Lista de Poemas

SERTÃO DOS BICHOS

Arde a terra sob meus pés
Anteu sou eu e os meus calos
de léguas e sol
arde em mim uma lua
que acalma meus olhos
e os olhos dos bichos
que sonham
a chuva amarela do
milharal em flor
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RELICÁRIO

Há mais coisas
entre o mel e a abelha
do que possa imaginar
nossa chã homeopatia.

O terço, amigo,
é a arma do vigário
se não posso te ofertar um poema
que os anjos escutem a prece
desse nosso relicário.
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FOI O VENTO

Minha filha agora entrou
No mundo das siglas:
TPM
Se bem que no caso dela é uma tepeemezinha.
Fico olhando para ela, com raiva do vento
Me olhando silenciosa como se quisesse dizer:
O que foi?
E eu digo: foi esse vento que passou!
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DE BORBOLETAS E PASSARINHOS

Se o mundo fosse cinza
Não haveria borboletas
Nem passarinhos
Bastaria um papagaio daltônico
Repetindo a mesma canção
Mas o mundo é colorido
E somos as tintas que fazem
A diferença entre a alegria
E a imensidão de vazios.
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E DEUS NÃO ESTAVA LÁ

Eu vigiei o céu na minha infância
e Deus não estava lá.
Sentei nos templos que diziam existir Deus
e Deus não estava lá.
Fiquei desgarrado da sorte
e esperei por Deus, mas Deus não estava lá.
Às vezes estive no inferno do ser
e apelei para Deus e Deus não estava lá.
Quando pensei que Deus era uma ilusão
encontrei Deus testando as minhas forças,
embaralhando minha inteligência,
realçando minhas dúvidas,
para que eu descobrisse
que Deus estava em mim.
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ARIANO SUASSUNA

No verso de pé quebrado
O poeta que se assuma
Quem precisa de Homero
Dante, Ovídio ou Shakespeare
Eu prefiro mesmo ouvir
Ariano Suassuna.
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FOI O VENTO

Minha filha agora entrou
No mundo das siglas
Tpm
Se bem que no caso dela é uma tepeemezinha
Fico olhando para ela, com raiva do vento
Me olhando silenciosa como se quisesse dizer:
O que foi?
E eu digo: foi esse vento que passou!
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DESEJO DE VINGANÇA

Trago na alma o desejo de vingança.
Vermelha, amarrada, pisoteada, traída
minha alma chora.
Desprezo todos que amordaçam a alma.
Desejo me vingar com o mesmo sangue
que me socorre as veias dilatadas,
sangue doce, quase azul, sem maldade,
como uma canção triste de Piazzolla,
Ravel ou Schubert.
Meu sangue é quente para ferver o ódio
emparedado do outro lado de mim.
É assim que eu me vingo!
Sei matar a tristeza com o amor
dos grandes poemas
e das grandes canções.
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Aprendi...

Aprendi com a vida e com os livros que há concessões que nos levam embora a liberdade, há silêncios que nos tiram a paz e há condescendências que nos fazem cúmplices.
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EXISTE UM MUNDO FORA DA INTERNET

O melhor mesmo seria perguntar se existe um mundo fora da internet. Parece que, se existe, está agonizando. Estamos lentamente (uma imensidão de gente) transferindo nossos afetos para as redes sociais. E quando um afeto se transforma em autoimagem, que afasta a pessoa do real, o mundo real vai ficando opaco. Cada vez mais o ego precisa de curtidas, compartilhamentos, comentários. Esse acúmulo de empatia em estado de aparência nos faz cair na ilusão de uma vida sem riscos de atropelos, assaltos, tragédias, porque o nosso santo cantinho diante do computador ou do celular nos dá a segurança de uma existência de sorrisos.
Paralelemente, o mundo real segue com seus sistemas de controle cada vez mais aperfeiçoados. A luta de classes ficou mais sofisticada, pode promover a aparência da igualdade quando eu posso postar da mesma forma que o presidente pode também. E eu posso rebatê-lo, posso esbravejar e criar meu protesto ou simplesmente replicar o protesto de alguém. Essa malha ilusória que nos faz pensar em igualdade é uma armadilha para ir, aos poucos, determinando nosso lugar no espaço dessa luta por audiência virtual. Quem detém o poder e está no controle de tudo sabe que o mundo fora da internet é para quem é livre e autossuficiente. Os zumbis das redes sociais precisam de doses cada vez maiores de sensacionalismo para estimularem sua integração com a virtualidade. O espetáculo, enfim, atingiu a humanidade, como preconizou Guy Debord.
A mim, me parece, que posso viver sem essa transferência pacífica e servil para o mundo virtual. Posso controlar meus neurônios e barrar o alojamento do chip cerebral que se alimentará das aparências.
Ainda gosto de lembrar e sentir o cheiro das pessoas. De sentir o pelo arrepiado. De esperar e trocar longos abraços por outros longos abraços. Olhar para fora de mim e ver que não tem uma tela pequena ou grande manipulando meus dedos e meu tempo. George Orwell já havia me alertado que o grande irmão estava de olho em nós. E Huxley previu até que passaríamos por um tipo de controle como seria o código de barras. Esses são meus companheiros de mundo real. Senhores sem idade que romperam o tempo para me dar mais créditos para viver a realidade.
Não quero me tornar um agente Smith, a serviço da Matrix, muito menos amanhecer transformado num inseto, como advertiu meu amigo Kafka. Quero cultivar minhas idiossincrasias e remendar meus erros na beira da praia, num efêmero castelo de areia. Afinal, se não fosse a onda que brinca de arrastar e devolver nossos sonhos ao mar, por que eu faria castelos para me tornar prisioneiro deles?
Minha memória me fez sorrir. Trouxe-me os cheiros e os abraços que perdi. Há nuvens no céu, livros sobre a mesa. Au revoir!
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