Escritas

Lista de Poemas

Em Órbita

(Para o show de Tereza Tinoco)

Com você
quero todas as intimidades
de um amor escandalosamente carnudo,
sobretudo imperfeito,
que seja capaz de fazer
eles morderem a boca de despeito
e nós lambermos os beiços de prazer.
Com você
quero um amor que não precisem devassar
porque é claro e transparente;
daí ameaçar a tanta gente
pesada,
que não sabe flutuar
nem libertar-se da seriedade.
Com você
quero um amor tão à vontade
que muito mais leve que o ar
possa desafiar a lei da gravidade...


In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. São Paulo: Edicon, 1991. v.1, p.4
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Segredo (Série Infantil)

Os carros atropelam minha bola.
A empregada reclama do encerado.
Mamãe esconde sempre meus esqueites,
pois se eu caio
dou despesa e atrapalho
Os adultos
— cá pra nós —
só dão trabalho.

Ao Eloy


In: MÍCCOLIS, Leila. Em perfeito mau estado. Rio de Janeiro: Achiamé, 1987. p.6
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Visão Arquitetônica

A cidade tende a ser
um longo corredor central
entre edifícios
e pelo constante exercício
o nosso visual
vai se tornando cada vez mais vertical.
Dentro deste espaço diminuto
enquadramos parte do azul do céu
como um dos últimos redutos.
Isso quando por cima de nossas cabeças
não desaba um cinzento viaduto.


In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
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Janela Tridimensional

Quem é vivo sempre aparece;
mas dependendo do morto
ocorre o mesmo processo:
os poetas que eu mais amo
entram sempre em minha casa
pela porta dos seus versos.

Aos independentes ausentes: Torquato Neto, Henrique do
Valle, Violeta Formiga, Geraldo Alverga, Barrozo Filho,
Paulo Veras, Ana Cristina, Batista Jorge, Tony Pereira,
Touchê, Cleide Veronesi, Cacaso, Leminski, João Carneiro,
Severino do Ramo, Francisco Igreja.


In: MÍCCOLIS, Leila. Em perfeito mau estado. Rio de Janeiro: Achiamé, 1987. p.4
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Crescimento (Ciclo Infantil)

Hoje faço oito anos
e aproveito pra ser terrível,
enquanto posso matar pássaros
ou afogar gatinhos.
Depois vão proibir minhas maldades
e me restringir
aos filmes de guerra.


In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
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Tentativa de suicídio

Foi ao toalete
e cortou os sonhos,
a gilete.

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Sempre, de vez em quando

Toda vez que amanheço
de porre, sem ter bebido,
é prenuncio de tempestades.
Os calos não doem
com a mudança do tempo,
mas meu coração dispara
e o olfato fica mais aguçado
que faro de perdigueiro.
Nestas horas,
não adianta ninguém me dizer
que "viver é experimentar",
porque o máximo que eu consigo
é avaliar as avarias
causadas pelos arpões.

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Engorda

Ilusões para os aflitos
para a mulher, segurança,
para a casa, samambaias;
consolo para os doentes,
conselhos aos desgarrados,
aos leitos de amor, cambraias.
Sorvete para as crianças,
esmolas para os famintos,
para os turistas as praias;
para os homens, futebol,
televisão para todos
e alface para as cobaias.

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A seco

Tem coisas que a gente só diz de porre
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.

Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez
responsáveis por tamanha estupidez.

E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose... afetiva.

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Sem divã

Você fala bonito
sobre fases sexuais
– orais, anais, vaginais –
mas,
cadê que as faz?...

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