Escritas

Lista de Poemas

Do poema em aguda trama

o poema
não é uma sala de palavras
é um roçado de verbos
em aguda lavra
o poema
não é espelho de poeta
antes é sombra e trilha
do que o tempo empresta
o poema,
sobretudo,
é um grito alinhavado
nas costuras do mundo
👁️ 2

Poema em solitária fala

o poema
é uma fresta
por onde, avulso,
intromete-se o poeta
dado assim ao verbo
às vezes, mesmo mudo
contrai a condição
de pretensa fala do tudo
o poema, entretanto,
é só um corrimão
onde o poeta sobe
escadas da solidão
as do sentir o mundo
e as de po-lo em ação
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Onírica constatação

deitado no espaço
o sonho incomoda
por tudo que do sono
não entorna

de pé, assim no tempo,
o sonho transgride
todas as inações
que o corpo admite

o sonho é um vendaval
da vida posta em riste
👁️ 4

Túpac Amaru em recado

Túpac Amaru
deixa-se intenso
no rumor que prolata
no zumbido dos ventos
nas curvas dos Andes
como um frugal invento
ressoa nos homens
as ranhuras do tempo
Túpac Amaru, já futuro,
assim derramado
é a história tecendo
todos seus bordados
👁️ 10

Do poema em contrato

afagando palavras
no dorso do verso
deixo-me estar
em grave manifesto
verbal e semântico
construo decretos
peças pactuadas
no vão do cérebro
o verbo em fuga
em passos inocentes
transita por mim
como baldia corrente
o poema surge na noite
tráfego de sonhos recorrentes
👁️ 3

Gestos em bailarina cena

a bailarina
navega o palco
como um mar privado
de todos os seus barcos
constrói ondas, tempestades
e voa como uma garça
inventando nuvens
pelas frestas da tarde
navegante de si
nesse largo alvoroço
inventa na ponta dos pés
as artimanhas do corpo
👁️ 4

Poema a Lia de Itamaracá

Lia de Itamaracá
é uma ciranda exata
das léguas da herança
derramadas da África
cooperativa humana
o povo dançante
é um imenso cordão
fincado no horizonte
Lia com sua régua
de bemóis alinhavados
é só a contramestra
da multidão nesse passo
👁️ 3

Dos cifrões em distopia

o capital
assanha a cena
a sanha, a sina
de cifrar a fome
nas esquinas
a fome assanha a seiva
humana sina
de cifrar a cidade
no vazio das tripas
o futuro assanha a sina
da verdadeira sanha
das humanas cifras
👁️ 2

Pequeno retrato em fluvial alcance

e o Sanhauá escondido
por trás desse casario
é como se fosse um laço
que prende nossos caminhos
inventando largas saudades
em todos nossos destinos

os coqueiros enlaçam
os restos de oração
como se os homens dissessem
no meio desses senões
os milhares de gritos
de que se dizem patrões

sentada pelas esquinas
a vida assim espreguiça
como se fora uma nave informe
pousada nas avenidas
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Humana gesta

esse terçar da natureza
de lutar em si inutilmente
como se não fora humana
sua condição de combatente

nas trincheiras de si mesma
armar-se intensa do recurso
de desarmar as armadilhas
que lhe jogam contra o futuro

forjar-se como assim outra
nas escaramuças da vida
e abraçar vindoura combatente
o universo construído nessa lida
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !