Lista de Poemas

Postal à pedra

"O homem atravessado por um rio

plangia água salgada"


a pedra, e o trajeto enfiou-se nela

ingressando pelos dutos, temê-la

feito mar a dentro, temia

e os anchos dutos enfiados no trajeto

Esta nada sabe da vida, sendo pedra

daí até que nada eu saiba

há um passo

outro, e nunca eu soubera.

Agora que tu já me pareces tão grave

e o caminho enfiou-se em mim, temer-me

o caminho, feita eu mar, adentro.

O trajeto a mim e a pedra atravessara

isso que fazem as coisas, atravessam-nos

e plangem-se os mesmos objetos

ingressados ao colo.

Ainda a pedra irrefutável, ou era gente,

pode estar o mundo a continuar girando.

Vê o mundo, traz os olhos, vê aqui

o mundo, trouxe-o a ti, nalgum que me esqueço

pedaço do corpo

mas vê, aqui, a ti e ao mundo, traz os olhos

nalgum pedaço do meu corpo.

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Outra vez que envelheces

(Aos que envelhecem)

O grande objeto comove-se ao chão
e por sobre seu imoto redor, o chão
e a procedência calma deste tempo
o grande objeto comove-se pela calçada
intacto e grande, e passa-se, como passa
o hálito desmedido das horas
Vê como és frágil, a este ponto, às horas
as que iças junto aos corpos desta terra
se há em ti a permissão de vê-los
aos objetos de menor contenença
iça-os ao comovido chão do grande objeto
se estás ainda a estas horas, quando iças
ao chão e aos redores, e dirige-te
donde estiveres em caudas, ao comovido céu
e à dele várzea tão de mesmo comovente
abaixo do grande objeto
Vê como és frágil a este ponto, ao objeto
grande por sobre erguido em tua nuca
e que a teu imoto redor comove-te
se deparas umas flores miúdas, quais te parecem
fortes, que te parecem homens.
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Póstumo I

Meu corpo

quando foi embora

Minha alma

era objeto entendível

pois póstumo

A única coisa entre as coisas que são divinas

Entendível.

Porque gente quando morre

é coisa entre as coisas que gente fez

Pois imagem.


O meu corpo quando foi embora

foi à terra de que eu mesma cultivei

Dos rastelos os meus dedos

Quando irão brotar as minhas carnes em meus cultivos

As minhas folhas, os meus pelos.


Mas era maio aqui em Minas

E eu não chovo.

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A parede, a sua vida

Devo-lhe ser este novembro custoso
como custaram-lhe as ingratas paciências
e o mês de agosto, não de menos, quando
tolos os meses se antecediam uns aos outros
antes embebia outras datas num só rolo
trouxe até a me pintar toda parede, e a parede
que afaga a colorir seus outros dedos
E suas datas mais próximas apetecem ou descansam
aos arredores da casa sua
a sua vida é besta, a sua vida é besta
e eu deitei-me sob ela
aos arredores da casa sua
a sua vida é besta, a sua vida resvala
escorrendo-me à cabeça
entornando pelas eiras
Se correr à calha a esta altura
a sua vida me aproveita, eu já sou outra parede
a minha vida é besta, a minha vida é besta.
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Outro convívio das coisas

Não é um teu estado perene
o que, sim, essas fagulhas terminam
há de haver outra casa em silêncio
e outra casa vadia, outra em incêndio
o que, sim, essas fagulhas terminam
eriçando o flanar doutros olhos onde,
sim, puderem flanar os teus olhos
haverá outras casas e vilas.

Vê donde percorre de sopros passível
novo tempo das cercanias
estas, sim, de estado perene
que, sim, vem e que vai e se fica
(havia uma pequena vida acontecendo ali):
havia dois meninos de botinas
enlamaçadas, as barranqueiras, as suas vidas
galgadas, e os cavalos se iam, os cavalos se iam.
Havia um menino sem pêlos
seus, e os matos crescentes, os fios
da cerca interessavam-no entretanto
e o tempo se ia, os tempos se iam.
Havia um veleiro, um lençol grande
no mastro, a tarde já tarde enlanguescia
e o vento se ia, o vento se ia.

Havia uma pequena vida acontecendo ali
os teus braços, estica-os elastece-os alcança-os,
namasque, das estâncias últimas, as tuas mãos
cercearem crivas de infinito
as tuas linhas.

