Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

1917–2007 · viveu 90 anos BR BR

Gerardo Mello Mourão foi um poeta, jornalista e crítico literário brasileiro, figura proeminente da poesia do século XX. A sua obra é marcada por uma linguagem densa e uma profunda reflexão sobre a condição humana, o tempo e a memória. Com um estilo erudito e ao mesmo tempo acessível, Mello Mourão deixou um legado poético significativo, explorando temas universais com uma sensibilidade singular.

n. 1917-01-08, Ipueiras · m. 2007-03-09, Rio de Janeiro

52 008 Visualizações

Alexandre cavalga

Alexandre cavalga
e às vezes é
a bússola amorosa dos anjos
e ao aroma dos jasmineiros o aroma
da nuca de Carmen, do botão dos seios
de Margarida e de Francisca
e às vezes é a bússola do ódio
e dia e noite e noite e dia através
noites e dias
Alexandre cavalga:
e os cavalos cansados param mortos
e o coração cavalga a fúria
e seu rastro se chama vingança.

Vicente Lopes de Negreiros
a raça de André Vidal de Negreiros
matara de tocaia a Manuel, irmão de Alexandre Mourão
e à sombra de uma palmeira da Serra dos Cocos
tinha dezesseis anos
o corpo ensangüentado do adolescente moreno
era belo e terrível e seus olhos
vidrados
pediam vingança ao irmão.

Vicente de Negreiros, chamado Vicente da Caminhadeira
furou o mundo e Alexandre
Mourão no rastro dele
andou duas mil léguas e o Maranhão
e o Piauí e o Ceará e o Rio Grande e Pernambueo e a Paraíba
celebraraxn o tropel de seu cavalo
o furor de sua vendetta
e o trom de seu bacamarte de boca de sino
e os sinos dobraram por duzentos mortos
e os soldados de Xenofonte — Anábasis — não podiam dormir
por causa da tristeza e da saudade

"ouvindo o tiro, nós que estávamos na luta, corremos e achamos nosso irmão morto
e não pudemos mais dormir
ali o deixamos e
fizemos todas as diligências
e não foi possível achar mais o assassino
nesta mesma noite segui em procura
e depois de sete dias e sete noites de minuciosa diligência
informaram estaria sob a proteção do Tenente Coronel João da Costa Alecrim e do tio
Vigário Manuel Pacheco Pimentel, em Vila Nova
risquei o cavalo na porta do Vigário
e de sua alpendrada trinta e oito dias de viagem num cavalo bralhador
até Pedras de Fogo — extremas da Paraíba e Pernambuco
de lá noventa dias a cavalo ao Piauí
e em noventa noites o sertão
espreitado palmo a palmo conheceu
o ódio sábio e inútil de meus olhos:
terral, aracati, nordeste, graviúna, todos
os ventos do país dos Mourões a crina
de meu cavalo conheceu.

O Coronel Diogo Salles comprara um sítio para situar-se no Maranhão aonde se mudara
por certos desgostos:
Coronel Diogo, filho de meu parente Capitão Xavier, a
quem assisti em seus desgostos,
é possível esteja o inimigo em sua Fazenda do Serrote?
— Nem no Serrote do Piauí nem no Serrote do Ceará
e se acaso meu pai o acolheu
não o há de matar na rede de hóspede
mas vai pô-lo a caminho quando saiba
quem é Vicente da Caminhadeira.

— Não, meu parente, não se apeou à minha porta.
E na Fazenda Santa Cruz, a caminho de Quixeramobim,
dois de seus cabras se entregaram à morte de joelhos aos pés de minha
madrinha Francisca
e ela mandou espreitar a casa e as fazendas do Capitão-Mor Lessa
e em cinco dias e cinco noites de espreita — nada;
passei a Crateús e por suspeita
voltei ao Serrote do Capitão Salles
passei a noite ao pé da casa espreitando os movimentos dela
e entrei no alpendre com o primeiro sol
fui honrado pelo Capitão, comi sua coalhada, o requeijão e a tapioca
descansei em rede cheirando a capim santo
segurei-me com o velho ele não proteger Vicente Lopes
que enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele.

Talvez o bandido esteja na casa do sogro em Poço dAgua:
foram vinte e nove dias até Poço dAgua, Piauí,
com os cavalos, os vaqueiros e a matutageiú de meu irmão Eufrosino:
tomei o velho de improviso e nada achei
apertei-o pelo genro, descobriu que há seis dias
dali tinha partido a chamado do Alecrim
que saía tal dia de muda para Pedras de Fogo, Paraíba,
voltei, segui ao Alecrim

antes de chegar a Vila Nova soube que estava no Serrote do velho Salles
ali mesmo fui procurá-los
Vicente da Caminhadeira estava fora da casa invadida por minha fúria
o Coronel Alecrim escapou num paiol de algodão, onde perdeu o nariz que era suposto:
nada fiz e fico contando com mais dois inimigos fortes.

Voltei para Pitombeiras, fazenda de meu irmão Eufrosino, sete léguas,
ia despachar um positivo a Pedras de Fogo
chega uma carta de mulher, inimiga de Vicente Lopes:
— "quer notícias certas, me apareça — "
apareço
apresentou-se um homem
vinha de Nossa Senhora do Ó e dava certeza de estar Vicente Lopes
na Vila de Igarassu, Pernambuco
voltei, preparei-me e segui para Igarassu
pois enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele

E depois de duzentas e tantas léguas de viagem
cheguei a Nossa Senhora do Ó
tomei a casa de meu parente, Capitão André Cursino Cavalcanti
e aconselhou-me:
devia seguir para o Engenho Monjope, de nosso parente, Capitão-Mor João
Cavalcanti de Albuquerque
o senhor mais rico e forte daquelas terras
contei-lhe meu destino
não quis mais que eu saísse:
seus homens é que vão a Igarassu para a missão
e um dos meus para reconhecer:

Vicente Lopes estava tocando viola num forrobodó
— "é aquele":
os homens de meu parente dão duas voltas no salão e o tocador de viola cai
com o peito varado e a bala ainda traspassou o coração de uma rapariga da festa:

na sala grande do Engenho Monjope
o Capitão-Mor abriu a garrafa de vinho do Porto
bebemos em honra de meu defunto irmão
e a Sinhá acendeu no oratório uma vela
à sua alma desagravada.

"Capitão, antes de voltar, quero ir eu mesmo a Igarassu
enfiar o dedo e o cano de minha garrucha no buraco da bala de Vicente Lopes de
Negreiros"
chamou de novo os homens que juraram:
"vá em paz, meu parente, o morto é morto e se ressuscitar em qualquer parte,
de Pedras de Fogo para cá, terras de Pernambuco,
deixará de ser vivo:
vá em paz, os meus homens não mentem"

E depois de onze meses
considerei
descansar meu irmão na sepultura e minha
fadiga em minha casa:
meu pai deu provimento.

Naquele tempo
preparava Eufrosino uma cavalaria para Vila dos Brejos
e Antônio Mourão urna outra
para ir a Caxias, Maranhão:
lá podia comprar terras de uma herdeira de meu avô
anexas às de meu pai e eu podia
escolher um sítio e situar-me entre os irmãos.

