Escritas

Lista de Poemas

Tu me pediste notícias da Grécia:

Tu me pediste notícias da Grécia:
de Lisboa
por Goa e Madragoa e Itamaracá
me fui partindo e, pois, já tenho
algumas notícias da Grécia e escrevo
entre a mulher da bela cintura
dos olhos verdes
e o mar:
por mar chegadas, por mar envio
as notícias da Grécia;
redijo em alto mar entre
a madrugada jônia e a madrugada
de Maragogí — sudeste
do país dos Mourões.

E eras uma vez:
da cintura de Apolo o tornozelo dáctilo
vinhas e ao vinho o pé arisco —
de corda em corda a pisar na cítara
e em teu andar
notícias recentes da Grécia:
muitos corpos foram assados e o cheiro
da cútis das vítimas de fina raça
subiu das brasas e a fumaça
odorífera e a labareda e as libações
embriagavam os belos mancebos vindimados;
e era uma vez
Febo Apolo, o deus do arco de prata e lira de ouro
e ao teu andar, ao pé arteiro, a melodia
corda a corda
das notícias da Grécia:
aguardo informes: — aplacara a
hecatombe o deus irado ou, vagabundo
passeia Apolo pelos bosques
de aljava a tiracolo?

Escrevo no meio do mar entre a Grécia e a Itália
talvez Ilíria;
respirei quanto pude a violeta divina
vem o vento dos montes e à essência
das rosas maceradas
amadurecem-me as narinas sábias:
tal a rosa-dos-ventos dia e noite ao faro
dos navegantes.

E era uma vez Apolo e era uma vez uma palmeira
e os escravos de Dona Úrsula Mourão acharam
a imagem de São Gonçalo
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas
e na manhã seguinte a divina creatura
era de novo achada ao pé da mesma palmeira
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas

e no terceiro dia — fugira durante a noite —
voltou à sua palmeira
e Dona Úrsula Mourão, mais os homens
e as outras mulheres e as crianças
foram cantando e se assombrando até a palmeira sagrada
e em duas medidas de sua sombra
riscaram um retângulo
e ergueram uma capela e onde
era seu tronco é hoje o altar
de São Gonçalo dos Mourões
e estas
são noticias da Grécia:

respirei fundo a violeta divina
de Tênedos a Delfos e guardei
a palmeira nos olhos e o templo na serra;
e era uma vez
na ilha flutuante uma palmeira
uma palmeira em Delos e ali
soprou Apoio a flauta e desde então se fez
estável a ilha
imóvel Delos por pisá-la um Deus:
e era macho e belo e tangia também
uma cítara de ouro e do arco de prata
a flecha disputava ao relâmpago
alvo e risco no céu; e sobre a pele
da serpente na trípode sagrada
uma virgem fundou o lábio imaculado
de conceber o oráculo: o divino pênis
aquecido na boca a sacra Pítia
da garganta emprenhada devolvia o sorvo cálido
a palavra profética: —

‘E AEYOEPÍA

e é na boca das virgens e no ventre das ninfas
e semente fecunda
e à sua volta — e à sua cítara
as fêmeas aprendiam a língua e a voz dos deuses
e os rapazes aprendiam o poder dos deuses
e os adolescentes mortos
tornavam à vida e a vida era fundada
à sua volta e à sua cítara;
e era fundada a morte à volta
de seu arco de prata — e os outros deuses
o expulsaram do Olimpo —
estas são noticias da Grécia:

de erguer-se o canto, toda voz se apaga
e as ilhas cessam de flutuar e os deuses
invejavam os carneiros e os pastores
tangidos pelos montes da Tessália
à lira de ouro. E ao seu acorde
em pétala e aroma a bem-amada abria
o coração do heliotrópio e o rosto
do adolescente — amor alheio à vida e à morte —
nas folhas do jacinto doloria
e à mera melodia iam surgindo
o loureiro, a romã, o girassol e o mirto
e o zimbro e o lotus
e o galo e o gavião e o cisne
e a cigarra e o grifo
e era a palmeira e à sombra dela
a invenção do santo e as ladainhas
de Dona Úrsula Mourão;
estas são, amor, as notícias da Grécia
e eu recebi no mar:
ao sul a palmeira de Delos e ao norte
as palmeiras — Camaragibe e Ibiapaba, País dos Mourões —
lá onde a vida
aguça a seta nas aljavas de prata
e a morte
se canta à lua-cheia na viola na cítara
de Apolo adolescente.

