Lista de Poemas

Outro Lugar-Comum

Porque um grito não rompo da garganta,
Uma bola de som que me transporte,
Na ponta incandescente duma seta,
Onde o tempo não gaste nem a morte?
Matéria mal composta e decadente
A fugir de si própria envergonhada,
Personagem esquecida do papel,
Sobre as tábuas do palco assobiada.
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Epitáfio Para Luís de Camões

Que sabemos de ti, se só deixaste versos,
Que lembrança ficou no mundo que tiveste?
Do nascer ao morrer ganhaste os dias todos?
Ou perderam-te a vida os versos que fizeste?
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Lugar-Comum do Quadragenário

Quinze mil dias secos são passados,
Quinze mil ocasiões que se perderam,
Quinze mil sóis inúteis que nasceram,
Hora a hora contados
Neste solene, mas grotesco gesto
De dar corda a relógios inventados
Para buscar, nos anos que esqueceram,
A paciência de ir vivendo o resto.
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Vertigem

Não vai o pensamento aonde o corpo
Não vai. Emparedado entre penedos,
Até o próprio grito se contrai.
E se o eco arremeda uma resposta,
São coisas da montanha, são segredos
Guardados entre as patas duma aranha
Que tece a sua teia de miséria
Sobre a pedra suspensa da encosta.
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Jogo Das Forças

Resiste ainda a corda que se esgarça,
Rangendo entre os dois nós que a rematam:
Não fugiu dela a força que disfarça
Este romper de fibras que desatam.
Do nascimento e morte os pólos vejo
Na distorção que mostra a corda ferida,
Contraditório medo, que é desejo
De a conservar assim e ver partida.
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Passado, Presente, Futuro

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais,
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.
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Signo do Escorpião

Para ti, saberás, não há descanso,
A paz não é contigo nem fortuna:
O signo assim ordena.
Pagam-te os astros bem por essa guerra:
Por mais curta que a vida for contada,
Não a terás pequena.
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Ritual

Se é altar o poema, sacrifico.
Nesta pedra de lua que é o verso
O cutelo do vivo ganha fio.
Cá virei de joelhos. Não recuso
O veado do prado do meu sonho
Ao dardo violento que o alcança.
Sem a lenha grosseira não há fogo,
Embora as mãos da luz acabem sujas
Da cinza arrefecida das palavras.
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Dia Não

De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens simuladas
Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco seja rude
Como pedras calcinadas
Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas
De vergonha se recolha
Se as faces sentir molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas
E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah que saudades do sim
Nestas rimas desoladas
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Taxidermia, Ou Poeticamente Hipócrita

Posso falar de morte enquanto vivo?
Posso ganir de fome imaginada?
Posso lutar nos versos escondido?
Posso fingir de tudo, sendo nada?

Posso tirar verdades de mentiras.
Ou inundar de fontes um deserto?
Posso mudar de cordas e de liras,
E fazer de má noite sol aberto?

Se tudo a vãs palavras se reduz
E com elas me tapo a retirada,
Do poleiro da sombra nego a luz
Como a canção se nega embalsamada.

Olhos de vidro e asas prisioneiras,
Fiquei-me pelo gasto de palavras
Como rasto das coisas verdadeiras.
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Comentários (2)

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Bem meu caro José Saramago... se tu ainda estivesse em vida... conquistaria um novo mundo. meu caros amigos já tive o privilégio de ler uns dois livros deste grande escritor. são de um mundo fantástico. Braços a sua eternidade.

Meu caro é preciso sair do corpo em espirito e mente ; para nos vermos a nós mesmos. em corpo e alma a vagar pela mundo desconhecido.