Vicente Lopes havia passado a viola
e dançava na sala
o outro tocador morreu por ele
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer que soubesse dele,

Soube na Boa Esperança e não estava
soube em Uruburetama
meus homens andaram vinte e oito léguas desde Vila Nova
e meu pai recebeu uma carta:
"Menezes e Vicente da Caminhadeira tiveram notícia de que
Antônio e Alexandre Mourão
atravessaram o rio Parnaíba com trinta e um cabras armados, rumo a Poço dAgua"
mandei quatorze homens à Capela dos Humildes
um tiro empregou a bala na carne de meu ombro
a luta a ferro frio durou das três às seis da tarde
e o sangue dos irmãos e dos cabras de Vicente Lopes empapara o curral
e ele fugira
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer soubesse dele

nem o cadáver de seu irmão entre os garrotes assombrados e as varejeiras
lambendo sangue
valia o corpo airoso de Manuel
Segui para Capela, Residência, Pequizeiro e Boa Esperança
esquadrinhava sozinho as grotas da serra e um morador me advertiu a medo:
— "meu Senhor, não siga por este caminho, que os logares estão semeados de
Mourões"

e a semente do a
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Gerardo Mello Mourão foi um poeta, jornalista, tradutor e crítico literário brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro. Foi um intelectual engajado e um dos nomes importantes da poesia brasileira da segunda metade do século XX.

Infância e formação

Filho de famílias tradicionais, teve acesso a uma educação privilegiada. Desde cedo, demonstrou grande interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo influências da literatura clássica e moderna.

Percurso literário

O seu percurso literário iniciou-se formalmente com a publicação de seus primeiros poemas em jornais e revistas literárias. Ao longo da vida, publicou diversos livros de poesia, consolidando seu estilo e sua voz autoral. Atuou também como jornalista e crítico literário, participando ativamente do cenário cultural brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Mello Mourão caracterizam-se pela erudição, pela busca de precisão vocabular e por uma profunda reflexão sobre temas como o tempo, a memória, a morte e a condição humana. Utiliza recursos como a metáfora e a aliteração para criar um universo poético denso e evocativo. Seu estilo pode ser associado a uma corrente mais intelectualizada da poesia, mas sem perder a capacidade de comover o leitor.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mello Mourão viveu um período de efervescência cultural no Brasil, marcado por transformações sociais e políticas. Participou de debates intelectuais e literários de sua época, mantendo contato com outros escritores e artistas. Sua obra reflete, por vezes, as tensões e inquietações do Brasil do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Gerardo Mello Mourão manteve uma vida discreta, dedicada em grande parte aos seus estudos e à sua produção literária. Era conhecido por sua erudição e por seu rigor intelectual. Sua vida pessoal esteve intrinsecamente ligada à sua paixão pelas letras e pelo conhecimento.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não tenha alcançado a mesma popularidade de outros poetas de sua geração, Gerardo Mello Mourão sempre foi respeitado pela crítica e por um círculo de leitores mais atento à poesia de qualidade. Sua obra é considerada um importante acervo da poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra dialoga com a tradição da poesia brasileira e universal, com influências que vão de poetas clássicos a modernos. O legado de Mello Mourão reside na sua contribuição para a poesia brasileira com um estilo único e uma profundidade temática que continua a ressoar entre leitores e estudiosos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mello Mourão é frequentemente analisada pela sua complexidade formal e temática, explorando a fugacidade do tempo e a busca por sentido em um mundo em constante mudança. Sua poesia convida a uma leitura atenta e reflexiva.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos (Informação não disponível)

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Gerardo Mello Mourão faleceu no Rio de Janeiro, deixando um importante legado literário. Suas obras continuam a ser publicadas e estudadas, mantendo viva a sua memória e a relevância de sua poesia.

Poemas

47

E risco e arrisco as fronteiras

E risco e arrisco as fronteiras
East Side
West Side
por Lexington com seus caimãs e javalis
e entre as pombas trigueiras do país do sul
arrulha a noite do Harlem
e um saxofone de vestido verde
rebola as ancas saudosas
de Trinidad-Tobago
Calipso
and Calíope
e requebrando à morte — Dallas, Texas
sobre o seio de Helena
flutua ensangüentada a rosa de Aquileu:
— Alagoas!
Alagoas!
pelos Alleghanys pelos Apalaches
a caminho de ti me sepultei
no sepulcro das neves e das cataratas
pelos parques de Buffalo onde Marcuse a Tânatos
do tonel de Diógenes erguia
a cabeça elegíaca de onde
do meio de sua queda a catarata de meu pranto a Eros
voltava e remontava o penhasco
clamando entre os ciprestes
a viuvez das Musas.

E vêm chegando e vou me despedindo
em Nova York houve um cantor — good night
good night, sweet Prince, mad Prince:
Dylan Thomas morto e bêbado
suplica em minha cama os inocentes pés
para o rastro
de seu silêncio e sua lágrima:
em Nova York, Ezra, houve um cantor —
adeus, príncipe bêbado,
houve um cantor
e houve uma fêmea
e à espuma do Gênesis
descobriu entre as coxas surpresas
a ressurreição da rosa
alegrada ao tato
à mão à seta à flauta de ouro
— "good morning, darling" —
e vou ressuscitando rosas mortas
e vou me despedindo
e a noite às vezes tem a redondez de um seio
pois chegavam de Aruba e da Jamaica e ali
o travesti francês arrisca as açucenas
seu passo galgo esgalga a tarde
e vou me despedindo
e as clarinetes memoráveis
orvalham a memória — e vou me despedindo — e rosto
e mão vou modelando:
sou o senhor e o sabedor dos gestos
criei meu próprio rosto
e minha própria voz
e por isso me olham e me escutam
e gerânio o cavalo a rapariga
e quebra Apolo a flecha à porta da cabana

Boa noite, Melpômene, Calíope
boa noite
Eleuth
eros
eria.

921

No caminho de Aretusa

No caminho de Aretusa
Hellas
elas
me iniciaram na língua e no alfabeto da língua:
sabem agora os engenheiros e os empreiteiros:
fui eu o ausente na torre de Babel
guardo a letra o dissílabo o fonema
e as chaves da sintaxe:
— enquanto
os povos se desentendiam em torno
da areia e da argamassa
e esqueciam o verbo e o advérbio
nosotros recusamos
a vã alvenaria
ficamos de serviço, Efraín, com as nove meninas
trabalhando na boca as promessas de amor
em que sois mestre, Apolo:
na sesmaria de violetas e girassóis por onde
o ditongo maiêutico e a vogal eólia
nominam nome e nume
a Euterpe e às outras
ao gavião e à pomba e à brisa
e ao pêssego e à mulher
e ao arco à flecha ao trigo ao vinho à abelha à fava ao favo
e Artemis e Afrodite
e Eleu
theria.

