João Marcio Furtado Costa

João Marcio Furtado Costa

João Marcio Furtado Costa é um poeta cuja obra se destaca pela sensibilidade lírica e pela exploração de temas universais como o amor, a passagem do tempo e a natureza. A sua poesia, muitas vezes marcada por uma linguagem depurada e por uma musicalidade intrínseca, convida à contemplação e à reflexão sobre a experiência humana. Através de uma voz poética que transita entre a intimidade e a universalidade, Furtado Costa constrói versos que tocam a alma do leitor, celebrando a beleza e a fragilidade da existência.

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Cromoterapia

Cromoterapia

(06/96)

Do vermelho, a mensagem: pare!
Puro paradoxo!
Me excita a boca sensual,
e sigo.

Do branco, as vestes da paz.
Pura coerência!
Mistura de todas as cores,
um dia...

Do rosa , fêz-se a Rosa.
Pura beleza!
Da cor, a flor. Minha irmã,
que adoro.

Do preto, diz-se ausência.
Puro preconceito!
Na noite se vive a vida,
marco presença.

Do verde, a essência: natureza.
Pura ecologia!
Matéria prima da preservação: o homem,
maduro.

Do amarelo, pinta-se o pálido.
Puro despeito!
Oriente, tua cabeça é guia,
e força.

Do azul, o céu, a glória.
Puro pleonasmo!
Teu nome reflete as estrelas,
Cruzeiro.

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Poemas

16

Bebida dos Deuses

Bebida dos Deuses

(12/94)
Como um bom vinho, elaborado, tu és muito especial,
Dia após dia, és natal,
E a cada noite és carnaval,
Pois basta um toque, e tu te inflamas.

Mas não és pra ser sorvida de uma só vez e se acabar,
Melhor em doses homeopáticas,
Onde podemos desprezar as táticas,
E sermos nós mesmos pra sonhar.

Não foi num cálice, que eu pensei furtivamente,
Em te derramar mais transparente,
Para melhor te brindar e degustar.

E tornar então, sem ser brando e indiferente,
Mais ávido o meu inconsciente,
Pra cada vez mais, querer te amar.

708

Reflexão

Reflexão

(03/96)
Não procuro consolo,
A inocência se foi,
Se não fomos um todo,
Nada fomos depois.

Mas eu busco o resgate,
Digo não à razão,
Se cresci no vazio,
Ainda tenho o meu chão.

Nesse resto de estrada,
Se é a paixão quem conduz,
Atravesso o túnel,
Ao encontro da luz.

Quero crer na verdade,
Ressuscito o meu fogo,
Se é fato, a vontade,
Venceremos o jogo.

Recomêço e respeito,
O início, principia do fim.
Se abrires teu peito,
Então serás meu jardim.

Se eu paro e espero,
Vou querer respirar,
Mas se sei o que quero,
Por que não te encontrar?

Rasgo o orgulho, proponho,
Viverás só pra mim!
Instância, és de sonho,
Quando dizes que sim.

Pois mais vale a acolhida,
Que forneces ao par,
E anuncias a vida,
Se puderes me amar.

832

Pai

Pai

(10/95)
Júnior, foste batizado
e tomaste, então, o cuidado
de saber que é responsabilidade,
o ônus que tal fato atrai.

Mas não te fizeste de rogado
e cobriste de honra o legado
soubeste conservar vitalidade,
no nome que herdaste de teu pai.

Estudando comandaste os laços
e escolheste teu mote: a ciência,
que tratando com respeito e veemência
fizeste dela a luz dos nossos passos.

És tão honesto, sensível, versátil,
bem humorado, tenaz e amigo.
Felicidade não é utopia, não é volátil,
pois ela existe se estivermos contigo.

810

Dois mil e BUM

Dois mil e BUM

(12/96)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Sei que foi fatalidade, mas perdeste a identidade,
Em dois dígitos já não cabes mais. És a mazela,
Que nos computadores, gerou calamidade provocando dores,
Que ninguém duvide, universais.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
Disseram que de mil tu passarias,
E que a dois mil não chegarias,
Mesmo se um por todos e todos por um.
Já houve quem pensasse, antever o apocalipse,
Consequência derradeira de um eclipse,
Ou suicídio coletivo, numa guerra mundial.
Porém, ninguém, por mais que fosse visionário,
Pensaria ser possível, resultar tal corolário,
Nem Nostradamus vislumbrou final igual.
Acabar-se na clandestinidade, morto-vivo, que infelicidade
nos bancos de dados institucionais.

722

Gênero

Gênero

(11/96)
Não importa se acham que é bom
e muito menos se pensam que é mau
o que interessa é só o tom
usado pra elevar o moral

Quem procura e acha, pensa
que o achado o salvará
mas não vê que a recompensa
está mesmo é no alvará

Não concebo o descaso e espero
que venha, dos Deuses, a cólera
e desabe por sobre a cabeça
dos homens que permitem o cólera

Ao se pesar o passado
não é necessário fazer drama
vê-se logo que não tem tanto peso
se comparado ao grama

Vestidos de determinadas damas
me fazem perder os sentidos
o corpo consome-se em chamas
mesmo se dorme, a libido

Sabe o que penso do gênero?
é fundamental, pois a mensagem
pode ter sentido efêmero
se não incorporar a personagem

678

Auto-Estima

Auto-Estima

(11/96)

Se não me perdôo,
por não ser perfeito,
não vou alçar vôo,
pode não ser direito

Se me cega, a miopia,
e a auto-crítica imputa,
de que vale, no peito,
bater "mea culpa"

Se pra todos entôo,
meu maior defeito,
pode ser de enjôo,
o derradeiro efeito

Se pra acertar o alvo,
é, me imposta, uma multa,
esperar ficar calvo,
é um preço que insulta

Se eu preciso paciência,
pra viver diferenças,
e o que sobra é carência,
paz encontro em minhas crenças

Mas no jogo da vida,
pra buscar o reverso,
e tê-la bem resolvida,
mais que apoio, é o verso

Que resgata da alma,
o que anima e ensina,
e regenera, na calma,
o vigor da auto-estima.

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