Tenho notícias da Grécia, algumas:
noticias para a tua cintura pequena e os calcanhares
o chão dos deuses exilados
e lembranças de um deus: no exílio,
de seu canto se sustentava e ao canto
— sustento dos deuses e perigo dos deuses —
floresciam os homens e o rei Midas foi punido
e em sua própria frauta soprou Mársyas
sua própria morte; e ao canto
— ó sustento dos deuses, ó perigo dos homens! —
por auroras e noites perigosas
tenho notícias da Grécia — algumas —
da corte de Admeto na Tessália
da cor das águas ao redor das Cícladas
das virilhas cheirosas de Kirina, Hotel Adrianos,
do vôo do gavião no ar da tarde
do poeta caldeu na noite de Poséidon
dessa relva curvada à brisa do Parnaso
Danai tragountai Danai e Lyda e uma canção
e uma taberna e o vinho
e a inocência e o espanto de Hiacinto
e o zéfiro da morte em meus cabelos.

Ao terror da delícia os olhos brilham
pisa a planta dos pés a palmilha de pedra
rastro incandescente de um deus:
quem sou eu que te trago
as noticias da Grécia — algumas —?
o doce filho
da raça dos Mourões — país de para lá
da linha do Equador onde o pecado
não é e os homens
são machos e as mulheres
fêmeas — onde
à sombra das palmeiras e em seus troncos
aparecem os deuses e seus santos.

Vem, formosa mulher, camélia pálida,
que banharam de luz as alvoradas
na concha de tuas mãos a água verde
flauta diáfana de água à pétala
do lábio estremecia
e desmanchada ao canto — ao canto
a água sugeria de novo o gomo verde
a flauta diáfana de água
ao milagre dos dedos e do sopro:
bem que me deste, tu mesma, as notícias da Grécia
e eras jônica e coríntia, às vezes dórica
em teus quadris eólios tua concha
à relva eólia
à pétala do lábio estremecia e era
a melodia de tuas flautas escondidas:
começara
no golfo de teus olhos a viagem
ao verde mar por onde
a lua esverdeara a lua
de mel dos cabelos
de Helena à espuma
do desvairado amor:
e estas são notícias da Grécia e um deus
tangia cítaras e ovelhas e os homens
jurados à beleza
domavam o cavalo, a nau, a lança, a espada e a terra
orvalhada de sangue dos guerreiros — um deus
anunciava
a vida e a morte por amor do amor
e anunciava a vida e a morte e os machos
do país dos Mourões.

pois o Major Galdino, meu avô,
cortava a taquara da serra com seu punhal de dois gumes
e ao fim da tarde e ao nascer da manhã
no alto do pé de tamarindo
pendurava a gaiola de alçapão armado e dentro dela
ou galo-de-campina de cabeça de púrpura
ou juriti arrulhadora:
e da copa das cajaranas de ouro
o outro galo-de-campina — a outra juriti —
vinha aprender
a banda de laranja a talhada de melão o arroz
a água do pequeno alguidar de barro e o canto
solitário entre as varetas de bambu — e logo
eram duas gargantas a cantar e era
aos ouvidos do risonho Major
um canto novo — e tu,
pássara chamadora,
ao furo de meu punhal na taquara
a flauta pura ao céu
azul irás sorvendo
soprada em sopro novo a velha
canção que cantavam as pássara
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Na noite de Connecticut

