Escritas

Forma

Betina

Estou a enamorar-me da forma que meu corpo tem.

Até aqui os acordos foram parcos, assim tenho sido.

Mas agora explico-o, explico-me..

Escolhi algumas palavras para nós.

- Eu? Não, eu não estou grávida, minha senhora!

Mas não eram essas as palavras que eu queria dizer!

Essas saíram entre risos, numa pronúncia apressada,

Com recurso a palmadinha no ombro e uma finta,

Mais um afago nas costas da testemunha amarela.

Arre!

Somos sérios? 

Carne?

Osso?

Sozinha, ocorre-me que nunca tivesse acontecido.

É a falta de tato, de contenção que me constrange.

Apetecia-me era ser tratada por menina,

lady,

sweet.

Assim levar-me-iam pela mão:

ouvir, aquiescer e ir.

Tudo em nome da suave ternura não disfarçada.

Algumas fórmulas soam realmente bem,

meu bem.

Mas eu sou mãe, por vezes sou pai,

meu filho diz “Minha maluca”, 

eu estendo as mãos, curvo-me.

Modulo a voz,finalmente tudo cai em si,

caio em mim.

Se trouxesse para a rua um corpo maduro e enxuto,

maduro e de bronze, maduro sem minhas marcas,

diriam que já sou eu, menos desiludidos comigo?

Teria direito a outras falas e a outros gestos?

Em cada ombro, entretanto, dorme um sulco fino.

É um corpo que pende, chora e por isso dá-me paz.

Choro quase todos os dias, gotejando o que pesa.

A forma que este corpo tem cabe no abraço que chorarsuscita.

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