Mário António

Mário António

1934–1989 · viveu 54 anos AO AO

Mário António é um nome associado à poesia portuguesa, com uma obra marcada por uma profunda reflexão sobre a condição humana e a efemeridade do tempo. A sua escrita, embora por vezes densa e alusiva, revela uma busca constante por sentido e pela beleza na linguagem. A sua contribuição literária insere-se num contexto de renovação poética, onde a exploração formal se alia a um lirismo contido, mas penetrante.

n. 1934-04-05, Maquela do Zombo · m. 1989-02-07, Lisboa

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Sob as acácias floridas

Com Novembro a chiar nestas cigarras
as acácias sangrando suas flores
e um sol afirmativo num céu alto

Espero a tua carta e a minha vida

Uma pausa do tempo em minhas mãos
preenchida
pela contagem das horas
nas cigarras e pétalas caídas.

2

A rua corre larga e sossegada
É a hora de tu vires!
Tu vens (eu sei) na moldura vesperal
com esta luz do passado nas paredes
e este céu de altocúmulos de Dezembro.

Com os estames d'acácia
jogo a vida nas sortes infantis
«Antera cai? Não cai? Ela virá? Não vem?»
E a cada sorte recuso a evidência
«Ela virá? Não vem?»
É a hora de chegares!

3

Os aros dos meus óculos te emolduram
ó Vénus de cabelos desfrizados!
Enquanto as minhas mãos, cegas, procuram
o cofre dos teus seis apertados.

Construímos assim a primavera
- a negada primavera dos amores:
Pega uma flor d'acácia para a pores
no meu cabelo indómito de fera.

Repara e vê a doce realidade:
os nossos jogos simples e ingénuos!
Esta soalheira vespertina hoje é-nos
bela imagem da nossa felicidade.

4

Cigarreio sem sol neste Dezembro.
E um céu da cor da angústia que me dá
a tua ausência em carne e em pensamento.

Magoa-me o teu rosto que não lembro
e o tau vestido branco táfetá
que voava batido pelo vento.

Se esta vida tão clara e simples fosse
como a imagem fixada desse instante
nenhum mal me faria esta chuva precoce.

Chuva, mãe dos poetas, minha amante,
lava às acácias o sanguíneo canto,
cala a voz das cigarras e o meu pranto!
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Biografia

Identificação e contexto básico

O poeta Mário António, nome associado à literatura de expressão portuguesa, desenvolveu a sua obra num período de efervescência cultural e artística. A sua nacionalidade e a língua em que escreveu foram fundamentais para a moldagem do seu discurso poético.

Infância e formação

Detalles sobre a infância e formação de Mário António não são amplamente divulgados, mas é possível inferir que a sua sensibilidade literária foi cultivada através de leituras e de um contacto com o ambiente cultural da sua época. A educação formal e o autodidatismo terão desempenhado papéis complementares no seu desenvolvimento intelectual e estético.

Percurso literário

O percurso literário de Mário António é caracterizado pela publicação de obras poéticas que refletem uma evolução estilística e temática ao longo do tempo. Embora detalhes sobre o início da sua escrita e colaborações específicas sejam escassos, a sua obra consolidou-se como um marco na poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Mário António distingue-se por uma linguagem cuidada e uma abordagem introspectiva a temas como a existência, a memória e a passagem do tempo. O seu estilo poético é frequentemente marcado por uma musicalidade subtil e por um uso expressivo de metáforas, explorando a densidade imagética e o lirismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mário António viveu e produziu a sua obra num contexto cultural e histórico específico, cujos reflexos podem ser observados nas suas preocupações temáticas e estilísticas. A sua poesia dialoga, de forma implícita ou explícita, com os movimentos literários e as correntes de pensamento da sua geração, refletindo as tensões e as especificidades do seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações sobre a vida pessoal de Mário António são limitadas, focando-se a sua memória principalmente na sua produção literária. A sua dedicação à poesia sugere uma personalidade introspectiva e uma profunda ligação ao universo das letras.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Mário António, embora possa não ter alcançado a notoriedade massiva de outros contemporâneos, assenta na qualidade e profundidade da sua poesia. A sua receção crítica valoriza a originalidade do seu discurso e a sua capacidade de evocar sensações e reflexões complexas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O legado poético de Mário António reside na sua contribuição para a renovação da poesia portuguesa, influenciando, de forma subtil, gerações posteriores de escritores. A sua obra continua a ser estudada e apreciada pela sua singularidade e pela sua capacidade de transcender o tempo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A análise crítica da obra de Mário António revela uma poesia que convida à reflexão sobre a condição humana, a fugacidade da vida e a busca por um sentido último. A complexidade da sua linguagem e a riqueza das suas imagens abrem espaço a diversas interpretações.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da vida e obra de Mário António, como hábitos de escrita ou episódios marcantes, contribuem para um retrato mais completo do autor, enriquecendo a compreensão da sua poética e da sua personalidade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória A memória de Mário António perdura através da sua obra poética. As circunstâncias da sua morte, assim como eventuais publicações póstumas, ajudam a compor o seu perfil e a manter viva a sua presença no panorama literário.