Na noite de Connecticut
lambe a língua nos lábios a memória
de tua boca:
não profeta não sou, Amós, nem fiho de profeta
mas pastor e cultivador de canas e sicômoros — e Apolo
me tirou de detrás dos rebanhos
e comecei a andar cantando

os anjos saberão dos pés desse andarilho pelas
cidades sonolentas — e uma vez o Danúbio
anoiteceu teus olhos em Belgrado
e uma vez o Pacífico
madrugou-te a pupila no país cerúleo
de Viña del Mar — e outra vez
à pálpebra do crepúsculo
fulguraste e fugiste
no jardim de Manágua — e na matilha
das cadelas douradas tuas ancas
surgiam e sumiam
ao caçador da primavera essa tarde em Veneza —
e em Paris
eras a aurora persa a lima verde
entre os pendões de cana entre a baunilha em flor
do boulevard de salsas e alecrins
por Saint Michel e São Miguel dos Campos
talvez fronteira dos Hyperbóreos — pois
senhor dos coitos menciono sempre
os portos, as estações, a rota dos Hyperbóreos.

Elas Hellas — Hélas!
a adolescência prístina
imortal no coração da morte:
quando a máscara murcha
a flor do rosto atende à primavera
na esmeralda vegetal dos olhos
et jai vu quelquefois, Jean Arthur,
às vezes possuí, Francisco
o que o macho pensou possuir e perder:
pois por elas
Hellas
adelgaçada avena sou
soprado e sopram
nas jeiras desse tálamo a semente
e do leite
e do mel
do vinho mosto:

E nascem doces musas ébrias
Hesper —
— ma — ia
— ieu
ti
ka
Eleu
theria

Peregrina de ti mesma por ti mesma
te peregrinas
e o país viaja na planta de teu pé:
flor desta planta
pa —
ís
por —
tátil
ao tato a —
corda
dessa viola tua
nua
sobre os calcanhares
uma
noite em Copenhagen um
dia em Belo
Horizonte aquela
tarde em Maceió
e alguma vez a rosa oblíqua
— de que Kamakuras
talvez te disfarçaras
celestial cereja
às amêndoas e ao lótus:

a quem te viu
sabes voltar — pois
de onde não vir
ias?
caíram uma vez dos laranjais as luas
sobre teus olhos
negra e formosa ao sul do Senegal
por onde Arme Aribô e sobre
os lençóis brancos a beleza noturna de seu corpo — e entre
as virilhas ondul
ando
andam e ando as finas ser
pentes em pé — filtro
venenoso entre os pentelhos
o convite
a essa maçã de amor
e morre à concha ébria e ali
o amor é morte e a morte
o estratagema da ressurreição:

aparecida um dia e para sempre
me habitas a pupila
ouvi teu nome e desde então serias
moradora de meus ouvidos
e por isso — ocupado contigo
muitas outras coisas não sei:
mas aprendi a Musa
e ensino a Musa — e ela
no país de Apolo onde
sou corógrafo e recito
aos meninos a geografia de sua botânica
sua fauna de pássaros e os peixes
de seus golfos e seus pótamos

a orografla de seus Himetos e o monte
melodioso onde Melpômene e as outras
consultam a estrela e os ventos boreais
para compor a sílaba
Me
lo
Me
los
melo
dias
e noites
cantam amarradas ao mourão de minha herdade
as nove novilhas em flor ao touro adúltero

e um casto Dionísios cada noite
sabe o sabor do lírio em que se filtra
a doce castidade em cada corpo:

boa noite, Melpômene Mourão
e em teus veludos
adormeça fiel a sábia flecha

boa noite
Eleu
theria

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Pelas águas clementes e inclementes navegar

Pelas águas clementes e inclementes navegar
e navegar o chão, a fêmea, a cajazeira
com vento leste sair fora da barra
debaixo da capitânia de Martim Afonso
com Pero Lopes de Souza e de seus bagos venho
antes da era de Úrsula, Alexandre, José e outras
matriarcas e outros patriarcas e aí
começa o labirinto de Gerardo — na era
de Dom Manuel, o Venturoso, pois
por ventura aventura e desventura
ia de capitão de hua armada o governador
da terra do Brasil.

