Lista de Poemas
Larga Narciso
Mirando o lume das águas do lago
vinha a mim em glória, o espelho.
Projetava-me em tudo, belo narciso
Ia a ponto de afogar a mim mesmo.
Um dia a olhar o horizonte do cabo
surpreendi-me a enxergar vesgo á linha.
Tudo tangia a um único ponto, a ponta do meu nariz.
Inclinado, pendente, atravessado.
Sabendo dos perigos do mal enxergar
e da vaidade que muito um poeta pode atormentar
Retornei aos versos que fizera no passado
O que era Narciso, antes a beleza da fonte
O que era oblíquo, antes a linha horizonte
O que era escrito, antes contemplação e espírito
Misantropia
Ecos do sem corpo
De fato! Há mudança com a contingência das coisas.
Como poderia eu aprisionar o tempo
Ou determinar o ser de alguma forma, ou a forma de algum ser?
Se eu mesmo em minha instabilidade
Já não sou mais o que pensara antes.
Acordo e já não sou!
Nem corpo, nem mente.
Nada mais que a voz que fala em mim.
Que ecoa em mim, eco entre paredes.
Pensamentos presos em uma caixa de ossos.
Vão-se até sumir!
Então novamente vem o indizível
e reaparece do nada movido por não sei o que.
Tanta gente dentro da gente
No entanto estou só!
Vazio, oco, oco no cântaro
e a cinza fria que antes existira já não é!
É soprada para fresta do tempo,
esse espectro que inexiste,
O esquecimento. E a memória já não vem.
Tento retê-la, ancorá-la a imagem
como noção de existência.
Faço por medo de me perder.
Tenho um passado?
Quero existir, fixar a mim mesmo
mas existo antes, e já não sou.
Então...passo continuum!
E já fui engolido novamente
Já não sou, nem serei
Nem passado, nem passagem
Cronos a engolir, a me devorar.
As imagens que pincei?
Devoradas, perdidas!
Nada mais que estática e ausência.
Nisso a tentativa desesperada
de alcançar um horizonte cada vez mais distante
e a angustia a observar o absurdo de
cada construção humana. A mim, a todos!
Cada corpo, um emblema
cada gesto, um símbolo
cada pessoa multiplicada um hábito
cada simulacro um limite
cada caricatura uma intenção
cada persona, uma composição
cada retalho de gente uma incerteza.
E do desespero, cada espantalho que pensa ser.
Então...deslocado de alguma coisa
que penso me conter, e que a toda hora me ultrapassa
vejo que o corpo já não me suporta. Me subtraio ao averso.
Canta a ode na utopia do EU
e dança sob mim a múltipla existência
dança Dionísio sobre o túmulo do ocidente
dança como num louco bacanal
Me deseja sono, e diz...descansa em paz!
Alegoria marítima (da sessão dos fantasmas)
É noite! Espero tranquilizar-me de ti, e do tanto mirar o esteio doido do pensamento a flutuar incerto esse caixote de osso feito. Perturbou-se o meu ser o mal gênio interior, e me veio de assalto o sonho, qual salteadores na obscura ramada se perdem na escuridão. Não! Sobressaltei-me de pavor! A minha frente o imponderável a atormentar, a assombrar a madrugada. Vai o espirito congelado de horror...O grito. Não! E me responde ‒ Eis-me aqui! Nada me tem a alma ‒ digo intranquilo ao meu perplexo interior.
Então de onde vem? Nada mais me tem! ‒ Penso eu ‒ quando súbito a soleira estou novamente a mirar do pórtico as figuras selvagens, a fugirem e a me atravessar. São elas que deitam trincheiras impedindo-me o retorno, perdeu-se Orfeu no meio caminho. Ficai! Ecoava a voz. Ficai nas intensidades nossas, Ficai ao que enlouquece o que antes é lucido. E de demência e delírio a criar mundos neste caixote de osso e carne, estica-se qualquer linha horizontal a compor o azul...
...Nuvens, sois, vento e mar , albatrozes, mar e terra, delfins e outras vidas marinhas a orla do meu pensar estendem-se sob minha alegoria. Vem a mim a reflexão arrolando em pequenas ondas a beira mar. Os pensamentos a minha frente tomam forma nas espumas da praia, desmanchando-se rapidamente. Um delírio, fruto da imaginação, penso eu! Não é nada!
