Lista de Poemas

Olhos Ferinos

Olhos Ferinos
 

Curvo-me, vergo-me, mas não apodreço,
Meço a umidade dos ventos a quem há muito tempo peleja
Afasto-me dos olhos doces que tentam tantas coisas me dizerem,
Mas o mel de açucena envenena e fecha a garganta da presa,
Curvo-me humildemente devido a ignorância que me permeia,
Tendo aos acenos do saber, que me estendem os braços
Mas esses olhos me acenam também, são feitos de aço banhados em azul
Ou seja, o reflexo do céu no polido metal de armadilhas
A boca que brilha o vermelho batom escondendo as presas aguçam-me os sentidos
Há nos teus olhos a divina presença que condensa o homem incauto,
Revestido de tramas sutis, admirares cáusticos ou de mel deixar a língua surpresa,
Curvo-me ao beijar-te os pés, mas os permeios das ancas falam a língua dos menestréis,
Dos paraísos aos bordeis, de tantas piedosas más intenções a induzirem-me a beber do ventre das águas, das profundezas dos astros, dos infinitos sumidouros dos céus,
A virgem madura serpente, da maçã que come gente, a redemoinhar como vento querendo desviar-me os passos,
Curvo-me ao lamento dos olhos que choram lágrimas de fulgor difuso,
Mas não bebo do liquido que salivas, oferecendo-me os lábios, substância que me oferta os alimentos,
Se bebo, a minha boca morre, as veias secam, e o meu sangue me consumirá feito vinho tinto fervente a cozer-me o cérebro, a alma e a vida que ainda esteja a contar-me os dias,
Curvo-me ao amor, as miragens e aos desertos,
E os teus pés caminham seguindo os meus, atiçam-me as areias aos olhos e a pele que me resta, tosta-as ao sol
Desfiei os músculos e moí os ossos, a carne desfez-se ao contato das tuas,
Padeço de insanos desejos a deflorar-me as vontades,
Curvo-me enfim ao destino do homem perdido, entregue, como um servo penitente e louco,
E tu ris assim de mim, olhos inocentes, tão sem piedade


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Aos amigos Amigos

Aos amigos Amigos


Lembro-me dos amigos, dos que ainda me chamam pelo nome de juventude
Devagar, amo a cada eternidade que se abre em cortinas de tempo
Os amigos enlouquecem perante a solidão, e quietos se assentam na sala, diante da televisão
Os números vão contando os que partem e os que ficam, fecham os olhos
Eu os chamo e eles voltam imediatamente. Sentemos diante do fogo
Não temam que as suas almas queimem instantaneamente,
Não precisamos criar lugar de silêncio e tristezas, os assuntos profundos nos carregam para baixo
Com uma rosa no peito nos identificamos
Viva e cheire oxigênio, os pulmões são uma caixa de ressonância, cantem mais alto e libertem as gargantas
De que matéria é feita os teus medos? As mãos direitas se reconhecem como um manual secreto de amor
A rosa cresce para dentro dos olhos e vejo os espelhos das retinas ganharem mais brilhos
Só haveremos de partir quando nossas amizades se extinguirem
Quando novas flores chegarem
Ou o sol se fixar no meio do céu e cada espelho se quebrar 
E as constelações se refletirem nos pedaços dos cacos


Charles Burck
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Deus

Deus — talvez esteja aqui, na textura da minha língua,
Inerente sem dizer palavras
Talvez espere de mim que eu diga quem somos
Uma alma mexida demais, cingida como as cascas e conchas espalhadas numa praia infinita
Para lá das brisas nômades, das noites insones
Dos amores que não fizemos,
Quem sabe se encolha em meus medos e nos caminhos vazios
Onde as copas frondosas das arvoes gigantes me escondem os céus
Ou nas memorias que eu invoco e não me veem
Em meus dedos feridos de trabalhas nas pedras,
Do tempo que me escreve nas mãos as orações esquecidas
Venha sussurrar ao meu ouvido alguma antiga lembrança de ti e de mim
Alguma sonora melodia onde eu possa vê-lo
Ainda que sejas a imensidão que me engula inteiro, me digira e me vomite como um feto, um verme ou a saliva bendita de um beijo
 

