Escritas

Biografia

Ádamis Oliveira, nascido em Campina Grande – PB, é poeta, ensaísta e pesquisador em Direito, Arte e Literatura junto à Universidade Estadual da Paraíba, onde conclui, atualmente, o curso de Bacharelado em Direito. Em 2017, compôs a presidência da Comissão de Educação do Parlamento Jovem Brasileiro.

Lista de Poemas

Total de poemas: 11 Página 1 de 2

Realidade

Um pedaço da cama está vazio,

Como a casa também ficou deserta

E no espaço sobrando da coberta

Só restou um perfume, um cheiro, um fio.

 

Numa noite abraçado ao travesseiro

Num momento feliz me vi sonhando

Ao sentir que eu estava te abraçando,

Entretanto, era um sonho passageiro!

 

Despertando (inda que mal acordado),

Me assustei ao te ver junto ao meu lado

E pensei que era um sonho novamente.

 

Fecho os olhos, pensando ter dormido,

De repente, uma voz em meu ouvido:

- Pra quê sonhos, se estou na tua frente?
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Estrela-do-Mar (A Estrela e o Poeta)

Quando a vejo, em silêncio eu imagino

(Sem perder o prazer de ouvi-la e vê-la)

Que tu deves ser bem uma Estrela,

Que brilhar sempre foi o teu destino.

 

Já o meu… deve ser o meu destino

Ter achado, uma vez, uma Estrela

Que procuro no céu, sem poder vê-la,

Mas nos versos que faço eu imagino.

 

Pra quê céu, quando encontro no meu verso

A Estrela mais linda do universo,

Que pra sempre em meus versos vai brilhar?

 

Se preciso, eu escrevo um oceano

Num azul de safira, um azul ciano,

E te encontro, minha Estrela-do-Mar!
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Gosto tudo que seja à meia-luz

Gosto tudo que seja à meia-luz.

Os cafés, os hotéis, a terapia.

Tudo o que deixa fora a luz do dia

Quase sempre pra dentro me conduz.

 

Que o escuro, enfim, pra mim traduz

Uma forma que a vida e o seu mistério

(Por alguma razão, algum critério)

Decidiu preservar longe da luz.

 

Meia-luz, gosto assim, pois lá é onde

Um alguém uma coisa sempre esconde

Sem querer, realmente, escondê-la

 

Feito o céu, quando é noite e eu procuro

(Mesmo as trevas deixando tudo escuro)

O sorriso que está n’alguma estrela!
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Prometi um soneto

Prometi e não fiz o que eu prometo. 

Mas não fiz por faltar merecimento. 

Eu não fiz por faltar o sentimento

 Que preciso pra fazer um soneto. 

 

Que é inútil, é banal, obsoleto 

Um soneto sem sonho e sem amor. 

É morder uma fruta sem sabor

 Escrever sem amor no meu soneto.

 

 Sem amor e sem sonho fui em frente. 

À poesia fiquei indiferente 

E poeta deixei de ser, talvez. 

 

Mas seguindo o meu rumo tão tristonho 

Encontrei os teus olhos no meu sonho 

E a poesia nasceu mais uma vez.
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O cantinho

Bem cedo as mesas estavam vazias,

Senão nossa mesa escondida num canto,

Fugindo do pranto, do medo, do espanto

Que às vezes sufocam a nossa alegria.

 

Do mundo tristonho eu já me esquecia,

Pensando que o mundo era aquele recanto

Que a gente se olhava, se dava e sorria

Durante um instante, um instante tão santo.

 

Voltamos pra casa sozinhos na rua,

A rua vazia, os olhos na Lua

E o céu de estrelas de plano de fundo.

 

O mundo outra vez nos fazia sozinhos...

Quem dera existisse outros dez mil cantinhos

Que a gente ficasse e esquecesse do mundo.
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Onde estão as estrelas?