Nesse instante o lapso! A desgraça de Ulisses e a paixão que faz vítreo os olhos dos argonautas cegando-lhe a terra a vista, a rebentar a onda o inconsciente ao rochedo a bravia costa. Me diz a voz. Aos que ensurdecem ao canto uníssono, vai a deriva a porta no meio do mar, vai se afastando aberta melancólica e inalcançável a passagem. Restam-lhe apenas o rochedo e o continuum cântico da sereias.
Antes lutavam contra o açoite das ondas e a canção do mar, agora entregam-se mortificados. Não resistem, cansam-se fatigados e náufrago do corpo e alma, de mar e terra, de terra e mar, e se lançam as trevas abissais das águas, e corroem-se em saber impossível o retorno. Canta sua ode o condenado.
A nada palavra ao ser
Nada a dizer, nenhuma palavra
Nada relevante a dizer. Não fosse o fato
de que sofro do estômago,
enjôado, nauseado.
Nada mais, nenhuma palavra.
A não ser o fato de usarmos vendas,
apenas isso. O desprezo
a indiferença, a ausência.
Quem se importa? Nunca o ser?
Nada mais a dizer, há muito se foi a palavra.
Nada a dizer, tudo já foi dito, já não diz!
A não ser o fato de irmos a lugar nenhum.
A marcha veloz? O acelerado passo, o não lugar?
O desconhecido? O abismo!
A máquina, a guerra, a dor!
O dia seguinte, amanhã...haverá?
E depois...haverá o etéreo?
Ou este desabou a muito sobre nossas cabeças?
Nunca, nunca...haverá?
Ha algo errado, há algo!
Não se sabe se dentro o fora
No corpóreo o incorpóreo
No concreto o abstrato.
Se há de haver algo? Não sei... Haverá ?
Há algo de errado na face do tempo,
No espírito dos tempos. Do homem o engano,
o momento perdido na miragem,
e a ilusão das verdades eternas.
Velhas, senís, estáticas, imóveis!
Nunca a humanidade, nunca o ser?
A consciência um dia líquida
A consciência dissolvida nas consciências.
Não mais a reinvenção? Infeliz ser estático!
Ulisses desejando o horizonte.
Na memória nunca Dionísio, só a simetria.
A memória na memória, mimese como espelho da memória.
Perda dos sentidos na repetição
ausência de si, fragmento jamais recuperado.
Nunca mais encontrado. Jamais o ser!
Aparição a beira mar (da sessão dos fantasmas)
Talvez vá a praia
Leve meu casaco
Sente a beira da areia
e imerso a escuridão alí fique.
Talvez vá. E escura a mirar o pélago
não saiba os limites entre mar e terra.
Apenas o uno a ligar o universo de estrelas
pontilhando de azul a escuridão, o sem fm.
Talvez sinta o gosto das gotículas da marola,
e o abraço do vento robusto grave a soprar
o som das incansáveis ondas arrolando sob si.
Inquietas, constantes, contínuas, tocando-me os pés cada vez mais.
Quem sabe a veja imergir das águas
em fanéia o único bem da minha vida.
As mãos, o corpo, o tato úmido
e o gosto de sal e areia a boca.
Quem sabe a veja esvoar bela, os cabelos negros
ornados em grinaldas de conchas,
iluminando a densa lua
a esguia silhueta.
Talvez a veja brincar junto a água
Prateada, urdindo o prisma a delicada luz
a atravessar-lhe a cortina delgada a veste.
Límpida, translúcida excelsa e pura.
Quente de desejo e mistério a seduzir-me,
o coração vivo a mim luminoso pulsa,
tomando-me de amalgama
o enlace em mim lança o mar e ao mar.
Sedento do arrastre, as ondas
furiosas em ordem a Talassa, tragam-me
ao fundo vertiginoso a voragem do mar,
as sedutoras imagens espectrais em corpo aquoso.
Violentas e intensas, engolem meu corpo em algaravia
perdendo-se ao açoite das águas pra não mais voltar.
Lançam-me perdido ao abissal, pra não mais voltar.
