Lista de Poemas
Carta
Escrevo-te, mulher amiga
À sombra desta saudade vertical
aqui deitado em areias adormecidas
pela maré da lembrança…
cintilação do teu ser
onde, abandonado, me recrio,
homem incompleto que sou.
Escrevo-te, mulher amada
nesta busca constante
do principio do mundo
que transportas e guardas
no teu corpo, espaço sagrado,
mistério indecifrável
centelha que me deu vida
em silencio
Escrevo-te, mulher amante
nesta tentativa desesperada,
desesperante de manter
alento neste meu corpo…
cratera infindável e escura
onde o lume do desejo
jamais se cansa de imolar o sonho
corromper a palavra…
Escrevo-te , mulher
de um lugar qualquer da terra,
que somos e continuamos,
completamente só
apodrecendo lentamente ao sul
esperando sequioso o teu norte.
António Patrício pereira
Todas as coisas dizíveis
Nas tuas mãos magras
guardas a raiz de todas as coisas
dizíveis…
Mãos de renúncia,
mãos de tudo fazer, de nada querer.
Mãos de vontade indomável
de força incontrolável… mãos.
De trabalhos feitas.
De amores vincados na dobra dos dedos
Brandos segredos,
tão velhos como o mundo,
derramados no silêncio da noite.
Mãos!… As tuas.
António Patrício Pereira
Temor dos deuses
Os meus olhos
como dois náufragos,
cansados,
vão lendo o mover das águas
já sem olhar
Nos ossos sinto o gotejar da chuva
sobre as pedras da minha cidade…
Tudo é água e cinzento;
E os homens,
temerosos,
lamentam a vida num fio de voz
para não ofender os deuses.
António Patrício Pereira
Coisas de gatos
Ali estava ela, mais uma vez, muda nos gestos.
Não sei se contemplativa se letárgica…
Somente o abandono se manifestava nas horas,
lentamente…
Exílada ficava a cor que morrendo se perdia na imobilidade tardia.
No quintal dois pequenos gatos brincavam com o tempo
na tentativa vã de agarrar um momento de vida.
Um pássaro deu-lhes a fuga num sobressalto piado.
De tão suspensa entregava,
sem um lamento, a clepsidra à noite
que branda entrava pelos olhos dos corpos agitados;
num desespero de quem não quer perder a sombra,
efemeridade da matéria.
Dos pequenos gatos ficou a bailar na penumbra
o movimento de uma corrida feita rumor.
O que resta é o jardim, perdido nas trevas.
Agora era já a noite que impunha o seu querer
feito de todos os sobressaltos.
E a nós, barcaças de estreito calado,
restava-nos segurar, de órbitas secas,
a vida, por desepero mantida.
Amanhã voltarão os pequenos gatos…
para brincar ao futuro.
António Patrício Pereira
Todas as noites
À noite os homens
acendem a inquietação
no peito,
e esperam que o breu
amadureça claridade
para ganharem mais um tempo de
esperança.
António Patrício Pereira
Um dia chegarás
Um dia chegarás, sem tempo definido,
vestida de planícies,
cansada de ausências.
Nas mãos um punhado de palavras,
no peito as sementes d'um verbo
na voz tantas memórias, tanto chão...
Será na vida que rasgarás uma janela
passagem para a claridade d'um poema
feito de ternas paisagens,
tecidas em fina saudade.
António Patrício Pereira
Coisas sem importância III
Pensar dá trabalho. É uma canseira questionar os dias, os “quês” e os porquês.
Aceitar sem questionar é o mais fácil… Mas é também o mais triste.
Viver sem horizontes próprios, porque sim, de olhos fechados…
Viver com um cenário como horizonte é o mesmo que adiar a vida; vegetar.
António Patrício Pereira
Todas as noite
À noite os homens
acendem a inquietação
no peito,
e esperam que o breu
amadureça claridade
para ganharem mais um tempo de
esperança.
António P. Pereira
Coisas sem importância I
As memórias servem-me de almofada quando hoje penso futuros.
António Patrício Pereira
Navios perdidos
As saudades são navios perdidos
num mar de areia,
esquecidos de navegar,
à espera de um qualquer caís em pedra talhado.
Das outrora cores vivas,
resta-lhes o desbotado da imobilidade.
Da clara silhueta resta a memória
corroída pela ferrugem…
Faltam-lhe pedaços;
lapsos de tempo, esqueleto níveo à vista.
Resta-lhe, projectada na areia revolta,
fiapos de sombra;
estilhaços amargos de um pranto adiado…
De olhos abertos
só o absurdo disforme te fere as veias,
mas se cerrares as palpebras e olhares
verás a saudade por inteiro
a navegar no teu peito magro.
António P. Pereira
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Sou (ou tento ser), uma pessoa igual, e diferente, de todos os outros.
Na bagagem levo já amores (uns ganhos outros perdidos), dores (o quanto baste), e algumas, outras, lutas por começar.
Nasci… Tenho alguns anos de vida…
E ainda não morri!
É a vida!!!
E agora, se me permitem, vou continuar a respirar; que a viagem é longa e a vida muito curta para a completar.
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