E de que me terei esquecido? Não, por certo,
daquele medo, não daquela dor notuma e as
vacas mugindo
no terror à solidão
de teus pastos e teus céus.

Ficaram num cinzeiro os olhos azuis de Catarina
no cinzeiro de um bar — e de tantas
tantas outras coisas me lembro dia e noite
aquela noite o canto das prostitutas encarceradas
— e o coração,
Demóstenes Gonzalez, o teu, hecho pedazos

e o pedaço de lua aquela noite
no chão do calabouço — e às vezes
Pedro Mota — a morte de Pedro Mota
fulminado quando
cantava sob o chuveiro uma ópera italiana
e a corneta comprada no Ipu e a cartola de meu
pai, a garrucha de bronze de meu avô
e o céu
aberto, mas de súbito
e entra Pedro Mota e sorri
com a cartola de meu pai na delicada mão
e entra Edgar com uma bala no fígado
os santos inocentes acolhidos acenam
e saúdam a gentileza da morte
ao hino de Araci naquela tarde:
não, não me diga adeus.

E de que me terei esquecido? Não, por certo
do tempo em que reinou a calmaria podre
e sem ventar bafo de vento
era mais grosso o mar e ao mar
lancei o prumo e perguntei o fundo
e tomei o fundo com cinqüenta e cinco braças
Tenerife! Tenerife!
tomamos as monetas e mais que o dia
já podia a noite
e pairamos a noite toda até o quarto dalva
demorava-me o Cabo das Tormentas a leste e
depois
barlaventeamos outra noite sem poder cobrar nada
por não poder fazer caminho
e não me esqueço, por certo,
do quintal do Encantado, ribeira e casa
de Araci de Almeida onde o canto dos galos
alongou tua morte
no alanceado coração — e como esqueceria
teus seios olorosos — e da cova deles
bem que rescendiam
e do cravo e da morte os suspeitos aromas:
e ainda cantarei de ti (agora tenho apenas o grande
mar por ló dessa lembrança)
nem mais vela que traquete e mezena
e muito trabalho na capitânia
porque não governava e não governa.
E amainamos a vela e fomos
correndo ao som do mar — até que foi de dia.

E de que me terei esquecido? Não, por certo,
de um cavalo soluçando às estrelas do céu e às
éguas do terreiro
a dor aguda do grande pênis negro
e os cascos do alazão na ladeira da serra
de São Gonçalo dos Mourões
e o bandoneon de Gesu Melo — ou de Josa? —
e a camisa escocesa e a cartucheira e o punhal
e os luminosos olhos
de José Mourão retinindo esporas de prata
na estação de Cratéus — ali a casa de Solon Faria
e a arte de calcular por meio de algarismos
e em sua mão de sábio da comarca ardia um giz
e tantos anos depois, Solon Faria Fllho doutrinava
sobre
a arte de f azer mel por meio das palavras e as
abelhas
rodeavam seus olhos. E de que me terei esquecido?
Não,
por certo, de uma gravata azul
de Aretusa dançando e os seios
de Carmen começando ao olor dos jasmineiros
Maria entre cajus vermelhos e amarelos
D. José Tupinambá da Frota, bispo-conde de Sobral
regendo o sólio e o maestro com sua clarinete
regendo
os tornozelos de Aretusa
e um bonde
varando a madrugada na Tijuca
e tantas outras coisas — e contemplei tremendo
a arte de fazer amor por meio de mágica - o polaco Tadeu
chupando ajoelhado aos pés do marinheiro crioulo
e um carneiro pastando a flor do bogari no quintal
do vigário
e o coldre viril do Colt no cinturão de meu tio e a
elegância
da taça de cristal na poderosa mão de meu avô
e tantas outras coisas — já não sei
se coisas ou lembranças:
possuídas um dia possuíram
o pulso do poeta
inventado e inventor
da memória inventora — e quem soubera
ao andar de Piehin vir de seu corpo
a graça a seu vestido — ou dele
florescer a beleza ao quadril
naquela adolescência?

