Lista de Poemas

Ponta da língua




Desenha-mo-nos
lentamente
percorrendo flancos
lambendo o desejo
que corre pela pele.

Desejo-te!
Arrepio-te a vontade
de me teres agora
toda.

Deseja-me!
Arrepias-me vontade
de te ter agora
todo.

Bebo-te!
Bebe-me!

Cresce a ânsia
de te desenhar
de me desenhares
com lápis de cera de lua.
As bocas são o palco
onde as línguas vão dançando
ao nosso sabor
sem critério...

Esboçam
o abrir das minhas pernas
o afastar das tuas
e as línguas
percorrem-nos
bailam em nós
ávidas!

Cai amor pelo chão
enquanto nos tocamos.
Néctar!
Pingam gestos
estalactites
na gruta onde nos escondemos.
É de pó
de cumplicidade
esta delícia que bebemos
celebrando as festas
das danças dos corpos
desenhados pelas nossas línguas.

À flor da pele
da minha
semeias arrepios.
À entrada da pele
da tua
deponho este frio
moldado
soprado a quente.

Amaciamos o silêncio
num jogo de luzes
de olhares.

Recolhe-te em mim.
Vem passear-te
sulca o trilho
percorre-me
deixa que eu use e abuse
que de todo me lambuze
te levante cada pedaço de pele
pousando neles
meus olhos nocturnos
te percorra os silêncios
com os meus gemidos
me derrame
me desnude
mas
no instante em que nos despirmos
vamos vestir-nos

tu
eu
tanto
de nós!
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Nem contigo nem sem ti


Não te quero senão porque te quero.
e de querer-te a não te querer, chego,
e de esperar-te quando não te espero
passa o meu coração do frio ao fogo...
Pablo Neruda




O olhar é céu
e o desassossego
nuvens

Não choro
chovo
até afogar este logro
de não te querer

Não morras
que não morrerei
Espera
que te esperarei

Perde-te de ti
que já me perdi de mim

Vou encontrar-te
sob o céu sem nuvens
porque já afoguei o engano
porque sei o quanto te quero

Eu vivo
prometo-te
se contigo
e
morro
prometo-te
se sem ti




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A Sophia

-E se te contar uma história?
Ela aninhou-se-lhe no peito.
-Vá, fecha os olhos.
E a menina fechou.
-Era uma vez um mar...
-Eu queria ir ver o mar. Levas-me?
-Se fechares os olhos..
-Já estão fechados.Mas é teu amigo, o mar?
-Queres ou não ouvir a história?
-Claro que quero.
-Então fecha mesmo os olhos.
-E ele fala, o mar? Tu sabes que gosto quando imitas as vozes
-Ai! Então, não fechaste os olhos
-Agora já estão fechados.
Conta-me, vá!
-Ouves o meu coração a bater?
-Ouço.
-E sentes como o meu peito te embala?
-Sinto.
-Então nesta história não vou precisar de imitar a voz.
-Então começa de novo.

Ele sentiu como a menina se encostou ao seu peito.
Não precisou falar mais nada.
Adormeceu e ficaram os dois encostados, a ouvir, tão juntos, uma história do mar.
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Aroma de beijo

"Beijo-te docemente"

Enquanto em ti me solto
De coração alado,
Qual pássaro,
Em voo planado,
Tranquilo como o teu beijo.

"Beijo-te docemente"

Volto a nascer,
Finda de mim, imensa de ti,
Plena do teu estio,
Das paisagens
Por onde vou esvoaçando,
Buscando a clareira
Nessa tez dourada
Que me lembra a praia
Ou um campo imenso
Que aguarda a ceifa.

"Beijo-te docemente"

E sou toda mulher,
Toda eu vida,
Toda eu em ti,
Toda eu sonho
"Numa noite que não tem braços" que me impeçam...

"Beijo-te docemente"

Imagino-te
Todo tu mãos
Como um sussurro que inebria.
Não as cales,
Que já espero por ti
Na era do sempre,
No tempo em que nos sabemos.
Jorrará o sonho pelos dedos,
Como um caudal,
Ousamos pensar,
Profético.

Neste entretanto em que te espero,
Entre o que pareço e o que vou ser,
Entro num arvoredo de perguntas.
Se me lembro de como fazemos amor,
Se me lembro de como falamos,
Com a linguagem só nossa,
Enquanto que por mim,
Pelo meu pensamento,
Os teus gestos escorrem...

"Beijo-te docemente..."

Já prendi um afago à asa do vento...
Já lhe disse que fosse,
Que te procurasse,
Pois que te saberia,
Quando visse um céu anilado...
Ele soube-te,
E envolvendo-te na carícia que eu lhe prendera na asa,
Trouxe-te,
Ao tempo em que dissipava aquele arvoredo,
Até me encontrar
Levando com ele as perguntas...

