Lista de Poemas

Larga Narciso



Mirando o lume das águas do lago

vinha a mim em glória, o espelho.

Projetava-me em tudo, belo narciso

Ia a ponto de afogar a mim mesmo.

 
Um dia a olhar o horizonte do cabo

surpreendi-me a enxergar vesgo á linha.

Tudo tangia a um único ponto, a ponta do meu nariz.

Inclinado, pendente, atravessado.

 
Sabendo dos perigos do mal enxergar

e da vaidade que muito um poeta pode atormentar

Retornei aos versos que fizera no passado

 
O que era Narciso, antes a beleza da fonte

O que era oblíquo, antes a linha horizonte

O que era escrito, antes contemplação e espírito

 

 

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Misantropia


Ruina, ruína, você não vê? Nos ofuscantes olhos da noite, você não vê? Nos faróis...magros, magros...ossos descalcificados, magros, esquálidos. Esmagadura, ruína...Magros, ossos frágeis como... Frágeis como ossos de...Frágeis como...Frágeis porque são, nem poderiam deixar de ser! Esquálidos, vulneráveis como nós!!! Dente quebrando osso, dente quebrando dente, dente triturando osso, dente mastigando osso, osso mastigando língua, gente mastigando gente. Vagos no meio do trânsito, duas pernas e meia se somadas as que restavam, não mais que restos. Eram restos, menos da metade. Eram restos de pessoas...Farrapos, a pele? Apenas uma manta que recobria o osso, o osso nada mais! Ouço o som, o freio, o farol, a milha, a placa, o sinal...reta luz...restos de...Gente? Sim, gente! Restos de gente, de Farrapos de gente de osso de pele, de gente? Duas rodas faziam a cadeira girar, duas pernas geravam força para o movimento. Des-lo-ca-men-to, de gente, de ser, de espírito, de espírito, de ser, de gente, de alma? A alma? É gente? Dois mutilados no meio do trânsito trânsito-ri-a-men-te transitando no meio do transitório asfalto sobre o reflexo vermelho na fixa faixa amarela...sinal fechado. Gente passando, gente passando apressada, gente passando correndo na faixa, fixa faixa! Dois mutilados esmolando, esmerilhando o ser, ser? Não é...agora...não é...agora...quer...ser...já, não é, agora, apenas agora é, nas paralelas, nos paralelos...e... é, é , eram, eram transitórios entre as paralelas, entre os corredores...paralelos...simétricos, herméticos na vontade, herméticos, simétricos, simétrica linha, simétrico asfalto, simétrico movimento, simétrico no desejo simétrico, simétrico também eram os corpos mutilados, o da cadeira...cotó! A que empurrava a cadeira, cotó...na massa! Na massa de...gente? Frágil o osso na massa quase acéfala massa. Por fim! Sem fim...cotó! Cotó na massa, no corpo, na massa quase acéfala. Todos mutilados, dois mutilados, mutilados...mutilados em si! Mutilando-se todos os dias...todos mortos, vivos...mortos vivos, arrastam-se na vontade, arrastam-se...arrastando-se dia a dia...arrastando-se hora a hora, noite adentro , arrastando-se, arrastando-se, arrastando-se até a ? Na? Indiferença e Mortificação, vontade, desejo. Não sua vontade, não querer ser, ser, ser um ponto de interrogação vazio...nada! Tempo ! Ponto de interrogação sem? Ponto de exclamação! Haaaaaaaaaalívio! E agora? seguir na angústia da noite anterior? De hoje? Ponto de interrogação? O que houve, o que move, o que os movia? Vontade, vontade simétrica, desejos simétricos! O assombro, a angústia da noite anterior, a angústia da noite interior? Por fim, pôr fim ? Satisfeito...mais...satisfeito...mais...mais, por fim...mais....uma vez mais...mais...uma vez...mais, vazio! Ponto de exclamação...Ponto de interrogação!
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Ecos do sem corpo



De fato! Há mudança com a contingência das coisas.

Como poderia eu aprisionar o tempo

Ou determinar o ser de alguma forma, ou a forma de algum ser?

Se eu mesmo em minha instabilidade

Já não sou mais o que pensara antes.

 
Acordo e já não sou!

Nem corpo, nem mente.

Nada mais que a voz que fala em mim.

Que ecoa em mim, eco entre paredes.

Pensamentos presos em uma caixa de ossos.

Vão-se até sumir!

 
Então novamente vem o indizível

e reaparece do nada movido por não sei o que.

Tanta gente dentro da gente

No entanto estou só!

 
Vazio, oco, oco no cântaro

e a cinza fria que antes existira já não é!

É soprada para fresta do tempo,

esse espectro que inexiste,

O esquecimento. E a memória já não vem.

 
Tento retê-la, ancorá-la a imagem

como noção de existência.

Faço por medo de me perder.

Tenho um passado?

Quero existir, fixar a mim mesmo

mas existo antes, e já não sou.

 
Então...passo continuum!

E já fui engolido novamente

Já não sou, nem serei

Nem passado, nem passagem

Cronos a engolir, a me devorar.