Não te enxugue em espádua e anca e coxa
a água de beleza em que estes olhos
lavaram tua pele:
vem formosa mulher, camélia pálida,
já do salgado mar a espuma viva
prateia-me a pupila:
é preciso partir e na mão grossa
a enxárcia a vela a cordoalha pedem
um jeito de monção — e à chibata
dos ventos na garupa o barco pede
uma estrela no céu para o caminho à noite:
tu com teus olhos, Vega da Lyra, gema da Coroa
Boreal, estrelas verdes
e de Andrômeda e da Cassiopéia.

Luís de Gonzaga não conhecia o rosto
de Branca de Castela, sua mãe:
nunca fitara um rosto de mulher — os olhos —
ensinava ó Mestre asceta — são
janela da alma e por ali
entram as tentações — e pelos meus
entraram todas:

pungido por olhares fui crescendo:
o melancólico olhar do bisavô em seu retrato
pintado pelo pincel municipal de Raul
Catunda
e a morte na pupila do primo agonizante
e os olhos tristes — o quem te memorem —
desse conde alemão no Castelo de Kronberg, em
Frankfurt
e os teus boiando
constelados de verde à sombra de ouro
da Coroa Boreal de teus cabelos
dorida Berenice
hão de levar os meus por noite e mar. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
na penugem de teu braço quando
atrás de tua orelha era um perfume
farejado; e é preciso desfrutar
a luz, e aos olhos não negar nada na vida e
não perder
cova de seio, pedra de rua, axila e nuca tonsurada
e andorinhas ao céu
de agosto foragidas e dormir
sobre o catálogo palpitante. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
de Claude e Sylvianne e as outras cimitarras
fulgurantes:
aos fascinados olhos transpassavam
de um golpe o coração e tudo
era roteiro — os cegos tocando viola
na feira de Várzea Formosa
os soldados de mosquetão na estrada de Alagoas
e Arlette
ruiva e nua em seu bordel e nas noites de maio
a grinalda da Virgem e os anjos de novena e longa
túnica
e tudo era roteiro e de que banda
do mundo é o sítio do desejo, Capitão?
Soubesse dele e o não cantara
na sanfona saudosa o marinheiro Lorenz
e em sua voz marulhada o dalmata do cargueiro
grego
naquele outubro.

E à quarta do nordeste e à quarta daloeste
pode haver outra vista de terra e por isso
aprendi a pairar a noite toda até o quarto dalva
e também Dalva pairava
as monetas ao léu e o seio em boia e então
barlaventeávamos até o caroço da noite:
no coração marsupial todas as horas
eram nutridas
e volta-se a ampulheta e voltam sempre
os grãos de areia e os grãos
desses nomes de coisas e lugares e pessoas
plantados nas entranhas:
a um tiro da abombarda estão sempre suas ilhas
ao alimpar-se a névoa —
oblivionem oblitus me esqueci de esquecer-me
e aos meus mortos
em vão imolo os bodes vigorosos
e os cantos fúnebres:
do ninho de seus túmulos levantam-se
e ao redor do atônito poeta
cantam a letra
dos próprios epitáfios:
nos alqueires do Inferno ningué
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In illo tempore - 1549

I n illo tempore - 1549
floresciam os machos no pais dos Mourões
e o Padre Manuel da Nóbrega escrevia ao Rei de Portugal:
"mandassem órfãs ou mesmo mulheres erradas, que todas achariam maridos,
por ser a terra larga e grossa"
nem se pecava além do equinócio:
Deus é grande, mas o mato é maior
e nas macegas altas e nos cômoros
nas capoeiras nos valos nas catingas
nos espinheiros no agreste
nas ipueiras no sertão de sol da terra larga e grossa o jesuíta
ultra equinotialem non peccatur
a natureza entregava ao vento terral
com a mesma pureza
o gemido das fêmeas possuídas e o clamor
das seriemas e das cericoias no taboleiro
e eu já te esperava
in illo tempore
e te ensaiava nas órfãs e nas mulheres erradas do Padre Manuel.
Para a alvura de teu corpo
inventei as águas limpas
não te podes banhar em teus Danúbios
teus Arnos e teus Renos e teus Senas onde boiam
catraias e cadáveres:
ao talho deste facão
para a sede de teus lábios
a linfa intata é servida
no mangará das bromélias;
e no ouro das macambiras
a água de prata pura.