Sou eu que te digo agora
Que te vou beijar levemente,
Enquanto me abandono,
Para me perder toda, em ti.
A noite não será impedimento,
Pois que é de nós, companheira,
E que as mãos,
Cheias de Alma,
De cor,
Tão nuas,
Tão nossas,
Que tanto têm para falar,
Se vão perder em cada esquina de nós!

O alvorecer do dia assistirá,
Ainda matutino,
De como nos olvidámos que parecíamos,
De como chegámos à estação de sermos,
Quando nos dissemos,
Na linguagem que guardámos dentro da certeza:
"Beijemo-nos, Amor, docemente",
E partirá, então,
Leve,
Brando,
Na asa daquele vento...
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Desejo

Penso-te,
Qual cascata de gotas,
Lágrimas emocionadas que te envolvem.

Enquanto os gestos se ajeitam
Ternamente,
Tal como quando se completavam
Ao desaguar naquela baía,
Aquela frase que me deste:
"Adoro amar-te!",
Meus dedos levam-me
A correr,
Célere,
Por cada pedaço de ti.
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Nascer



Não me sei...
Esqueço-me
por não saber
onde nasce o azul.
Talvez nasça ali
na berma de um beijo
que fosse capaz de dar
se já fosse corpo
se de mim me soubesse...
Mas não me sei
de mim me esqueço
enquanto vagueio
pelo campo da nascente
me moldo
me ressurjo
por dentro de um arco-íris
pleno de cor.

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Amar-te?


Amar-te?
é ir mais além
é descobrir os descaminhos
parar e mergulhar no teu sorriso líquido

Amar-te?
é ficar à sombra da serenidade
do teu corpo
e é mais ainda
é um nada pleno

Amar-te?
é encher a boca
com a flor
a palavra que vou colher
na planície da espera repousada

Amar-te?
é sentar-me depois
na berma do teu nome
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Tão leve!


Fecha-te em mim!
Do cenário
Aproveitamos a música
Este não precisar dizer nada
Que tem o som límpido
Das primeiras chuvas.

Fecha-te em mim!
Vamos ensinar-nos a dançar
Arrebatar do silêncio
O som límpido do seu olhar

Fecha-te em mim!
Compasse-mo-nos.
O espaço é só nosso
E nós dele,
O momento.

Fecha-te em mim!
E deste Outono,
Desta taça de tantos por de sol alaranjados,
Beberemos a água das folhas adormecidas.

Mais tarde,
Olharemos o céu
E vamos ver o esvoaço dos beijos
Que cabriolam nos beirais
Dos meus,
Dos teus,
Dos nossos lábios.

Fecha-te em mim
E não nos obriguemos senão a nós
E a esta vontade de nos tocarmos
Tal como a noite que toca o dia...
...Leve...
...Leve...
...Tão leve!
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Tisana

"- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum"
Eugénio de Andrade

" - Eu vi a terra limpa no teu rosto..."


e ao olhar
tomei dele o gosto
em pequenos goles
como uma tisana
que me aqueceu
por dentro...

" - Eu vi a terra limpa no teu rosto..."

fechei os olhos...
quão perto
ficaste de mim

Cristina Miranda
jan 2011
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Não te digo que te amo


Ponho entre lábios essa vontade
serpenteio aromas de hortelã
a curva das nossas bocas.
Chovo em bagos rubros no nimbo
onde cabe o pensamento
que tal como um olhar
desagua
ansioso
pelo desejo.

Mostro-te como nos respiramos
afastando os dias mornos
enquanto percorro as ruas
que desembocam na clareira da nossa pele.
Biso em nós toda a chuva
tomo forma de ventos
voando pela malha das ruas que teci
sobre lençóis que amanhecem em vagas de espuma alva.

Vou dar voz às mãos
ouvir cada gesto
sob véus que dançam
formando nuvens róseas
onde o sol se deleita num céu
leito de deuses.

Quando voltarmos a amanhecer
nos nossos corpos adormecidos
sem nos darmos conta que o tempo acordou
conta-me o segredo de um beijo
desvenda-te num abraço
e repetir-te-ei
eternamente
num sussurro
que não vou dizer que te amo.
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Comentários (2)

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joaoeuzebio
2020-08-02

Desejo te de te ter agora neste poemas belissimos viajei feito um passaro neste poema lindo Parabéns um abraço

2017-06-16

Cristina, me deparei com seus poemas e fiquei em estado de extâse, você tem muita sensibilidade e talento. Pretento ler todos os seus poemas e poesias, desgustando-as pouco a pouco. Parabéns