dela,
Não te separarias por nada!
E porque a saberias fina,
Delicada,
Qual folha de papel de arroz,
Apartar-te-ias do corpo,
Abandonando a voz num não menos dócil emudecimento.

E assim,
Incorpóreos,
Existiríamos!
Seríamos de quando em vez
Movimento,
De quando em vez
Tacteio leve...

Era assim que nos víamos,
Quando no céu deste lugar
Nos contámos do que iríamos fazer,
Quando por fim nos encontrássemos!

.............................................

Estamos juntos...
Acendamos a magia deste momento
E sob a luz doce que dela emana,
Vamos emocionar-nos,
Vamos tocar-nos sem nos tocar,
Causando com que a pergunta que nos fizemos,
Se deite,
E adormeça, feliz.

Vamos ser a certeza de nos termos,
Deitando fora a distancia,
Saboreando o prazer de ver a resposta acordar
Espalhando-se por nós,
Tornando-se na nossa pele,
Tal como este por de sol que vem aquecer-nos,
Depondo no parapeito do desejo
A certeza de que o amanhã é agora:
Tão certo,
Tão vivo,
Tão quente,
Tão só nosso.
👁️ 1 226

Um poema




poder-te-ia dizer tantos
mas
só este
digo
e sei
de cor

dizer
d
e
v
a
g
a
r
o teu nome

poder-te-ia dizer tantos
mas não seria
qualquer deles
o mais belo poema de amor


👁️ 1 319

Sonho


Falo-te dum sonho,
Daquele que tantas vezes tenho.
Dispo a ansiedade,
Desapertando,
Botão a botão,
Desejos insaciáveis,
Até ficar despida, um instante...

Aliso o leito,
Aquele mar por ti amado.
Com ele me cubro,
Apagando a luz da realidade,
Deixando apenas acesa,
A lua da imaginação...

Agora, fecho os olhos.
Não há tempo, distância, matéria...
De mim só existe a alma
Coberta por um mar de mil cores
Que não te explico,
Que conheces,
Bem melhor do que eu.

Assim fico,
Escrevendo esta quase imitação de carta
Tão sem tempo!
Tenho frio!
Tardas!

Eis senão quando,
Quase no fim do horizonte,
Onde o teu mar abraça a minha lua,
Vejo uma ave voando,
E que, num bailado único,
Raiado de verde e de azul,
De mim se aproxima,
À minha alma se dirige.

Quase não me mexo...
(e tão ansiosa me sinto!),
Para que de mim se não desvie
O voo daquela ave.
Levanto a ponta do mar,
Preparo um espaço,
Uma praia,
Neste leito onde estou
E peço a Deus
Que o bater do meu coração
A não afugente...

Percebo que és tu!
Ainda assim,
Fico-me neste aparente sossego...
Sobrevoas-me
Sem um bater de asas
Acabando por pousar,
No areal imenso que para ti preparei.
Que mais dizer?
Calar este meu desejo?
Afinal havia tempo!
E é desse tempo que te falo.

Desvendo agora o meu segredo:
Do meu corpo me distanciei,
Para que na minha alma pousasses.
Agora estás em mim!
Sobe pelo meu corpo
E deixa que no teu,
O meu se derrame...
Fiquemos assim,
Tendo como limite
O espelho do nosso encontro:
Um mar, uma lua, uma brisa...

Falei-te dum sonho.
Foi meu,
Talvez teu,
Mas agora é nosso!
Completou-se o triângulo:
Um vértice - Tu!
Outro - o Mar!
O último - Eu!

CM
1998
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Tanto e mais

saber-me-ás
em cada gesto.

todos
todos
a correr para ti
como um rio...

do amor?
não preciso dizer-te...

adivinhas-me!
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Comentários (2)

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joaoeuzebio
2020-08-02

Desejo te de te ter agora neste poemas belissimos viajei feito um passaro neste poema lindo Parabéns um abraço

2017-06-16

Cristina, me deparei com seus poemas e fiquei em estado de extâse, você tem muita sensibilidade e talento. Pretento ler todos os seus poemas e poesias, desgustando-as pouco a pouco. Parabéns