Golgona Anghel

Golgona Anghel

n. 1979 RO RO

Golgona Anghel foi um poeta de vanguarda, cuja obra se caracterizou pela experimentação formal e pela exploração de temas existenciais e sociais. A sua poesia reflete um olhar crítico sobre a realidade, muitas vezes impregnado de ironia e de uma profunda sensibilidade. Fez parte de um movimento literário que procurava romper com as tradições estabelecidas, abrindo caminho para novas formas de expressão poética.

n. 1979-01-01, Roménia

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Encontrámos as partes

Encontrámos as partes,
mas ainda não o conjunto.
Falta-nos esta última força.
Falta-nos a esperança
como uma espuma branca que nos proteja e nos una.
Procuramos esse sustento salutar:
conviver,
perseguidos por uma espécie de incontinência verbal.

Na juventude, começámos com uma boneca de corda,
a que demos tudo o que tínhamos.
O fracasso estava, no entanto, treinado
para receber-nos, com luvas gigantes,
como se fôssemos bolas de basebol.
Continuamos calados. À procura. Com fome.
Não podemos fazer mais.
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Poemas

35

Aos Sábados repousava

Aos Sábados repousava:
instalava-me no lugar mais cómodo
da minha cultura ocidental,
de cachimbo num quadro de época,
e levantava com o olhar
as rolas passeabundas da marquise.

Nos intervalos,
cultivava em pequenos parágrafos,
ao lado de couves-flor à sombra dum ginjal,
a história universal
do jeito como andas pela sala,
Adélia, Rosa-Maria, Lulú,
toda feita de rendas, toda gazes e veludos,
toda cheia de recantos africanos,
penas e cheiros, paisagens com garrafas,
pretos e pelicanos,
savanas e leopardos, minas gerais,
anéis e diamantes,
casas de campo em Vigo, Barcelona, Abrantes,
toda feita contas em dólares nos bancos da Suíça,
vistos para Estados Unidos,
minha fufa, minha farofa com linguiça,
toda Armani,
toda Gucci,
toda despida nos filmes de Mizoguchi.
À mesma hora,
na sala de microfilmes da Torre do Tombo,
uma turma de dez alunos curiosos
desfia o pergaminho do meu cancioneiro pessoal
num aparato crítico fundamental:
Filho de mãe incógnita,
fruto de um amor irregular,
(toma nota e vê lá se aprendes):
Carlos Fradique Mendes.
588

Somos daqueles que limpam os ouvidos

Somos daqueles que limpam os ouvidos
com a chave do Mercedes
e fazem estalar os dedos,
às escuras, nas salas de cinema;
filhos das vindimas e da apanha da azeitona,
homens, quando a noite usa decote. 
Somos, hoje, a melhor geração
de cansados profissionais, os mais vendidos autores do acaso.
Treinamos predadores de moscas, 
limpamos passados, fígados gordos, rins cheios de diamantes. 
Temos as mãos trémulas, é certo, 
mas arrumamos, 
seguros, 
o dominó, no pátio do Alzheimer, 
pois é a nós que procura a seta. 
De maneira que não adianta muito termos pressa:
um dia, alguém chamará por nós
e nos marcará no peito
o número da sorte
com o ferro quente
com que se conta, 
na Primavera, 
o gado.
889

Antigamente os bisontes eram gente

Antigamente os bisontes eram gente
e namoravam as raparigas
mais bonitas da aldeia. 
Os judeus tinham cauda e
os homens menstruavam duas vezes por mês. 

Ninguém se queixava de nada.
Tudo tinha o seu lugar. 
Líamos Tolstoi num Skoda, 
Hölderlin num Trabant descapotável,
Joyce num Aston Martin,
Camões num UMM.

As grandes emoções
vinham de palavras longas:
australopitecos, jerusalamaleques,
extremaunçãoparaumapernadepau, etc. 
Isto explica tanta coisa, 
mas não vem nos livros de história. 
A história faz apenas ecoar o passado. 
Como um búzio.
O passado é o lugar onde os nossos ex
se juntam aos mamutes, à Céline Dion
e ao Windows XP.
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Devia escrever coisas mais divertidas

Devia escrever coisas mais divertidas,
entreter as massas. 
Evitar, ao menos, cenas tristes, 
mudar de roupa uma vez por mês. 
Podia, decerto, afastar-me, sair do corpo, 
dos seus humores. 
Entrar na biopolítica usar os seus métodos.
Engravidar uma ideia alegre. 
Enfim, nada contra os suicidas de carreira
e os demais performers do além. 
Não é que não me apeteça largar-te
num eléctrico sem travões. 
Deixar-te num país estrangeiro, 
sem dinheiro e sem memória.
Não se iludam, ainda sei baixar as calças. 
Fazer o truque. 
Mas se o meu psiquiatra ler este livro, 
vai achar que o tratamento
já não funciona.
1 062

Vivemos submersos num plasma nutritivo

Vivemos submersos num plasma nutritivo
que nos garante um crescimento rápido e de excepção
com talentos singulares, 
e sonhos que não precisam de ser actualizados - 
basta apenas afinar a sua desordem estética.

Temos aceso a uma vida desprovida de acasos, 
onde colónias de bactérias sangram invejosas,
esmagadas a milhas pela radiação do nosso olhar. 

Dotados de um sistema automático
de identificação e resolução de erros,
dirigimos à distância um código sentimental simplificado.
Acumulamos dados, analisamos sinais. 
Não conseguimos conceber um desastre maior
que a falta de bateria no comando.
1 072

Obras

3

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