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Vamos, Marivalda, à madrugada

Vamos, Marivalda, à madrugada
aprender a areia, a espuma
ensinar-te a ninfa e os exercícios:
todas têm sua vez e agora é a vez
de Marivalda e cada uma
ensaia a sua pauta: esta
ensina a nuca tonsurada, Paula, aquela o seio, Dalva,
Elisabeth a coxa, Iolanda os quadris,
je t’apprendrai une caresse nouvelle
le bout des doigts tout doucement, Dolly,
essa a boca, essa a orelha e sempre
Maria Helena a ordenação
o ensaio da mestria
a ordenação da posse o coração desordenado
de suas mãos amorosas o amor
ó

o amor abriu, compôs o cravo de vinho em que me torno e entorno
à tua boca, à tua embriaguez.

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Pange língua gloriosi

Pange língua gloriosi
corporis mysterium:
Bernardo de Clairvaux atravessou os Alpes vinha de
Roma e trazia uma relíquia — o dente de São Cesário
pela Ibiapaba pela Mantiqueira os Pirineus e os Kárpatos
por Lisboa e Padova onde a língua de Antônio — trago
por nova York Buenos Aires e São Paulo
uma relíquia e calem-se
os pregões da Bolsa
trago a língua de Apolo a língua viva e pange a língua
do corpo glorioso o oráculo celeste.

Desce a tarde sobre os ananazes
e as mangabas verdes e os cajus vermelhos
em Feira de Santana:
consulto a bússola
onde o Norte da Musa — ali
é o pomar onde colher a viagem madura
e à sombra das mangueiras
entre as folhas morena
Antonieta Mello fundava a dor sagrada e a flor
do puro coração
e canto agora
aos céus de Mecejana
seu sorriso triste sua lágrima
seu lírio imarcessível enquanto
desçam as tardes sobre os ananazes:
abre, menina, o coração
na serena madrugada,
se o coração não me abrires
eu não sou eu nem sou nada:
pois junto
das de coração alanceado eu sou eu
sou eu
e amor
e dor,
Apolo,
e as amorosas e as dolorosas
sabem meu nome e a porta
de minha casa:
pois canto agora Antonieta Mello e um dia
desta partitura para flauta doce
em tua língua, Apolo, hão de dizer
que entre Alecrim e as Quintas
Antonieta Mello teve um cantor

Pange língua — pois canto no caminho
as coisas e as pessoas do caminho
do país dos Mourões a teu país, Apolo,
e teu país é meu caminho — e meu caminho
é minha residência
— pois
sobre meus pés caminho
e ao longo
de minha sombra —
e minha sombra
responde ao sol e à lua
seu mapa essencial:
não viajo de mim —
nesta fronteira
Ich bin der Markgraf
e o margrave marca
sua fronteira
e sua
fronteira é sua sombra
e habito minha sombra e sou
cartógrafo de seu mapa sob a planta
dos pés limito minha nação
pois natural
de praça e rua de monte e val
a pura sombra
dá deferência — deferimento
ao mero corpo:
ali sou eu onde o luar
defira à noite minha memória
pela raiz de minha sombra onde
o resíduo de meus dias

As viagens viajam a viagem
e além não vou
de minha sombra
sou nela imóvel
— eppur si muove —
e às vezes
passa-mo Apoio as rédeas de seu carro de fogo