“Onde estão as estrelas?” perguntava

Procurando as estrelas pelo céu,

Que – talvez – decidiu lhes pôr um véu,

Pois nem uma, sequer, eu encontrava...

 

Incessante, porém, as procurava

E encontrá-las tornou-se a minha meta,

Pois o céu que não tem nenhuma estrela

É uma folha sem versos de um poeta.

 

Desisti e senti-me derrotado.

As estrelas o céu tinha apagado

Ou alguém as levou, sem devolvê-las.

 

Mas olhei nos teus olhos e sorri

E do céu, nesse instante, me esqueci!

Descobri onde estavam as estrelas.
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Prisão em Flagrante

É dever de qualquer um cidadão,

No processo penal está constante

O poder de dar a voz de prisão

Ao agente em delito flagrante.

 

É preciso dizer no mesmo instante

(E ainda que seja faculdade)

É plausível dizer à meliante

Na ausência de uma autoridade.

 

Por saber do dever e do direito,

E em saber o que sinto no meu peito,

Eu lhe digo “Está presa” e o porquê:

 

- Você veio e logo que foi chegando

Me abraçou e no abraço foi matando

A saudade que eu tinha de você!
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Jardim de Amores

Se de amores vivi, não sei dizer.

Não se pode viver só de amores.

Até mesmo um jardim, cheio de flores,

Tem botões que jamais vão florescer.

 

Uma vez eu amei, mas sem dizer.

Nesse amor, senti as primeiras dores,

Que é um erro amar e esconder,

Desenhando – sozinho – as próprias cores.

 

Noutra vez que amei, fiz diferente.

Fui ingênuo, sincero, transparente,

Mas as flores também esmoreceram. 

 

Inda assim, essas flores que murcharam

Foram boas também, pois me ensinaram

A cuidar das outras que floresceram.
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Do que a gente disse um dia

Não importa que as coisas tenham sido

Diferentes de tudo que pensamos,

Nem que tudo que um dia nós pensamos

Diferente de tudo tenha sido!

 

Se o caminho (agora repartido)

Já não é mais o que nos encontramos,

Se os teus passos pra longe tenham ido

E se nem mais os olhos esbarramos...

 

O que importa é que mesmo sendo assim,

Inda guardo você dentro de mim,

E guardá-la me traz sempre alegria.

 

Que apesar de ser tudo diferente,

Que mal faz amanhã lembrar da gente

E sorrir do que a gente disse um dia?
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Pedido de Arquivamento de Processo

Excelência, eu não quero ser pedinte,

Nem vos peço que seja generosa,

Mas, em nome do meu constituinte,

De uma forma cortês e respeitosa,

 

Venho aqui oferecer a renúncia,

O descarte, o abandono, a retirada

Desta terna e tão singular denúncia

Que – nos autos – se encontra registrada.

 

Jamais quis abrir mão deste processo,

Mas arquive-o! É isso que vos peço.

Já não há condições para esta ação...

 

“Coração” não provém sua tutela;

Meu cliente também roubou o dela;

Já não sei mais dizer quem é o ladrão!



*Numa ida à Cantina de Seu Jadir e Dona Lena, na Faculdade de Direito de Campina Grande (CCJ – UEPB), me deparei com um amigo concentrado na escrita de alguma coisa. Me aproximei e perguntei do que se tratava. Narrou estar escrevendo uma ação penal com o intento de denunciar uma cidadã que, segundo ele, o havia sequestrado lhe fazendo refém do brilho dos seus olhos. Não fosse o bastante, disse ainda que a moça lhe roubou violentamente o coração. Achando o texto interessante, pedi para atuar no caso como “advogado”, pleito concedido pelo amigo que verbalmente firmou nossa procuração. Na mesma noite, ao sair da faculdade, vejo nos bancos debaixo dos ipês do CCJ a vítima e a ré pactuando um perdão tácito lançando cada um os seus braços nos abraços do outro. Assim sendo, achei por bem peticionar o eminente arquivamento do processo.
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