 
As imagens que pincei?

Devoradas, perdidas!

Nada mais que estática e ausência.

 
Nisso a tentativa desesperada

de alcançar um horizonte cada vez mais distante

e a angustia a observar o absurdo de

cada construção humana. A mim, a todos!

 
Cada corpo, um emblema

cada gesto, um símbolo

cada pessoa multiplicada um hábito

cada simulacro um limite

 
cada caricatura uma intenção

cada persona, uma composição

cada retalho de gente uma incerteza.

E do desespero, cada espantalho que pensa ser.

 
Então...deslocado de alguma coisa

que penso me conter, e que a toda hora me ultrapassa

vejo que o corpo já não me suporta. Me subtraio ao averso.

 
Canta a ode na utopia do EU

e dança sob mim a múltipla existência

dança Dionísio sobre o túmulo do ocidente

dança como num louco bacanal

Me deseja sono, e diz...descansa em paz!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Alegoria marítima (da sessão dos fantasmas)



É noite! Espero tranquilizar-me de ti, e do tanto mirar o esteio doido do pensamento a flutuar incerto esse caixote de osso feito. Perturbou-se o meu ser o mal gênio interior, e me veio de assalto o sonho, qual salteadores na obscura ramada se perdem na escuridão. Não! Sobressaltei-me de pavor! A minha frente o imponderável a atormentar, a assombrar a madrugada. Vai o espirito congelado de horror...O grito. Não! E me responde ‒ Eis-me aqui! Nada me tem a alma ‒ digo intranquilo ao meu perplexo interior.

Então de onde vem? Nada mais me tem! ‒ Penso eu ‒ quando súbito a soleira estou novamente a mirar do pórtico as figuras selvagens, a fugirem e a me atravessar. São elas que deitam trincheiras impedindo-me o retorno, perdeu-se Orfeu no meio caminho. Ficai! Ecoava a voz. Ficai nas intensidades nossas, Ficai ao que enlouquece o que antes é lucido. E de demência e delírio a criar mundos neste caixote de osso e carne, estica-se qualquer linha horizontal a compor o azul...

...Nuvens, sois, vento e mar , albatrozes, mar e terra, delfins e outras vidas marinhas a orla do meu pensar estendem-se sob minha alegoria. Vem a mim a reflexão arrolando em pequenas ondas a beira mar. Os pensamentos a minha frente tomam forma nas espumas da praia, desmanchando-se rapidamente. Um delírio, fruto da imaginação, penso eu! Não é nada!

Nesse instante o lapso! A desgraça de Ulisses e a paixão que faz vítreo os olhos dos argonautas cegando-lhe a terra a vista, a rebentar a onda o inconsciente ao rochedo a bravia costa. Me diz a voz. Aos que ensurdecem ao canto uníssono, vai a deriva a porta no meio do mar, vai se afastando aberta melancólica e inalcançável a passagem. Restam-lhe apenas o rochedo e o continuum cântico da sereias.

Antes lutavam contra o açoite das ondas e a canção do mar, agora entregam-se mortificados. Não resistem, cansam-se fatigados e náufrago do corpo e alma, de mar e terra, de terra e mar, e se lançam as trevas abissais das águas, e corroem-se em saber impossível o retorno. Canta sua ode o condenado.

‒Entrega-me o que é de direito. Dá-me pelo menos o cadáver, e deixa-me os ossos para que possa enterrá-lo em terra, pois não vai este ao mundo dos espíritos, das águas ou do onírico. Não tome-me por completo! Devolve-me as águas meu corpo a praia, de volta a melancolia dos trópicos. Afoga-me de uma vez, e deixa que os que me esperam, possam deitar água e sal sobre mim.
 
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A nada palavra ao ser



Nada a dizer, nenhuma palavra

Nada relevante a dizer. Não fosse o fato

de que sofro do estômago,

enjôado, nauseado.

 
Nada mais, nenhuma palavra.

A não ser o fato de usarmos vendas,

apenas isso. O desprezo

a indiferença, a ausência.

Quem se importa? Nunca o ser?

 
Nada mais a dizer, há muito se foi a palavra.

Nada a dizer, tudo já foi dito, já não diz!

A não ser o fato de irmos a lugar nenhum.

A marcha veloz? O acelerado passo, o não lugar?

O desconhecido? O abismo!

 
A máquina, a guerra, a dor!

O dia seguinte, amanhã...haverá?

E depois...haverá o etéreo?

Ou este desabou a muito sobre nossas cabeças?

Nunca, nunca...haverá?

 
Ha algo errado, há algo!

Não se sabe se dentro o fora

No corpóreo o incorpóreo

No concreto o abstrato.

 
Se há de haver algo? Não sei... Haverá ?

Há algo de errado na face do tempo,

No espírito dos tempos. Do homem o engano,

o momento perdido na miragem,

e a ilusão das verdades eternas.

Velhas, senís, estáticas, imóveis!

 
Nunca a humanidade, nunca o ser?

A consciência um dia líquida

A consciência dissolvida nas consciências.

Não mais a reinvenção? Infeliz ser estático!