Não é um teu estado perene
há de haver gamas, sumas, suores
donde, sim, possam liquefazer teus olhos
os teus olhos, alcança-os,
as tuas linhas.
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Prece do poema

Prestes a não mais temer
nada
temo tornar-me o tempo que me transborda.
Peço, Senhor, que me dê do tempo
a origem das carícias que aprecio:
deixe-me as almas sobre o colo
deixe-me às mãos renunciar
de forma que os cabelos se afaguem
pelos quentes atrativos de meus olhos
seus quentes clamores como são quentes os colos
deixe-me a maternidade sobre os pedaços incorruptíveis
de natureza inanimada.
E deixe-me, por fim, Pai de minhas cordas vivas,
a corrupção das cores
a corrupção dos tempos
e o mármore dos pensamentos
numa pequena sexta disposta sobre as mãos
de quem a mim possa deitar
a alma sobre o colo.
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Há séculos, quando eu nascia

Os arredores de minha alma
interrogavam-me sobre as partilhas
se eram de boas idas
Há séculos, quando eu nascia.

Tratava-se do meu corpo
quando me alertaram das dores
as tristezas tenras, as estribeiras
se eram de boas vindas.
A estas recebi, educada,
à sala da minha cabeça
encorajada e indômita.

Pois quando principiei na alegria
de pouca idade eu teria inventado
esta novidade que havia
esta invasão em meu corpo
esta fé, esta heresia.

Tratava-se do meu corpo
Não me interrogaram a tempo
os arredores de minha alma
se comportariam meus ossos
esta alegria, esta vida
Há séculos, quando eu nascia.

Se era de boas idas
este alimento que não se exonera
pelos tubos, pelas artérias,
uma figura caudalosa entornou-me:
pois esta alegria em meu cálcio
pois esta liberdade
essa manhã arredia.

Ainda hoje, quando eu nascia.
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Folia

Possuem os nomes às coisas
(devemos não ser diluídos)
O homem está dentro do mundo
e dentro dum corpo o teu sítio
- os meus olhos dos teus adormecem -
tu e estes objetos coloridos
um balão, um tear, um talher
vós sois algo tão parecido
neste mesmo jarro de parentes
só essa coisa de barro
(este rancho de nossas almas)
provisionam impávido abrigo:
dá este instante ao sossego
tu que estás dentro agora do tudo
percebeste a fortuna em teu peito?
De ti, dentro, espreguiçava o mundo
num infinito menor instante possível.
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Da hora em que o dia está só

A casca do dia enrubesceu
acerca das providências ordinais

Meu peito alvorece os pensamentos, errôneo
por causa da hora
(a que o próprio do meu peito transpassa)
O meu peito ensurdece e sabe
pois onde não se diz se cabe
tudo em peito cabe quando calo
os olhos
O meu peito cabe na caixa do corpo
e alegra-se mudo
O meu peito descabe esta hora do enrubescer
(o precaver):
ou se estilhaça ele
ou se extrai todo vermelho
endireita-se o mundo.
A esta hora a crista das minhas pétalas
estilhaça o mundo
não havendo sossego maior que o deste zumbido
e extrai-me o vermelho.

A casca do dia enrubesceu
acerca de meu peito.
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São mediterrâneos quaisquer olhos como os meus

São mediterrâneos quaisquer olhos
como os meus
Entre as porções de terra do meu rosto
Estão molhados onde escorrem
como o Deus
Quanto guturais desde a margem primeira
dessa face rústica e os corpos bruscos
e os céus sustentados por meu dorso
quão molhado por meus olhos o meu dorso.

Havia tempo desde meu corpo:
há quanto meus olhos estão físicos
numa fita pendurada do meu osso.

Devem ser essas instâncias tal estado
surtou-se uma alegria gorda
pelas paredes da minha boca
está eterna esta tarde tão pequena
pode o mundo envelhecer antes da tarde

Que só tenho essa vida miúda
e não anoiteço
que só tenho esse peito miúdo
e a tarde larga
que só conheço este estado poente
e desconheço.
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Comentários (1)

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2017-05-29

Li alguns de seus poemas e o que me tocou, talvez por estar passando uma situação complicada, aqui, foi o envelhecer...