Quem se esqueceu pode lembrar-se
e a semente da letra em sua leiva Linos
faz florescer em Lambda e lírio
— "Do you speak english"?
— "No, darling",
não estive na torre de Babel
lambda loquor et lillia convallium
e entendo a água o ar o fogo o azul
e Lúcia e Laura e Léa
e Luciléa e Lauriléa
e Lucilauriléa
e os cavalos e as éguas relinchando
na madrugada de Pajeú das Flores
e o motim de amor
dos gatos no telhado de Iolanda

Não estive em Babel — estive
em Delfos e em Pentecostes
e a Musa e a Virgem-mãe
Mariamusa — Maria Leto Letícia
repartiram comigo a língua de fogo
e só ela conheço e tenho
o dom da língua
e me entendem o hebreu e o gentío
e seus dialetos voltam
à fonte e à flor
et fons et flos
dos tempos aurorais e a silaba da aurora
posou-me sobre a sílaba dos lábios
beijou-me a boca e neste beijo
lateja o paladar de um deus
e os outros deuses
massacram meu coração e as moiras
me plantam a demência na cabeça:
invejado dos deuses
"invejado a invejar os invejosos" — João —
testemunho a beleza e canto
a possessão de seu corpo
e adúltero da adúltera
choro a noite infiel
Afrodite Helena Eleu
theria
trina teu nome trino
pelas montanhas
do país de Apoio onde pisaste
as amoras maduras

Cobrem- me o palitó as borboletas e as libélulas
e aos lábios sábios de teu nome os beija-flores
chegam e digo
Mel
po
len
me
ne
e é
de mel
a nossa lua
desde

neiro
a janeiro
es
cravo
desse tufo de cravinas
na virilha em flor por onde a sílaba
da rosa pestaneja a pálpebra
e balbucio
o cio
verbo gerúndio e gerundivo
das intatas auroras
videndus videnda videndum videndi
video videmus videtur videbam
visionem
visa visione
ablativo absoluto
declino a Musa
Musae
Musaram
Musis
e o Musageta.

1 022

Visita o forasteiro sua própria beleza e traz

Visita o forasteiro sua própria beleza e traz
o coração na mão enrolado no mapa
de sua própria pátria

— "Moi aussi, Monsieur, je suis un étranger
e meus olhos pranteiam minha beleza estranha
aos circunstantes
— pois estranho a mim mesmo
só à minha beleza não sou estranho e só
meu coração suporta a delícia cruel
da inventada beleza"

Volvia a cabeça e assumia a garça e o lírio
e flutuavam sobre os ombros
à soberba das pupilas as crinas
das éguas alazãs.

A noite se busca a si mesma
nas calçadas de Chelsea
da haste de sua galáxia sobre
o casaco de pele pende
la cansada paloma de su mano:

não sabe de seu ninho e o ninho
é que estremece à noite
em busca do seu pássaro:
anoiteceu em Chelsea
boa noite, Melpômene Mourão

Estava nu entre as montanhas sagradas
e dizia:
— "não governo meu nome
dado a Melpômene e às outras
tenho de meu o chão que piso
a mulher que escolhi
e os filhos que gerei:
pois boa noite, Apolo,
toma a minha mulher, dorme com ela
viola em tua cama, Calíope, meus filhos".

Quer a beleza o sacrifício
da beleza
e o amor
o sacrifício
do amor
pois eu te queimo a rosa a bem-amada
os pêssegos do outono
e a rosa e a bem-amada e os pêssegos do outono
serão aroma a tuas narinas
— por isso —
do hálito de teus pulmões venho viver.
E lembro-me também das outras oferendas
vinte amantes em chamas sobre teu altar

— "Moi — jai brûlé mon sexe
et je crie sur les flammes
la douleur de ma beauté"
e dessa dor se vive
e dessa dor se morre

Salamandra — chamei
e fulgurou a boca
à labareda de seus olhos

Anoiteceu em Chelsea
e sobre seus altares
na pira crepitavam
os bagos de seu sexo —
"Moi, jai fait ce que fait un dieu"
e eu mesmo sou meu próprio sacrifício
e minha adoração"

Anoiteceu em Chelsea
o adorado adorava o adorador
e às vezes crea a creatura
sua creação

— "Je suis lesclave et le maitre de mon corps
e canto sobre os querubins
la fleur de ma beauté"

— "Não te lembras? um dia a serpente
andava erecta à beira dos riachos:
contempla o meu andar quando anoitece em Chelsea —
eu desejei meu corpo e eu mesmo
ergui da relva
as ancas altas e o redondo seio"

E amante de si mesma
dormia
em seu jasmim sua beleza e em sua
beleza sua solidão
— "E sou Ginandramor Ginandramante
a minha própria companhia
Ginandramada"

Os deuses — só os deuses
não estão sós
e os que caminham por seu país
aprendem sua língua

Boa noite, Apolo,
anoitece em Chelsea e uma asa
de pássaro ou de anjo
me roça a fronte e tremo

ao perigo de seu rosto — e dele
nunca mais me despeçam estes olhos
que a terra, a tua terra, há de nutrir.

Movia as largas pálpebras e da cinza de suas pupilas
se acendiam as lâmpadas douradas
sobre Greenwich Village

Coming from Ohio
—"Are you going to be here for a couple of minutes?
—"For ever, Johnny,
pela eternidade".

Anoitece em Chelsea
from Chelsea to Eleusis, Mister Corso:
— "Who are you who spend the day walking in this lobby" —
eu sou o gastador do dia e o ecônomo da noite
não caminho o hall
ensaio a grande marcha
caminho o dia rumo à noite
e a noite rumo ao dia quando
escapa Mona Lisa de seu quadro e sorri
na adolescência milenária desse rosto chinês e os poetas, Ho
pelos arrozais pelo ria amarelo pelo rio azul
pelas serras de África
conduzem a cruzada e a sagrada lira marca
o ritmo das grandes marchas —
entoando os teus peãs, Apolo,
pois os ventos de Uganda trazem tua voz.

Essa trabalha as ancas sob a saia de veludo vermelho
essa trabalha as unhas escarlates nas sandálias de ouro
essa o umbigo no strip-tease do Club 82
e Johnny no Chelsea trabalha o som:
— "este é um poeta, darling,
veio ouvir minha guitarra e contemplar teus seios" —
e ouvir uma guitarra
e contemplar teus seios
é minha profissão
e consumo o crepúsculo a aurora os clitóris rosados
em seu ninho
e o rouxinol
e o grito do amor — e nasce um seio
de Mo
na
li
sa
Laisa
coming from Ohio
to Delphos — Hellas — clamo e amo e o meu
cl
amor
me tu
mul
tua

Benditos os que beijam teu seio e intumescem teu seio
e apojam teu seio, Eleutheria, onde
as criaturas mamam o leite de Apolo Lykio.

Vejo a lua do Potomac e banha-se no Hudson
e à neblina verde de seus olhos
Laisa
agoniza o sexo e a garganta
de um pássaro se forma
desmancha-se em abelhas
tu —
mel —
tuas —
um tumulto de relvas orvalhadas.

Pois vou a Port-au-Prince, Tuna,
Port-au-Prince
Porto Rico
Porto Belo
Porto Fino
Porto Alegre alegre
por tua noite
e preciso de muitos lugares e de muitas pessoas
preciso de cerejas
e da cereja um mel
e desse mel um fio
para o caminho de labirintos pelas
Califórnias de ouro
e ali
o Macho da Sibila — Alberto —
entre Los Angeles Las Vegas
pastoreia os anjos nas floridas veigas —
caminhos dos Hyperbóreos.