Ulisses desejando o horizonte.

 
Na memória nunca Dionísio, só a simetria.

A memória na memória, mimese como espelho da memória.

Perda dos sentidos na repetição

ausência de si, fragmento jamais recuperado.

Nunca mais encontrado. Jamais o ser!

 

 

 

 

 

👁️ 510

Aparição a beira mar (da sessão dos fantasmas)



Talvez vá a praia

Leve meu casaco

Sente a beira da areia

e imerso a escuridão alí fique.

 
Talvez vá. E escura a mirar o pélago

não saiba os limites entre mar e terra.

Apenas o uno a ligar o universo de estrelas

pontilhando de azul a escuridão, o sem fm.

 
Talvez sinta o gosto das gotículas da marola,

e o abraço do vento robusto grave a soprar

o som das incansáveis ondas arrolando sob si.

Inquietas, constantes, contínuas, tocando-me os pés cada vez mais.

 
Quem sabe a veja imergir das águas

em fanéia o único bem da minha vida.

As mãos, o corpo, o tato úmido

e o gosto de sal e areia a boca.

 
Quem sabe a veja esvoar bela, os cabelos negros

ornados em grinaldas de conchas,

iluminando a densa lua

a esguia silhueta.

 
Talvez a veja brincar junto a água

Prateada, urdindo o prisma a delicada luz

a atravessar-lhe a cortina delgada a veste.

Límpida, translúcida excelsa e pura.

 
Quente de desejo e mistério a seduzir-me,

o coração vivo a mim luminoso pulsa,

tomando-me de amalgama

o enlace em mim lança o mar e ao mar.

 
Sedento do arrastre, as ondas

furiosas em ordem a Talassa, tragam-me

ao fundo vertiginoso a voragem do mar,

as sedutoras imagens espectrais em corpo aquoso.

 
Violentas e intensas, engolem meu corpo em algaravia

perdendo-se ao açoite das águas pra não mais voltar.

Lançam-me perdido ao abissal, pra não mais voltar.

 
Então satisfeitas, acalmam-se as nuvens

abre-se o sol, serenam os ventos

e voltam as marolas lentas e tediosas

do enganoso estado calmo do mar   

 
(P. S. Há um grande cansaço em explicar o mar. L.A.).

 

 

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A máscara



Beberemos ao menos uma taça

E disfarçando a solene estranheza

Esconderei o ser

Onde não se possa tocar.

 
Diáfano engana a noite

A existência vazia

A flor da pele, o tenso linho

Amarga o vinho envenenando o poço.

 
Cai-lhe a mortalha sombria das dores

Secando das pétalas flores

As almas angustiadas

E os gritos internos dos loucos.

 
E não havendo bondade

frieza e ausência de tudo

descai a face, que mascara usas-te?

Que verdade escondeste?

 
Mostra-se verdadeiro o monstro, mais vivo que a vida!

...sorrateiro

...profano

...sombrio

...infame

Lança a face a luz, e logo recolhe.
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Deslocamento onírico



De alma nua, largo a tudo

o que me prende as amarras do nomeável.

Em mim, sonhos leves, dependurados

no solar da existência acenam ao lírico ser.

 
No varal, luminosas vestes

Estendem meus tortos anjos

o pensamento em todo meu interior.

Esse cântaro a encher de oníricas imagens.

 
Santuário meu, e imaginário que me fala a alma.

Meu trampolim para o imponderável. Alegoria de mim

Corda que se rompe ao equilibrista o elo com a realidade.

Queda livre para fora da existência.

 
São veleiros lançados a alma.

Sopros num barquinho de pensamentos,

que movem-se ligeiros para além do cais,

e vão além da linha aparente do horizonte.

 
Lá onde descanso, longe do mecanismo vil

Lá, onde Fazem-se líquidas as fronteiras.

O avanço a dobra do universo, minha alucinação

meu silêncio, meus sonhos, meus anjos, meus demônios

 
Minha paz!
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Haicai sombrio n°1





Cinco letras me resume

e a vida até tem ciúme

de não ser eterna como eu

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Canção



Gentil dama...
se o silêncio cala
o formoso sopro divino
de teus lábios
o meu coração
angustiado
entristece
da ausência tua

temo pensar
que da tua alma
a ambrosia
vinda nas palavras
possa desaparecer
para sempre sem tocá-la

amo-te com a devoção
campônea
dos amores simples
e ingênuos
daqueles dardejados
pelo filho de Venus e marte
que causou-me esta dor...
Infeliz infeliz seta!

são dores d’amour que vão
eleva-se ao Eros
o beijo sagrado do espírito
no diminuto momento 
alcanço por fim!
a encontrá-la, e dizê-la

Laura!
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Comentários (3)

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wilson1970
2020-03-16

Cinco letras me resume e a vida até tem ciúme de não ser eterna como eu em HAICAI SOMBRIO N 1 Você escreve com propriedade e vocação parabéns

faridi
2018-04-10

Obrigado aos poucos que leêm, por estar aqui!

namastibet
2018-04-10

lançe a face a luz, recolherá realidade