Lista de Poemas

A Seco

Tem coisas que a gente só diz de porre,
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez,
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose afetiva.


In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
1 188

Visão Arquitetônica

A cidade tende a ser
um longo corredor central
entre edifícios
e pelo constante exercício
o nosso visual
vai se tornando cada vez mais vertical.
Dentro deste espaço diminuto
enquadramos parte do azul do céu
como um dos últimos redutos.
Isso quando por cima de nossas cabeças
não desaba um cinzento viaduto.


In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
996

Diferença (Ciclo Infantil)

Meu mundo é violento e com razão:
na rua se eu apanho, é covardia,
em casa se eu apanho, é educação.


In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
944

Feitos um para o Outro

"Ele fala de cianureto
e ela sonha com formicida
vão viver sob o mesmo teto
até que alguém decida"
(Chico Buarque de Hollanda)

Você quebra a mobília
eu desconto na filha...
E entre talhos e cortes
praticamos o esporte
de apostar, a vintém,
quem, dos dois, mata quem...


In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
793

Pena de Morte

Eram bastantes bons
aqueles tempos de ódio,
em que planejávamos nossos assassinatos,
pelo simples prazer de nos vingarmos:
eu te via com os dedos na tomada,
tu me vias sufocada pelo gás.
Tempos em que sorrias ao atravessar a rua,
e eu achava graça em ser atropelada;
tempos em que queríamos fazer um filho
para espancarmos juntos,
nos dias de ócio;
em que eu te servia de escarradeira,
em vez de cozinheira e passadeira.
Depois, veio o Amor,
que é como um lenço em que se assoa,
ou mãe que chicoteia e nos perdoa.
Hoje afago-te as corcovas
e lustro-te as botas novas.


In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
974

Sempre, de vez em quando

Toda vez que amanheço
de porre, sem ter bebido,
é prenuncio de tempestades.
Os calos não doem
com a mudança do tempo,
mas meu coração dispara
e o olfato fica mais aguçado
que faro de perdigueiro.
Nestas horas,
não adianta ninguém me dizer
que "viver é experimentar",
porque o máximo que eu consigo
é avaliar as avarias
causadas pelos arpões.

904

A seco

Tem coisas que a gente só diz de porre
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.

Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez
responsáveis por tamanha estupidez.

E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose... afetiva.

1 042

Engorda

Ilusões para os aflitos
para a mulher, segurança,
para a casa, samambaias;
consolo para os doentes,
conselhos aos desgarrados,
aos leitos de amor, cambraias.
Sorvete para as crianças,
esmolas para os famintos,
para os turistas as praias;
para os homens, futebol,
televisão para todos
e alface para as cobaias.

973

Tentativa de suicídio

Foi ao toalete
e cortou os sonhos,
a gilete.

1 106

Ilusão (segunda)

Igual a todas
desejou ser única,
contou-me histórias, casos de seus casos,
falou de medos, de loucuras, sustos
e de um futuro que seria nosso.
Como as demais e tantas e diversas
fez mil perguntas sobre o meu passado,
teve ciúmes,
me roçou de leve,
quis recuar, pensou melhor, agiu,
igual a todas
se deitou comigo, dormiu
com suas pernas entre meus joelhos
e sonhou ficar multiplicada
no meu quarto de espelhos.

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Identificação e contexto básico

Leila Mícollis foi uma poeta brasileira, reconhecida por sua voz singular e pela forma como abordou questões sociais e existenciais em sua obra. O contexto histórico em que viveu foi marcado por profundas transformações políticas e sociais no Brasil, influenciando sua visão de mundo e sua produção literária.

Infância e formação

Sua infância e formação foram cruciais para o desenvolvimento de sua consciência social e de seu olhar crítico sobre a realidade. As leituras e as vivências absorvidas na juventude certamente moldaram a artista e a mulher que se tornaria.

Percurso literário

O percurso literário de Leila Mícollis iniciou-se com a publicação de seus poemas, gradualmente consolidando sua presença no cenário poético. Sua obra evoluiu, refletindo amadurecimento temático e estilístico, e ela participou ativamente de antologias e de debates literários.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Leila Mícollis é notável pela exploração de temas como a condição feminina, as relações humanas, a crítica social e a política. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem incisiva, por vezes irônica, e por uma forte carga emotiva. A voz poética é frequentemente confessional e engajada, expressando uma perspectiva pessoal e universal sobre as dores e as alegrias da existência. Utiliza recursos como a metáfora e o ritmo para criar impacto e expressividade. Sua obra se insere em uma linha de poesia engajada, com forte conexão com as realidades sociais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Leila Mícollis esteve imersa no contexto cultural e histórico brasileiro, dialogando com as questões políticas e sociais de seu tempo. Sua obra reflete a efervescência cultural e os debates que marcaram as décadas em que viveu, estabelecendo um diálogo com outros escritores e movimentos de sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sua vida pessoal, incluindo suas relações e experiências, foi fundamental para a construção de sua obra. As vivências, as crises e as paixões pessoais transparecem em seus versos, conferindo autenticidade e profundidade à sua poesia. Sua atuação em movimentos sociais revela um forte senso de compromisso cívico.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Leila Mícollis conquistou um lugar de destaque na poesia brasileira, sendo reconhecida por sua originalidade e pela força de sua mensagem. A receção crítica de sua obra, tanto em vida quanto posteriormente, atesta a relevância de sua contribuição literária.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciada por correntes literárias e por outros poetas, Leila Mícollis, por sua vez, influenciou gerações posteriores de escritoras e poetas, especialmente no que tange à poesia com engajamento social e à representação da voz feminina.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Leila Mícollis é objeto de diversas interpretações críticas, que exploram suas camadas de significado, suas posições políticas e sua abordagem da condição humana em um contexto social específico.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos de sua personalidade ou episódios curiosos de sua trajetória podem enriquecer a compreensão de sua obra e de seu legado como poeta e ativista.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Após sua morte, a obra de Leila Mícollis permanece viva, sendo redescoberta e celebrada, perpetuando sua memória através da força de seus versos e do impacto de sua atuação.