Lista de Poemas

À JANELA NO TEU ANIVERSÁRIO


A vida passa-te à janela

um ar gelado

queima-te o tempo que resta

ela parte para longe

tu ficas

cortado ao meio

morres

no absinto dos dias

com a boca cheia de abysmo

e os olhos fundos

postos na sebenta

escrevendo ao anjo

o desespero do vazio

o osso duro na garganta

a tesoura na língua

o sangue seco

sobre a ferida da tarde.

 

Todos os desastres do mundo

buscam o teu corpo.

 

Vai-te embora

não lamentes

não voltes.

 

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ANTÓNIO & ERICE

O pintor olha o marmeleiro
a árvore agarra no pincel
e através dele pinta o mistério
o pintor assiste
ao sonhar da árvore
somente a luz
que é árvore
entende o pintor
que é tinta.
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UM ABRAÇO IMPOSSÍVEL

Ainda que os teus dedos
não estejam mais ao alcance dos meus
ainda que eu nunca te tivesse dito
que os teus olhos
eram as verdes paisagens
que me iluminavam todos os minutos
ainda que só agora o diga
ainda assim abro com doce desespero
esta garrafa de poesia e saúdo-te
mulher da minha vida
na cidade em que o mar tem o teu nome
e todas as pessoas te conhecem em demasia
para te poderem perder como eu te perdi
ainda que este papel
não seja o lugar
onde sublime possas existir
eu digo que se houvesse de louvar-te
buscar-te-ia no vento porque nada sou
e tudo é pouco
para abraçar o impossível
e esconder as minhas dores.
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PODERIA SUBITAMENTE

Por dentro de nós
é hora de todos os minutos
tempo de conhecer pela sede
o significado da água
onde vibra a respiração
da madrugada
que foge sempre
aranha assustada pelo morrer do dia
animal que procura a palavra nua
o poema cru vivificado pela alegria da luz
uma garganta para dizer o teu nome
veia do poema
areia luminosa
efémera gota de tempo
eu sou o arco e a flecha da tempestade
que não conheceste
um presságio com uma ferida futura
eu sou a impossibilidade da escolha
o fogo nas pálpebras que a insónia promete
descanso merecido nos confins do mundo
eu deambulo entre a luz
e por dentro da treva da luz
como um cão ou um gato melancólico
trabalho no deserto da existência
poderia enlouquecer subitamente
se não existisses quando fecho os olhos.
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ONDE OUTRORA HAVIA UM ASTRO NA BOCA

Onde outrora havia um astro na boca

hoje é visível uma pedra negra

e o mistério é esse desespero

das palavras que não encarnam o poema

quando o homem já não é casa

ou agasalho suficiente para o frio

que no ar circula como sangue.

 

Onde outrora se ocultava a esperança

vê-se agora o pão da morte

a língua alcança o sal antigo

na praia onde esqueces sem descanso

a água agarra-te pelas mãos

lava-te o rosto

e eu choro o mar todo

para sempre.
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OS MORTAIS


O copo cheio de promessas vazias

o rosto engolido pelo desanimo

a água negra do desejo

seca o lábio.

 
Que a tua mão ampare a luz

que me desvia do precipício

qual desígnio de medo

no corpo

eu sofro a faca

que na ponta leva o abysmo

ao poço

na queda das tardes de inverno

morro com um cão literário

e uma vertigem vermelha

concentrada nas têmporas

estala-me na cabeça.

 
Quanto mais escrevo

mais desapareço.
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