Lista de Poemas
Nódoa e nada
Dia de escola
Volto ao portão de casa,
para reencontrar a luz,
enquanto este ar, que ar,
põe-me a memória em
suspensão.
Já está,
encosto folha com folha.
Corro pois ouço trovões e,
mais uma vez,
apertam-me o casaco até ao
pescoço,
e eu seguro a lancheira
colada ao corpo.
Pronta ao portão da
escola,
sou a menina à espera
sem bola,
sem namorado.
Chão
Ultra eu
Você
instila anestésico.
E
eu aceito.
Na
saliva, nos lábios, na língua.
E
eu aceito.
Penetra meu pensamento
E esparrama-se ao redor das palavras.
Até que,
por nós,
eu conheço o fundo do poço.
Separo
em passivo e ativo,
em
chiado e discurso,
sorriso
e desdém
e fabrico bebida mais pura,
Supra ilusão,
ultra eu,
servida
em bandeja de prata
a
convidados ilustres.
Vetores
Vento frio puxe tudo mesmo
para baixo,
poeira dos escombros
feche-me os olhos,
continuarei seta a
percorrer o caminho estreito
sem olhar os grandes
buracos escavados,
linear, leve, aérea e
também interessada,
como se pela espinha um
fio
estivesse esticado, bem
teso,
ao lado de uma infinitude
de traços verticais
transparentes.
Nem o maior vão do mundo,
o horizonte,
conseguirá arrastar-me
tanto que
eu perca a capacidade de
desenhar curvas,
vetores obedientes a dois
eixos.
Elo
Laço que não alarga
elo de uma corrente,
que é feito desta alma
presente-ausente?
Sublimar?
É dia, é duro.
Dizer pouco,
os dentes cerrados.
Quantas vezes terei
tentado?
Quantas vezes dentes
cerrados?
Linha por linha
esmiuçar,
ler,
sublimar.
Linha após linha
alinha,
alinha, alinha…
Vento frio,
menos a luz do sol –
a mãe ri, já não
chora.
Crucifixo e labor.
Um rosário desfila.
Labor e cama.
Rosário desfiado.
A noite? É dura.
A vida é uma coisa ou duas
A vida é uma coisa ou
duas?
Ou trama complexa demais,
teia que se recompõe,
tecido de muitas estampas,
unidade:
a minha vida trançada à
sua, seja você quem for.
Ou retas que por acaso se
cruzam,
planos muito próximos,
pontos de profundidade
incomensurável,
porém ímpares neste
universo:
a minha e outra mais além.
Não preferir esta àquela
possibilidade.
Apenas perguntar como isto
funciona.
Afinal, o vento sopra por
isto.
Animais obedecem aos
delicados sinais.
Cada arbusto, toda a
floresta sabe de cor a canção.
Nós, nem o solfejo…
Forma
Estou a enamorar-me da forma que meu corpo tem.
Até aqui os acordos foram parcos, assim tenho sido.
Mas agora explico-o, explico-me..
Escolhi algumas palavras para nós.
- Eu? Não, eu não estou grávida, minha senhora!
Mas não eram essas as palavras que eu queria dizer!
Essas saíram entre risos, numa pronúncia apressada,
Com recurso a palmadinha no ombro e uma finta,
Mais um afago nas costas da testemunha amarela.
Arre!
Somos sérios?
Carne?
Osso?
Sozinha, ocorre-me que nunca tivesse acontecido.
É a falta de tato, de contenção que me constrange.
Apetecia-me era ser tratada por menina,
lady,
sweet.
Assim levar-me-iam pela mão:
ouvir, aquiescer e ir.
Tudo em nome da suave ternura não disfarçada.
Algumas fórmulas soam realmente bem,
meu bem.
Mas eu sou mãe, por vezes sou pai,
meu filho diz “Minha maluca”,
eu estendo as mãos, curvo-me.
Modulo a voz,
finalmente tudo cai em si,
caio em mim.
Se trouxesse para a rua um corpo maduro e enxuto,
maduro e de bronze, maduro sem minhas marcas,
diriam que já sou eu, menos desiludidos comigo?
Teria direito a outras falas e a outros gestos?
Em cada ombro, entretanto, dorme um sulco fino.
É um corpo que pende, chora e por isso dá-me paz.
Choro quase todos os dias, gotejando o que pesa.
A forma que este corpo tem cabe no abraço que chorar
suscita.
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Comentários (1)
UM NOTÁVEL TEXTO DE SUA AUTORIA BOA TARDE, BETINA Li seu texto “DIA DE ESCOLA” publicado no site “ESCRITAS.ORG” e gostei bastante de sua forma de se expressar. Você é uma pessoa que sabe o que, e do que está falando. E olhe que esta arte de fazer versos é competência para uns poucos privilegiados. Mesmo sendo agente literário, e prestando serviços para várias editoras, recentemente publiquei alguns de meus escritos em uma antologia produzida pela Editora Palavra é Arte. O sistema que eles utilizam para o edição de livros é algo inédito. Nós autores não gastamos nada com produção da obra. Os exemplares nos são disponibilizados no sistema de venda consignada. Isto quer dizer que se alguns exemplares não forem vendidos, podemos devolvê-los, e estes serão doados a bibliotecas públicas e presídios, inclusive das cidades onde moramos. Como gostei muito da forma como você escreve, pedi permissão à editora para convidar você e mais oito outros autores, para participarem de uma das próximas edições. Se um de seus objetivos quanto à Literatura é ter seus textos publicados em forma de livro impresso, acredito que esta seja uma boa oportunidade. Por isto peço permissão para que façam contato com você e lhe enviem o material referente à publicação. Espero que desta forma, eu esteja retribuindo a sua amizade. Se for dar resposta a esta minha mensagem, gostaria de pedir-lhe que, por gentileza, envie sua resposta para o meu e-mail pessoal que é este: agenteliterarioburnier57@yahoo.com Um abraço fraterno, Marc Burnier
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