Pois de Kennedy Airport TWA
— "are you a jew, sir?
— Do you speak yddish"?
"are you from India
or Pakistan?
Árabe ou grego?
E eu sou
das terras do Ceará Grande e Mel Redondo
Ipueiras Itabuna e Tanque dArca, Jarmelino,
e não falo yddish
falo a fala falo a flauta falo a língua
das abelhas sobre as cerejas
e leio Léa e lêem- me los angeles
e Lisa
Laisa
Mon
a
Lisa
pois vou
a Porto Belo
Porto Fino e Porto Príncipe onde príncipe
aguardo o reino e a núpcia — e onde
a princesa aprende a abrir-me
a flor das coxas lancinantes
e a pitanga madura e o pintassilgo
me ensinam o que sei:
dormir contigo acordar contigo —
bom dia boa noite
Eleutheria.

1 008

Nasci tocando viola

Nasci tocando viola
sou Mourão das Ipueiras,
dos Mello do pé-da-serra
reinador destas ribeiras
tanto canto em minha terra
como em terras estrangeiras

As cordas desta viola
são meus pés e minha mão:
no galope a beira-mar
nos oito pés em quadrão;
em martelo e gemedeira
em gabinete e mourão.

Devoto fiel de Apolo
cantador de profissão,
vou cantar o deus da lira
de minha religião
quero contar sua vida
fazer sua louvação.

E tanto o canto em sextilhas
como em versos espondeus,
que era Apoio sobre a terra
Deus e homem e homem-deus
pois a fêmea que o pariu
pariu do sêmen de Zeus

Quando Jesus veio ao mundo
nessa noite do Natal,
Maria, pra dar a luz
só encontrou um curral —
me ajoelho e peço a bênção
e faço o pelo-sinal.

Pois canto a história de Apolo
falho de Zeus e de Leto,
foi seu berço uma palmeira
e o céu de Delos seu teto:
mamou nos peitos de Temis
nectar puro e mel do Himeto.

Só Delos teve coragem
de oferecer o seu chão,
pois Hera, mulher de Zeus,
prometia maldição
a quem ajudasse o parto
na terrível solidão

Foi ali aos nove dias
que o Deus Apolo nasceu
Artemis, sua irmã gêmea,
antes dele apareceu,
vestido de linho e ouro
a doce lira tangeu

Pela folhinha dos gregos
faço a conta e não me engano,
foi dia sete de Bysios
que nasceu o deus humano:
fevereiro — entre oito e nove —
do calendário romano.

Até então era Delos
uma ilha flutuante,
quando nela um deus nasceu,
Poseidon, no mesmo instante,
firmou-a no chão com quatro
colunas de diamante.

Apenas nascido Apolo
os cisnes em revoada
sete vezes deram volta
sobre a ilha abençoada
e cantaram glória aos deuses
e paz à terra sagrada.

Mas Hera, mulher de Zeus,
contra a mãe de Apolo
irada ferida pelo ciúme
pela paixão desvairada:
contratou uma serpente
traiçoeira e envenenada:

Era a serpente Python
com cabeça de dragão:
contra Leto, mãe de Apolo,
sem a menor compaixão,
dia e noite ela movia
terrível perseguição.

Era Apolo deus e homem
em todo o seu esplendor,
e como homem — valente,
e como Deus — vingador:
pela honra da mãe armou-se
com seu ódio e seu amor.

Atrás da serpente pérfida
percorreu terras sem conta,
disposto a lavar em sangue
a miserável afronta,
nas cordas do arco de prata
a flecha certeira pronta.

Pelas bandas do Parnaso
foi a serpente ferida,
levou três flechas no lombo
mais inda saíu com vida,
no lugar santo de Delfos
escondeu-se espavorida.

E alí ao lado do oráculo,
da gruta sagrada à porta,
um rugido pavoroso
racha a terra e os ares corta:
com sua flecha certeira,
Apolo deixou-a morta.

É três, é quatro, é cinco, é seis,
é sete, é oito, é nove, é dez,
pegou o couro da cobra
cortou de frente e viés
e com ele fez o assento
da cadeira de três pés.

Era a trípode sagrada
o trono da profetisa,
no umbigo do mundo o céu
e a terra fazem divisa,
e a voz dos deuses se escuta
na boca da Pythonisa.

Pois o deus tomou à cobra
pele e nome por botim:
Apoio Pythio o chamaram
e eu também o chamo assim:
da história do mundo sabe
o começo, o meio e o fim.

E para purificar-se
do sangue dessa serpente,
com Artemis foi a Creta
lavou-se nágua corrente,
Karmanor lhe aspergiu
o corpo e a alma inocente.

Montou um delfim no mar,
veio a Delfos no outro dia,
arrebatou ao deus Pã
a arte da profecia
e pela boca da Pythia
seus oráculos dizia.

Afoito, ao bosque dos deuses
veio um gigante malvado,
quis violar sua mãe
e Apolo ficou irado:
chamou Artemis, a irmã,
e o pacto foi combinado.

Saíram os dois divinos
no arco a flecha certeira,
alvejaram o bandido
oculto numa touceira
e o corpo com duas flechas
rolou pela ribanceira.

Um dia o sileno Mársias
desconheceu seu lugar
e a pura lira de Apolo
pretendia superar
soprando a flauta de Atena
que o ensinara a soprar.

Os deuses e as musas foram
o tribunal julgador
do desafio insensato
feito ao divino cantor
e decretaram a Apolo
a palma de vencedor.

Para glória da poesia,
para dar uma lição,
Febo Apolo esfolou Mársias
e arrancou-lhe o coração,
que o desrespeito a um poeta
nunca pode ter perdão.

De outra feita ele tocava
contra Pã numa função,
Midas prefere o pastor,
e ao dar esta opinião,
duas orelhas de burro
lhe crescem por punição.

Há cantadores famosos
nas feiras do Cariri,
Jacó Alves Passarinho
de Mutamba, Aracatí,
há Romano de Mãe dÁgua,
Sinfrônio do Jabotí,

Azulão em Pernambuco
e Inácio da Catingueira,
Serrador, Cego Aderaldo
e mais Anselmo Vieira
que foi o melhor de todos
por ser filho da lpueira.

Na viola e na rabeca
eu também sou cantador,
mas somos pobres mortais,
eu, Anselmo ou Serrador,
não vamos desafiar
Apolo, Nosso Senhor.

A todos os que ofenderem
o poeta e sua glória,
sejam reis ou coronéis,
dos potentados a escória,
deixaremos pendurados
nos postes podres da história.

Mas canto é Apolo formoso
suas batalhas de amor,
com musas, ninfas e deusas
e raparigas em flor,
nem escaparam mancebos
de seu leito sedutor.

Passou nos peitos Cirene,
Coronis, Ária e Thalía,
Naiades, Graças, Driopes
e a mãe de Dorus, Phytía,
Urânia, Clítia e Kimene
e as nove Musas que havia.

Recusou-lhe a pura Dafne
seu lírio de castidade,
transformada num loureiro
Pasifae — na flor da idade,
as verdes folhas consagra
na doce dor da saudade.

Jacyntho, o belo mancebo
era seu lúdico amor,
quando morto cai na relva
pelo Zéfiro traidor,
inconsolável Apolo
o transforma numa flor,

Pois o amor, a flor e a morte
são obra de sua mão,
são água do mesmo rio,
são fonte do coração,
por onde o sopro de Apolo
rege a humana ordenação.