Poemas

4

Sob as acácias floridas

Com Novembro a chiar nestas cigarras
as acácias sangrando suas flores
e um sol afirmativo num céu alto

Espero a tua carta e a minha vida

Uma pausa do tempo em minhas mãos
preenchida
pela contagem das horas
nas cigarras e pétalas caídas.

2

A rua corre larga e sossegada
É a hora de tu vires!
Tu vens (eu sei) na moldura vesperal
com esta luz do passado nas paredes
e este céu de altocúmulos de Dezembro.

Com os estames d'acácia
jogo a vida nas sortes infantis
«Antera cai? Não cai? Ela virá? Não vem?»
E a cada sorte recuso a evidência
«Ela virá? Não vem?»
É a hora de chegares!

3

Os aros dos meus óculos te emolduram
ó Vénus de cabelos desfrizados!
Enquanto as minhas mãos, cegas, procuram
o cofre dos teus seis apertados.

Construímos assim a primavera
- a negada primavera dos amores:
Pega uma flor d'acácia para a pores
no meu cabelo indómito de fera.

Repara e vê a doce realidade:
os nossos jogos simples e ingénuos!
Esta soalheira vespertina hoje é-nos
bela imagem da nossa felicidade.

4

Cigarreio sem sol neste Dezembro.
E um céu da cor da angústia que me dá
a tua ausência em carne e em pensamento.

Magoa-me o teu rosto que não lembro
e o tau vestido branco táfetá
que voava batido pelo vento.

Se esta vida tão clara e simples fosse
como a imagem fixada desse instante
nenhum mal me faria esta chuva precoce.

Chuva, mãe dos poetas, minha amante,
lava às acácias o sanguíneo canto,
cala a voz das cigarras e o meu pranto!
1 933

Uma negra convertida

Minha avó negra, de panos escuros,
da cor do carvão...
Minha avó negra de panos escuros
que nunca mais deixou...

Andas de luto,
toda és tristeza...
Heroína de ideias,
rompeste com a velha tradição
dos cazumbis, dos quimbandas...

Não xinguilas, no obito.
Tuas mãos de dedos encarquilhados,
tuas mãos calosas da enxada,
tuas mãos que preparam mimos da Nossa Terra,
quitabas e quifufutilas - ,
tuas mãos, ora tranquilas,
desfilam as contas gastas de um rosário já velho...

Teus olhos perderam o brilho;
e da tua mocidade
só te ficou a saudade
e um colar de missangas...

Avózinha,
as vezes, ouço vozes que te segredam
saudades da tua velha sanzala,
da cubata onde nasceste,
das algazarras dos óbitos,
das tentadoras mentiras do quimbanda,
dos sonhos de alambamento
que supunhas merecer...
E penso que... se pudesses,
talvez revivesses
as velhas tradições!
1 262

Rua de Maianga

Rua da Maianga
que traz o nome de um qualquer missionário
mas para nos somente
a rua da Maianga

Rua da Maianga ás duas horas da tarde
lembrança das minhas idas para a escola
e depois para o liceu
Rua da Maianga dos meus surdos rancores
que sentiste os meus passos alterados
e os ardores da minha mocidade
e a ânsia dos meus choros desabalados!

Rua da Maiaga ás seis horas e meia
apito do comboio estremecendo os muros
Rua antiga de pedra incerta
que feriu meus pezitos de criança
e onde depois o alcatrão veio lembrar
velocidades aos carros
e foi luto na minha infãncia passada!

(Nene foi levado pró hospital
meus olhos encontraram Nene morto
meu companheiro de infância de olhos vivos
seu corpo morto numa pedra fria!)

Rua da Maianga a qualquer hora do dia
as mesmas caras nos muros
(As caras da minha infância
nos muros inacabados!)
as mocas nas janelas fingindo costurar
a velha gorda faladeira
e a pequena moeda na mão do menino
e a goiaba chamando dos cestos
á porta das casas!
(Tão parecido comigo esse menino!)

Rua da Maianga a qualquer hora
o liso alcatrão e as suas casas
as eternas mocas de muro
Rua da Maianga me lembrando
meu passado inutilmente belo
inutilmente cheio de saudade!
1 798

Poema

Quando li Jubiabá
me cri Antônio Balduíno.
Meu Primo, que nunca o leu
ficou Zeca Camarão.

Eh Zeca!

Vamos os dois numa chunga
Vamos farrar toda a noite
Vamos levar duas moças
para a praia da Rotunda!
Zeca me ensina o caminho:
Sou Antônio Balduíno.

E fomos farrar por aí,
Camarão na minha frente,
Nem verdiano se mete:
Na frente Zé Camarão,
Balduíno vai no trás.

Que moça levou meu primo!
Vai remexendo no samba
que nem a negra Rosenda;
Eu praqui olhando só!

Que moça que ele levou!
Cabrita que vira os olhos.
Meu Primo, rei do musseque:
Eu praqui olhando só!

Meu primo tá segredando:
Nossa Senhora da Ilha
ou que outra feiticeira?
A moça o acompanhando.

Zé Camarão a levou:
E eu para aqui a secar.
Eu eu para aqui a secar.

1 444

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Comentários (2)

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Carlos Sérgio Monteiro Ferreira
Carlos Sérgio Monteiro Ferreira

A foto não é de Mário António.

Francisco Soares
Francisco Soares

Amigos, esse rosto não é o do Mário António