Escritas

Das viagens de dentro

Isabel Pires
Não sei se me parecem muitos ou poucos dias, aqueles que passaram desde que te disse que vou andando por aí ou por aqui,
e até te disse que podia ser de qualquer forma,
que afinal há só uma quando nos encontramos sempre,
mesmo que em qualquer ponto do invisível aos olhos.

Continua a parecer-me que a minha alma está sentada próximo do coração.
Pela agitação da bordadura de seda que a envolve,
agora até me tem parecido que ela está menos tempo sentada.
Corre mais vezes para o mar, é isso, à procura da tua alma, quando não a vejo.
(Lembras-te de ter perguntado por onde anda a tua alma, seguido do aviso para que não a deixasses cair?)
Às vezes, quando a solidão anda muito zangada
a ponto de enfiar a cara em todos os buracos e açambarcar os vazios de todos os silêncios,
mesmo dos bons,
ponho a alma no tal colchão feito de pétalas brancas
- se ainda existe? claro que sim! -
e deixo-a boiar até se dar a colisão
- e como o atropelamento (i)mortal faria aqui tanto sentido, já viste? e lembras-te? nem de propósito... - ,
numa qualquer vaga que tece o lindo lençol de seda
- a mesma textura da bordadura que envolve a alma, sentiste?-,
que chamei muito, e ainda chamo, de lindo lençol de seda negra por ser assim que o vi primeiro,
mas que descobri também saber erguer-se em branco-luz feito em desafio de velas.

Trocamos de caneta para pintar as folhas do navio que
leva e faz
histórias com tudo dentro,
que as histórias felizes também têm céu,
e os céus às vezes fazem birras, largam raios e até choram.
Tal e qual como dizem as tuas cúpulas. (Lindas! Sempre, mesmo as tristes.)
Exactamente como te disse naquele dia
em que te prometi sentir-te nas tuas coisas,
só porque são tuas,
e agora voltei a bordar nas velas.

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