Seu espírito divino,
mais sábio que Salomão,
sabia a ferida e o bálsamo,
a doçura da canção,
pois era senhor da vida,
da morte e ressurreição.

Para remédio das almas,
fundou a Pythia divina,
para remédio do corpo
inventou a medicina,
foi o pai de Asclépio, médico,
mestre em sua disciplina.

E quando o raio de Zeus
fulminou este seu filho,
na corda tensa do arco
mostrou das setas o brilho,
matou todos os Ciclopes
como quem mata um novilho.

Expulso por Zeus do Olimpo,
foi ser pastor de carneiros,
pastoreava cantando
os rebanhos campineiros
e era o cordeiro de Deus
entre fontes e loureiros.

Exilado sobre a terra,
filho de Deus humanado,
sua canção governava
o bosque, as flores, o prado,
o mar, as fontes, os rios,
por todo o povo estimado.

Os deuses então sentiram
de seu prestígio temor,
voltou por isso ao Olimpo,
1 223

Caminhavam sobre meu corpo

Caminhavam sobre meu corpo as de Goiás e do
Piemonte
uma delas costumava fincar
a lança de seu pé no sítio
do coração — outra
rodopiava sobre o pênis taciturno
e num salto certeiro
cravava as ancas ao grito lancinante
e engolia nas entranhas o príncipe fremente:
florescia em suas bocas
compunha o lábio formoso
e a língua estudiosa
mas não pisavam minha pele — ego poeta
em floretes de sopro as sustentava e a sombra
de suas pernas
tecia túnica a meu corpo.

Os que sabem de mim me lembram como um pequeno
rei arteiro e moribundo entre amantes de todas
as raças. Todas elas me possuíram ao longo das
noites. E a noiva sérvia, as crinas do Danúbio
sobre os ombros — e a princesa de Túnis com seus
olhos de avelã e a puta de Araguari com seus seios
salubres — todas me possuíram
por dias e noites e anos me possuíram.

E fui eu mesmo meu próprio preço:
por isso tantas vezes me resgatei — e nunca as
possuí — nem mesmo
a pequena alemã de Blumenau nas noites de setembro.
E Isabella era Lúcia Isabella. Quando
pensei tê-la afinal dominada e possuída, metamorfoseou-se
em rosa — melancólica rosa amarela num jarro de porcelana.
De outras, desapareceram o rosto e o peito, todo o corpo
transformado num pequeno sexo na palma da mão, uma crisálida,
uma borboleta ou uma pomba, e fugiram voando para o teto
da igreja de São Paulo. Outras ainda se transformaram em
defuntas e eu
as sepultei chorando num monte de lírios desolados
—no entanto, eu as criara, ego poeta,
de meu barro e meu sopro,
pois antes de mim não existiam:
quando sílaba à sílaba alguma noite pronunciei seus nomes
Ma — da — le — na
Ma — ri — e — le — na
I — sa — be — la
só então elas se ergueram
com seus umbigos vertiginosos
e nada mais pude dizer
e seus nomes
me esgotaram as veias e os pulmões.
E quando eu lhes perguntava de onde vinham,
para onde viajavam, de
que pessoas ou lugares traziam ou buscavam notícias,
respondiam simplesmente:
— Apolo —
e quando diziam o nome santo, voltavam de repente ao
que eram: Isabella
se incorporava em sua rosa amarela, a puta
de Araguari se erguia de sua borboleta ou de sua pomba
e as defuntas, sacudindo os lírios dos cabelos,
se punham de pé sobre seus caixões azuis. —
E todas me possuíam de novo

Possesso delas — ego poeta
produzia o vinho e o vinho
produzia o bêbado — e o bêbado
produzia a música e a música
produzia a regência
do ser em dança sobre os tornozelos
em tomo delas — pois seus olhos
guardavam o rosto de um deus e sua boca um nome
— Apolo —
e ao sagrado nome novamente
se metamorfoseavam
e a pequena alemã de Blumenau
era uma égua ruça e a puta de Araguari uma poldra baia
e emparelhadas com arreios de prata arrastavam
entre as constelações o carro do deus.

Entre Alpha e Beta de Capricómio o deus
era arrastado pelas
potrancas vertiginosas. O galope sideral atravessava
as flechas do Sagitário, as rodas do
carro de ouro deslisavam sobre o ruivo riacho
da Coma de Berenice e as éguas se empinavam
afinal, de narinas ciumentas, na colinas de
Delfos onde Lúcia Isabella transfigurada,
em Maira la Perra transfigurada,
lambia a mão do deus com sua astúcia
de irish-setter. E de repente assumiam outras
formas e brotavam dos agapantos e dos
crótons e luxuosas serpentes coleavam
na relva com seus crótalos pressagos. Pois Lúcia lsabella era
uma verde cascavel de olhos dourados,
vertical e longa, meneando a cabeça e a puta
de Araguari armava o bote de
sua pele malhada e Jéssica e Elisabeth
enrolavam o lustroso coral de seu dorso,
enquanto Adriana e as outras lambiam
os dentes perigosos.

Ego, poeta,
tenho a mão sagaz e arteira
do Serpentário
e empunho o sustento e encanto as serpentes
enroladas no pênis em meu leito de rosas
pois as rosas
sideradas vão con-
siderando o ouro e a praia das serpentes
na mão do Serpentário
onde ainda uma vez
a cabeça dourada de Isabella.
volta à antiga flor de seu sorriso
pois et nunc et semper as auroras
devolvem Lúcia Isabella
do sítio da memória à ilha
do coração de Apolo.

Por isso peregrino a memória
ego, poeta, romeiro do coração
adonde parti retomo — e estudo
minha esperança:
de minha própria esperança estudioso
sobre a podridão das horas
planto a rosa e a maçã e habito a distância
de sua primavera e seu outono:
pois do lombo de capricórnio salto — ego, poeta
a galope neste Monte Real
la belle province
e guardo sempre a língua — e é bom morrer
restam algumas horas de vida — tant mieux
pois não verei o estrangeiro
plantar sua palavra onde plantei teu nome
ao vento da montanha repetido
entre as folhas do érable:
pois ao morrer teu nome em minha boca
terei cumprido a minha própria morte:
na língua estou vivendo
here lived and labored
e os turistas atônitos
e Agnes e Carole e as outras
ouvirão do porteiro do hotel
a evocação do poeta:
from here sailed out to die
as verdes águas escrevendo na vela
as letras lancinantes de teu nome

alí — satélites — meus olhos
pois de Águas Be L as e Pa L mares e Pa L meira
dos Indios
a Be L grado me voy
e eras o vale e o céu de Ia Be LL e Province
e eras o nome de la Be LL e Province
e a noite de Guatema L a e a lua
de teus seios enluarava as laranjas
nos jardins maduros de Teguciga L pa
Teguciga L pa!
en el cerro de plata
tres mejülas de oro
à janela dessa calle del Olvido
rias o riso de cristal e prata
de Tegucipalga
e as colinas
estudavam ali teus seios teus quadris e o vento
aprendeu a mover-se em teus quadris
e assim por Montes Claros e Diamantina onde bailavam
nas suas manjeronas rescendentes
Cristina e Júha.