Charles Burck
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Rebanho

Sonhava, faz tantos anos, e escrever e sonhar, sempre a enfrentar a necessidade de profundidade
Hoje, sentia essa admiração desesperada, viver apenas, não era o suficiente
Transitar entre as coisas banais, triviais e o outdoor que esqueceram de mudar
Para ver estrelas, nem sempre se precisa de céus, mas o imaginário se misturava ao carnal existencial,
Alguma coisa a dificultar o caminho, a justificar o ganho de uma vida
A aldeia cobra entrada, uma cicatriz no coração, um ardor bêbado na alma
Um rebanho subindo a montanha
Uma ovelha que escapa e ganha o céu
 
 
Charles Burck
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Até que a chuva passe

Um a um esqueci os motivos porque me perdi,
Quando todas as coisas se fizeram mudas, esperei,
Até que como chuvas se soltassem de mim, as lágrimas,
O coração nos pesa e a alma anda ensopada,
Desenha então com a ponta dos teus dedos
As linhas da tua face, os contornos da chuva, os olhares esquecidos nos desvios do tempo
Dê-me detalhes, como sinais, marcas de expressões,
rugas, ou cicatrizes,
Os esforços das lembranças
o lento sulco da lâmina fazendo o leito do mistério do amor no peito
Diz-me que não chore,
E eu direi,
Somente até que a chuva passe então

Charles Burck
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Chorar para dentro

Réstias de abandonos nos olhos adormecidos,
Não me deixes saudades, eu não as mereço,
A ausência é coisa que mora longe,
O amor que não se move
Que rasga os mapas,
E chora para dentro dos olhos

Charles Burck

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O menino

O tempo bebe o menino, come almoça e janta
Daqui a pouco nem se dá conta que foi amadurecido,
Da planta do tempo que come os frutos,
Os caules arranca,
A semente que suga, chupa, adoça,
Daqui a pouco serão raízes mortas, o tempo findo, estancado
Na terra já posta, a flor que brota, mas o menino nunca morre
O menino vela o sono do homem adormecido

Charles Burck
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Velhos Milagres

Os milagres envelhecem na antiga madeira da igreja
O espírito do mar já não dá peixes maduros,
As gaivotas choram os tempos sem pão
O oceano é um muro, e os sonhos demasiados longos
Ajeita os cabelos nas águas tristonhas, e repousa no peito de Deus
No fim do dia descansar como as aves humanas,
No fim da noite te conto o resumo  do que somos
A macieira floresce, mas deixou de servir aos homens

Charles Burck
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Pedras no espelho d'água

Atirávamos pedras
para a água sorrir
para o silêncio deixar de existir
Para a luz se dividir em pedaços

Charles Burck
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Labirintos Forjados

 
 
Havia um canto para onde eu corria para me proteger do mal,
Onde a vida e as pessoas se esqueciam de mim,
Labirinto forjado na inocência do medo,
As fugas dos vazios do mundo
Às vezes, criava asas, fluido na direção contrária do pouso,
E lá do alto eu via as paredes ocres, e as moradas dos pássaros
De cima, vindas do céu minhas lágrima pareciam chuvas,
Havia nesses momentos um riso solto, a liberdade criando alegrias
E eu era apenas feliz, não sabia de mais nada,
Deus tocava o meu peito menino com um carinho que só Deus tem
Assim eu era dono de mim, filho do mar com os ventos,
Onde os sons tinham bocas e dentes e uma flor no canto dos lábios,
O meu jardim era o espaço, o infinito feito de mim,
Um assovio feito de algum elemento divino chamando o meu nome,
Disseram-me que eu inventei um céu de histórias
Acho que nunca inventei nada, era tudo nascido da vontade de ser
Ainda lembro-me dele até hoje, do menino feliz, me chamando para o seus voos
 
 
 
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