Então satisfeitas, acalmam-se as nuvens
abre-se o sol, serenam os ventos
e voltam as marolas lentas e tediosas
do enganoso estado calmo do mar
(P. S. Há um grande cansaço em explicar o mar. L.A.).
A máscara
Beberemos ao menos uma taça
E disfarçando a solene estranheza
Esconderei o ser
Onde não se possa tocar.
Diáfano engana a noite
A existência vazia
A flor da pele, o tenso linho
Amarga o vinho envenenando o poço.
Cai-lhe a mortalha sombria das dores
Secando das pétalas flores
As almas angustiadas
E os gritos internos dos loucos.
E não havendo bondade
frieza e ausência de tudo
descai a face, que mascara usas-te?
Que verdade escondeste?
Mostra-se verdadeiro o monstro, mais vivo que a vida!
...sorrateiro
...profano
...sombrio
...infame
Lança a face a luz, e logo recolhe.
Deslocamento onírico
De alma nua, largo a tudo
o que me prende as amarras do nomeável.
Em mim, sonhos leves, dependurados
no solar da existência acenam ao lírico ser.
No varal, luminosas vestes
Estendem meus tortos anjos
o pensamento em todo meu interior.
Esse cântaro a encher de oníricas imagens.
Santuário meu, e imaginário que me fala a alma.
Meu trampolim para o imponderável. Alegoria de mim
Corda que se rompe ao equilibrista o elo com a realidade.
Queda livre para fora da existência.
São veleiros lançados a alma.
Sopros num barquinho de pensamentos,
que movem-se ligeiros para além do cais,
e vão além da linha aparente do horizonte.
Lá onde descanso, longe do mecanismo vil
Lá, onde Fazem-se líquidas as fronteiras.
O avanço a dobra do universo, minha alucinação
meu silêncio, meus sonhos, meus anjos, meus demônios
Minha paz!
Haicai sombrio n°1
Cinco letras me resume
e a vida até tem ciúme
de não ser eterna como eu
Canção
Gentil dama...
se o silêncio cala
o formoso sopro divino
de teus lábios
o meu coração
angustiado
entristece
da ausência tua
temo pensar
que da tua alma
a ambrosia
vinda nas palavras
possa desaparecer
para sempre sem tocá-la
amo-te com a devoção
campônea
dos amores simples
e ingênuos
daqueles dardejados
pelo filho de Venus e marte
que causou-me esta dor...
Infeliz infeliz seta!
são dores d’amour que vão
eleva-se ao Eros
o beijo sagrado do espírito
no diminuto momento
alcanço por fim!
a encontrá-la, e dizê-la
Laura!
Comentários (3)
Cinco letras me resume e a vida até tem ciúme de não ser eterna como eu em HAICAI SOMBRIO N 1 Você escreve com propriedade e vocação parabéns
Obrigado aos poucos que leêm, por estar aqui!
lançe a face a luz, recolherá realidade
2007 contra regra "As aventuras de seu Euclides-Parafusos" .
Direção: Marcelo Roque.
2008 artesão oficina de arte pré-produção do longa "O Senhor do labirinto'' réplicas das obras de Arthur Bispo do Rosário.
Direção: Sérgio Mota.
2008 assistente de arte instalação Cenográfica ''Arthur Bispo do Rosário'' .
Direção de arte : Sérgio Silveira.
2008 assistente de arte ''As aventuras de seu Euclides-Chegança''.
2010 Curso de Xilogravura sob a Orientação do Artista Plástico Elias Santos em seu Projeto ''Gravuras de Inverno em Circuito'' Sociedade Semear.
2012 Elenco Manipulação Direta Boneco "As aventuras de Seu Euclides-Lambe Sujo e Caboclinhos''.
2013 Oficina de artes cênicas cenografia Sebrae.
Direção: Ronald Teixeira.
2013 Exposição Coletiva Salão dos Novos Galeria de arte J.Inácio.
2014 Cenotécnico Longa Metragem 'A pelada'' de Damien Chemin 2014.
2014 Assistente de Palhaço Retalhos Populares da Palhaça Carmela de Iris Fiorelli.
2014 Performer Projeto Palco Giratório (SESC) Grupo Performático e Intervenção Urbana Desvio Coletivo ''Cegos'' . Marcos Bulhões Marcos e Marcelo Denny
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