Por esta flor passou um beija-flor
por esta relva um calcanhar
por este lago uns pés:
na flor na relva na água
crescera o calcanhar
da raiz do rastro
teu talhe de palmeira
desde
até.

1 172

Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New

Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New
Orleans conversávamos sobre Francisco
ancorado — doce e inquieto bergantim
ancorado em seu bar de São Paulo e de repente
o ar de seus pulmões arrendondou as velas e nas nuvens
pelas nuvens aos olhos
de Menelaus Gordon derelicto e Helena
Finamore — enfim o amor — aportou em New Orleans
com suas velas pandas de brisas fervorosas — Francisco
Francisco Luís de Almeida Salles:

Alexandre Mourão adornava o mar com seus clavinotes
ela com seus cabelos ao vento e seus seios dourados
sobre as águas verdes:
— Anne — je disais — Anne de Lille — e os marinheiros
à estrela perigosa de seus olhos
ensinavam a rota à nau de Helena
e o caminho do amor é o caminho da morte
e o caminho da morte é o caminho da vida
e o caminho da vida é teu caminho
pois, quem provou de tua boca e não morreu?
e eu
provei de tua boca e vivo dela
vivo da morte
e Helena
nutre de sua vida sua morte
e a vida
é a semente da morte — e a morte
é a flor da vida:
foge
Helena Finamore
de New Orleans
rumo à constelação das rosas e ao riso matinal
de Anne de Lille e suas
tangerinas verdes —
enquanto
pasta Menelaus a própria lágrima e a própria língua
e esta
é a derelição de Menelaus Gordon
não poder a morte
pois não pode a vida
e Helena pode o mar
e pode Anne de Lille abrir a rosa
da boca lancinada à flecha de Eros
e Francisco Luís pode a perpétua partida
no perpétuo porto
pois assim te encontramos, Apolo,
acenando sempre e não partindo nunca
e não chegando nunca e em teu rastro
é a partitura de teu tom
e ao tom de Apolo
venho cantando e quanto canto — canto
e começo a morrer
— e desde longe
venho cantando
e desde longe
começando a morrer
e da incessante morte
vai crescendo o caule
da vida imarcessível — e aqui
a flor do anacoluto
promete às folhas verdes
a maçã de teu rosto:
guardo na boca o fruto
desse riso
e o sumo
dessa lágrima :
— o adolescente
mordeu teu nome um dia
e é dele
nestes lábios maduros
maduro o canto à tua clave
clave de lua e lambda e Léa
e si lá sol fá mi ré dó
redor
dos arredores do crepúsculo
véspera de Vênus — e teu corpo irrompe
desde um monte de pétalas — pois assim
te quero — mera rosa —
na véspera do amor
e és tu a noite
e és tu a madrugada e o canto do galo e o meio-dia e
são a noite a madrugada o canto do galo e o meio-dia
e as vésperas o tempo de meu canto e minha duração:
por isso ensino às ondas
e às serras do país
o tom de Apolo
— e os vales ecoantes
repetem para sempre a melodia e um dia
há de voltar a clave de teu nome
à minha sepultura — e a flor
na flor de minha boca há de achar sua terra:
— sempreviva — dirão os ventos da província
pois não morrem, Apolo, os que aprenderam
a lira,
e a noite e a madrugada e as vésperas
vão florescendo
no eterno calendário onde sucedem
as três cordas da lira de teu nome
entre as moiras Léa
entre as musas Léa
entre os anjos Léa
entre Anne de Lille e Helena Finamore
enfim o amor
exala o testamento:
e vivo herdei a morte
e vou da morte
herdar a vida.

Pois conheci Menelaus Gordon e Paris Alexander
e Francisco Luís e Alexandre Mourão
e fui colhendo os inventários e os botins
uma palmeira em Delos
uma palavra em Delphos
e uma noite contigo
— e estas
foram minhas heranças, Apolo,
e uma viola serrana e dela guardo
a serenata e a serra
e dessa noite um beijo:
pois herdeiro de um beijo
beijo a flor
cata casta cata
Léa
pende dos lábios
teu espólio, Apolo,
a sesmaria que me deste — suas eiras e jeiras
as ribeiras verdes sob o céu
a cabra montês e os cavalos ruivos e as éguas ruivas:

pois entre os cavalos ruivos e as éguas ruivas e as
ribeiras verdes
passeio a peripécia da tristeza
peri
patética
e a cada passo invento a morte e sou
minha própria invenção
e inventei este deus e este país,
ao inventar, Apolo, o rastro
de teus pés no chão de Orfeu — o rastro
de tua flecha pelo céu e o rastro
de tua voz nos presságios da noite
no bóreas entre as folhas
na sonora fonte:
e quando mais ninguém
cantarei eu ainda os sagrados eólios
ao ouvido da ninfa
e à virilha da fêmea

Pois bem que estremeces, amore mio, quando
canta o galo encarnado à madrugada
de tuas coxas:
venho
do sono
— e uma vez
montei de um salto a égua malhada
e despertei
retinindo as esporas
no barro da alpendrada reiúna:
Helena se apeara da garupa
e os touros e os vaqueiros e os garrotes
dilatavam as narinas e urravam
e escarvavam o chão
e as orquídeas
abriam as vaginas lascivas
e os lábios abertos e as narinas tersas
esse cheiro de cio ao vento sertanejo
eras tu que chegavas

pois sempre chegas quando chega o canto
pois sempre chegas quando chega o amor
pois sempre chegas quando chega Apolo
Eleu
theria.

1 085

Pois José Cupertino cantava na praça

Pois José Cupertino cantava na praça de
São Luís do Maranhão
já não entravam os deuses em seu negro
corpo — e as mãos
imploravam sobre a cabeça branca: — "um Deus
é um sopro" — e José Cupertino
soprava na praça à tarde de São Luís
— "sem o sopro eu sou um pneu vazio
já não me ouvem os deuses não me querem"
e requebrava e chorava e cantava:
—"Eu trepei na ponte
a ponte quebrou
sou moço bonito
desembargador" — e se embargava
a voz — e os deuses
não olhavam sua beleza
nas calçadas de São Luís:
— "sou moço bonito
desembargador" —

Canta o concrís canta a gamarra canta
o galo-de-campina ao céu
de Campina Grande — e ali
bêbada e bela pereceu Clarice
os cabelos de ouro numa poça de sangue:
resta uma cruz na estrada e esse aroma
de jasmins e maracujá na tarde
de Campina Grande
e a tua lira, Apolo, resta
onde canto o aroma a flor a morte ensangüentada
e adorno a morte
com flores e seus frutos
o jambo o dáctilo o espondeu
e os verdes anapestos

Pois vejo o anjo a verbena o verso o verbo
transitivo
florescido nas vozes e nos tempos e nos modos
finitos e infinitos — e Apolo
ensina a fonte de jorrar
o infinitivo dos intransitivos.

O amante de si mesmo beija as águas — mas Apolo
ergue das ondas deusas calipígias e onde
era espuma onde água verde brotam
em suas mãos
as cabeças castanhas
e as avelãs
as tuas avelãs
amada
de cintura fina e de redondo seio.

Nascido em minhas mãos um nome busco
para teu seio — Mirabelos —
um nome-próprio
para a touceira
de madressilvas
de tuas coxas — Delta-Delphulvia

Aqui, Apolo, venho
fundar o nome das partes de seu corpo
onde fundaste
teu tempo e teu país
e aqui
em tua data e em teu sítio
queimado o calendário se lerão nas cinzas
minha data e meu solo
pois sou datado e minha data
é a data da Sibila dos profetas hebreus
no chão do Apocalipse, Patmos,
entranhas de Capricórnio — e ali
arúspice de si mesmo
o poeta se lê — e a decifrada vítima
imola o imolador e entre
os outros deuses
ocupa o seu lugar:
pois somos, Dionísios,
Apolo, somos
as ovelhas de Deus e o deus que tange
os cordeiros nos montes da Tessália:
e em mar e, monte

e em ribeira e rio
vou profetizando a profecia
pois inventei o verbo depoente
e seu modo e seu tempo
e é este o depoimento:
profissão
— Inventor da palavra — Edi —
a voz ativa a voz passiva
reflexa perifrástica
Afrodite
germ
herm
afro
ditirambo

A flor a profecia
do fruto na corola
aos ventos inclementes
despetalada —
Pois posso a aurora e a noite
arconte epônimo da lua e das estrelas
Posso o azul posso o verde
posso as vogais e as consoantes
a cana-rosa
o cabrito montês o touro a égua
a ipecacuanha o cravo
a peroba a canela a cascavel o acônito:
— mas quem pode deter pupila e pálpebra?
pois meus olhos não posso
e neles vai crescendo a morte sua planta
florescido no talhe de meus filhos
já altos entre outros rapazes.

Mas posso a flor e a profecia
do fruto na corola
— Scardanelli —
pois tenho, Apolo, o prumo
da flor sobre seu fruto.

e José Cupertino cantava na praça de São Luís do
Maranhão e às vezes
por sua boca por seus ouvidos por seus poros
pelos buracos de seu corpo
entrava um deus em seu corpo — e ali
aprendi sua visita nas entranhas
e o possesso possui a possessão de um deus
e à chama de sua língua na boca acesa
arde o clarão de teu nome
e em Lambda e Léa
digo amor
nos lábios crepitares

Venho de um deus e
só do que me esqueci me vou lembrando
e só o que perdi procuro e acho
na touceira de relva e de cidreira
cidra
romã
respondem de teu corpo
aromas formas formaromas
assim chamados:
pois comedor de deuses
Abol
Apfel
Apple
Apolón
e um dia, Apolo,
os deuses serão fêmeas e na praça
de São Luís do Maranhão
o sopro e o sumo e a polpa
fruta à fruta o coração se nutra
da cidra e da romã:
pois
Apfel
Apple
Apolo e Apoléa —
seio por seio.

1 150

Pange língua gloriosi

Pange língua gloriosi
corporis mysterium:
Bernardo de Clairvaux atravessou os Alpes vinha de
Roma e trazia uma relíquia — o dente de São Cesário
pela Ibiapaba pela Mantiqueira os Pirineus e os Kárpatos
por Lisboa e Padova onde a língua de Antônio — trago
por nova York Buenos Aires e São Paulo
uma relíquia e calem-se
os pregões da Bolsa
trago a língua de Apolo a língua viva e pange a língua
do corpo glorioso o oráculo celeste.

Desce a tarde sobre os ananazes
e as mangabas verdes e os cajus vermelhos
em Feira de Santana:
consulto a bússola
onde o Norte da Musa — ali
é o pomar onde colher a viagem madura
e à sombra das mangueiras
entre as folhas morena
Antonieta Mello fundava a dor sagrada e a flor
do puro coração
e canto agora
aos céus de Mecejana
seu sorriso triste sua lágrima
seu lírio imarcessível enquanto
desçam as tardes sobre os ananazes:
abre, menina, o coração
na serena madrugada,
se o coração não me abrires
eu não sou eu nem sou nada:
pois junto
das de coração alanceado eu sou eu
sou eu
e amor
e dor,
Apolo,
e as amorosas e as dolorosas
sabem meu nome e a porta
de minha casa:
pois canto agora Antonieta Mello e um dia
desta partitura para flauta doce
em tua língua, Apolo, hão de dizer
que entre Alecrim e as Quintas
Antonieta Mello teve um cantor

Pange língua — pois canto no caminho
as coisas e as pessoas do caminho
do país dos Mourões a teu país, Apolo,
e teu país é meu caminho — e meu caminho
é minha residência
— pois
sobre meus pés caminho
e ao longo
de minha sombra —
e minha sombra
responde ao sol e à lua
seu mapa essencial:
não viajo de mim —
nesta fronteira
Ich bin der Markgraf
e o margrave marca
sua fronteira
e sua
fronteira é sua sombra
e habito minha sombra e sou
cartógrafo de seu mapa sob a planta
dos pés limito minha nação
pois natural
de praça e rua de monte e val
a pura sombra
dá deferência — deferimento
ao mero corpo:
ali sou eu onde o luar
defira à noite minha memória
pela raiz de minha sombra onde
o resíduo de meus dias

As viagens viajam a viagem
e além não vou
de minha sombra
sou nela imóvel
— eppur si muove —
e às vezes
passa-mo Apoio as rédeas de seu carro de fogo

E pelo lago
do céu pisando estrelas
até
a lapa do mundo galopavam
os cascos faiscantes:
um dia sobre as areias de Paranaguá
caminhava uma estrela:
para tua cabeça
aluguei uma estrela
para tua cabeça noite dia o diadema
de um beijo
em teus cabelos fulgurei — e o cometa
coruscante na omoplata banhou
o espinhaço moreno

no céu curvo e profundo
fundiu-se e resta
a glória moribunda
de sua coma
desde
até
e um dia me disseste:
"faz um milagre"

escrevia com o dedo sobre a página
"faz um milagre" — pedias
escrevia com o dedo sobre a areia
a rima de seu nome —
"faz um milagre"
e o dedo incandescente ejaculava cometas
à rima de seu nome

In firmamento coeli rorabam coeli desuper
e enquanto
os perfumes perguntam por teu seio
nubes pluant rosam e o trevo
de teu nome responde

no orvalho da madrugada:
poeta, ego
íncola dos trevos — íncola
de um trevo
desde
até
pois alí oh laudes regis — calida latet
el trébol — el trébol
ó oriunda de Calíope

a rosa veste a túnica e um perfume
de talictres silvestres veste o trevo
amante amore amavi amatam
desde as celestes fugitivas
e Carmen (carminum)
até

1 207

Divididos os idos in dimidio dierum meorum

Divididos os idos in dimidio dierum meorum
vadam ad portas inferi
in dimidio dierum midnight
she knocked at the door in Chelsea à porta
do coração — nos assombrados olhos
tacebit pupfila in oculo meo
e bato à porta do inferno e bato
ad portam paradisi
e aos surdos anjos e aos demônios surdos
emudece no olho a pupila — a minha —
e de olho a olho
sidera
considera:

considerei os astros, Musa,
Musa, Palatini referamus Apollinis aedem:
ali sob o reinado de Hilarius Bogbinder
entre os lençóis de linho e os limões verdes
floresciam as sardas ao redor de teus seios
tua beleza ferruginosa suplicava
os ruivos travesseiros:
chegava Jéssica lavada pelos sumos da lua
chegava por Santa Clara
Ariston
in dimidio dierum meorum:
pois me refiro a Jéssica ao buscar Afrodite
per talos
me Veneram quaerente:
e era uma vez a Infanta do crepúsculo
seus cabelos pesavam nove libras de ouro — e era uma vez
o céu de Coritiba e o vestido escocês
e era sempre Isabella
e o vento vindo de novembro pelo Paraná
me Venerem quaerente
pois quérulo me vou pelas veredas
buscando Vênus:
e onde tornozelos
— ancas
onde ancas
— tua cintura fina
onde tua cintura
— a dança
onde a dança
— Afrodite
e por ali
rastro de Apolo
poetae Venerem quaerenti — Apolo
no inventado rosto
inventa o coração

Chegávamos de junho e julho e agosto
vínhamos às vezes do mar da aurora e às vezes
cavalgávamos serras de saudades — outras
partíamos da noite enluarada
e os tropeiros na estrada tiravam o chapéu
na saudação ao poeta:

palmilhado o silêncio
no rumo da palavra
e onde sua sílaba
por alí Apolo
ludum ludendum ludens

e quando a madrugada explica a rosa
se explica o coração na pálpebra explicada:
mas ai de ti, Louis,
Louis Alphonse Donatien
na boca encarcerada morde
o cerrado botão da rosa muda — e queima
nos olhos moribundos queima a antífona
do próprio requiem —
mas Apolo
desabrocha à lira
a louvação da flor:
a corola celebra teus cabelos
a virilha celebra nome e nume
e este é o ludus do amor
a delta digo ao teu ouvido D e fundo
o alfabeto
em Lambda Delta Beta Kappa:
e assim te chama a língua sábia
o lábio o seio o umbigo a orquídea
a curva pígia
— por isso
uma noite me castraram as Fúrias Eríneas
e os eunucos dividiram entre si o pênis ceifado
e à negra relva o milagre de teu sopro
o ergueu de novo
e cem vezes mil vezes me castraram as Fúrias Eríneas
e os eunucos comiam as rodelas decepadas
mas és mágica e cem vezes
mil vezes
traziam das entranhas e entre antúrios
em seu pendão de cana florescia de novo
a cabeça do príncipe perene
no júbilo do orvalho entre os antúrios

E muita noite
quebrada a flauta
não cessava a melodia — tenho lábios
viciosos de música e de sopro
entre os dedos

teu corpo no ar
e de horizonte a horizonte
modulada canção se desferia
da fonte do desejo — pois ali
nessa clave de lua era soprada a rosa:

E sopro a flauta a rosa súplice
e a canção te compõe e decompõe
de seio a seio

Tanjo a ovelha da letra ovelha à ovelha
toureio o touro da palavra
picador banderilheiro
no trapézio dos chifres perde o solo a sílaba
do coração — e os olhos
guardam gota a gota
a espada matadora
pois tourovelha toureirotouro
arrebanha rebanho vivo
rebanho à morte —
e um dia
há de restar de mim o pranto de Erifânia.

Erifânia!. Erifânia!

Pois busco ovelha por ovelha
e touro a touro enfrento
y me aúlla la perra
Maira la perra
um morto um vivo um touro —
e salto
picador de ditongos e tritongos
sou o amante das Fúrias Eríneas
Eumênidas
Eumênidas
pica —
dor
me castraram de novo
e me busco no ventre das Eríneas
e encontro ao ladrido da perra
Erígona
e Erifânia —
— Erifânia
canta a dor adorada — picador do touro
pica as fúrias amadas
entre as doces ovelhas ao ladrido
de la perra Maira farejando
dissílabos trissílabos tetrassílabos
e chego ao pentassílabo per talos

a brisa violeteira violava
os irados cabelos dessa Moira
e ela ao vento favônio
— Musae, favete —
lavava o favo das pupilas de mel:
mas quem se esqueceria de teus olhos
Isabela Isavela
quem desse verde navegado pelas
borboletas em cio?

Pela perra Maira
a língua varada pela lança
por Maira e Moira
por Erígena e Erifânia e as Eumênídas
Pelas Fúrias Eríneas pela Musa pelas léguas
vou lendo o chão.

1 115

Violava as borboletas e as violetas

Violava as borboletas e as violetas
lhe floresciam onde
as abelhas cercavam a sagrada colmeia:
Laura celebrava os ritos
e as outras concelebravam — pois
as bochechas cheias de esperma
Salústia e Beatriz borrifavam as alfaias
— manejava Mônica o estrangulado príncipe
com as sementes leitosas aspergindo
pupila umbigo e seio
orvalhavam gotas de opalina as axilas peludas
mas Laura
celebrava os ritos:
ao clarão do falus
ao mergulho litúrgico
celebrava os ritos
na rua Paula Freitas
sacrifício de lírios e verbenas
nas tardes pluviais
serviço de Perséfone e Afrodite
esmagada na relva a boca
na boca a relva:
o macho à fêmea a fêmea ao macho
imolados à súbita Ginandra

vinham cantando à primeira semente
de Apolo Ginandreu
— pois Laura
celebrava os ritos
nos quadris em flor

E deitado no mel das brisas flamejantes
ego poeta começo o canto e digo:
— "já nada mais existe, Apolo, e apenas somos
na primavera do tempo
quadris em flor" — e Laura
celebrava os ritos.

Quando
as borboletas violavam as violetas
inauguravam os áugures o augúrio
e as palavras pereciam no lábio
esquecidas de si mesmas
a sós contigo, Apolo,
e com a ninfa da vida e com a ninfa da morte
murmurei o sopro da inefável canção:
— pois somos celebrados enquanto
Laura celebra os ritos.

Mestre de cerimônias o poeta oficia
a cerimônia do silêncio:
o canto é seu ofício — mas
o imolador se imola enquanto
Laura celebra os ritos

Um a um vêm os deuses chegando
ao banquete da própria morte
e da ressurreição — pois Laura
moribunda e nascitura Laura
agoniza a agonia de nascer de novo
e ao ritmo e à tempestade de seu corpo o poeta
celebra os ritos —
e ali
começa a nossa coisa cosa nostra, Apolo,
de nossa raça:
ego poeta sacerdote e vítima
celebrado celebro a celebrante
e o espaço
perde a sua medida
e o tempo
perde a sua duração
pois Laura
celebra os ritos:
brota de minha cabeça o cometa
de seus cabelos e sob
a torrente de seus cabelos meus olhos
fitam o príncipe erguer
da maçã de seus oasis de relva
a cabeça da rosa
e ali
a derradeira súplica o suspiro e o pranto
pois Laura
despetalada
recompõe a rosa — Laura
celebra os ritos.

Desaprendi teus outros nomes
e na sabedoria do esquecimento
invento as novas sílabas
— Laura te digo
e à minha língua sábia
de teu próprio humus de tuas folhas te ergues — Laura
celebrando os ritos

Então começa — então termina
Laura
então se perde —então se busca
Laura
e neste chão o meu sepulcro e a minha fonte
de minha morte jorro e piso
minhas pupilas derelictas:
pois no rastro de Apolo
Laura celebra os ritos.

1 051

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.