E pelo lago
do céu pisando estrelas
até
a lapa do mundo galopavam
os cascos faiscantes:
um dia sobre as areias de Paranaguá
caminhava uma estrela:
para tua cabeça
aluguei uma estrela
para tua cabeça noite dia o diadema
de um beijo
em teus cabelos fulgurei — e o cometa
coruscante na omoplata banhou
o espinhaço moreno

no céu curvo e profundo
fundiu-se e resta
a glória moribunda
de sua coma
desde
até
e um dia me disseste:
"faz um milagre"

escrevia com o dedo sobre a página
"faz um milagre" — pedias
escrevia com o dedo sobre a areia
a rima de seu nome —
"faz um milagre"
e o dedo incandescente ejaculava cometas
à rima de seu nome

In firmamento coeli rorabam coeli desuper
e enquanto
os perfumes perguntam por teu seio
nubes pluant rosam e o trevo
de teu nome responde

no orvalho da madrugada:
poeta, ego
íncola dos trevos — íncola
de um trevo
desde
até
pois alí oh laudes regis — calida latet
el trébol — el trébol
ó oriunda de Calíope

a rosa veste a túnica e um perfume
de talictres silvestres veste o trevo
amante amore amavi amatam
desde as celestes fugitivas
e Carmen (carminum)
até

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Hoje, Abdias, a noite quer tarefa de morenas e amanhã

Hoje, Abdias, a noite quer tarefa de morenas e amanhã
voltaremos à ruiva de outro dia
vem, formosa mulher, camélia pálida
que banharam de luz as alvoradas
e assiste-me a buscar uma por uma
o amor que juntos aprendemos
clavel de vino que me hiciste
ó Afrodite Helena
para a embriaguez
da que me nutre de ervas em sua mão
da que parte comigo e ninguém mais é
ó

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Pois faço aos tempos surdos

Pois faço aos tempos surdos a doação deste ouvido
e venho doar ao tempo mudo esta língua
aprendi as álgebras do espaço
e calculei às vezes aurora e noite e sou
sabedor de sua hipotenusa e mestre
de sua bissetriz e de seu algarismo: posso armar
no doce teorema de seu caule
a parábola da rosa e sua paralaxe
pois proponho a rosa aos circunstantes desde
seu logaritmo — colho
teu nome em minha boca
e em minha mão floresces
com teu monte de pétalas
com teu seio redondo —
não seria ali
o sítio do desejo, Capitão Gofredo?
e venho e volto e um deus
veste na própria pele o corpo livre e gera
da incessante vida a saciada morte
e da morte incessante esta sede da vida.

Não estão mortos os deuses, Efraim,
sob a defunta máscara seus olhos
cravejados de esmeraldas
coruscam sobre nós
e a rosa de seus lábios
despetala ao fervor de seu sangue botânico
a suplicante saudação:
tu dichorisandra albo-lineata
tu campelia zanonia
tu gladiolus ceruleus
venustus labiatus
desde o musgo do chão ao firmamento firmas
no lírio vertical o fluxo de teu rosto:
também eu — ego poeta
arranco e piso aos pés minha máscara de morto
e sustento o fulgor de tua
pupila incandescente.

Não, Antônio José,
não morreram os deuses e na pata
do cavalo de Alexandre Mourão
na palmeira de dona Úrsula
em teus olhos moribundos, Capitão,
num punhal no relógio da sala
no patacão de prata no retrato da parede na relva
de tuas coxas sagradas
o rastro de Apolo:
ego poeta, ego cartographus
faço o mapa, Gonçalo, desse rastro
entre o cróton e o crótalus terrificus
pois de terra terrífica é o chão onde um dia
deixaste florescer a planta de teu pé:
e as distâncias do mundo
permanecem regidas
à balística de seu passo — não morreram, amor.

E deles os que um dia visitaram a morte
desceram aos infernos
e subiram aos céus no terceiro dia — e um dia, Augustin,
rebentou um ruido dos céus um vento de tempestade
e mandaram descer suas línguas de fogo
sobre a cabeça do poeta
e saí pelo boulevard bêbado de glória
e os Partas e os Medas e os Elamitas
e os que habitam a Capadócia o Ponto e a Ásia
a Frígia a Panfília e as partes da Líbia
perto de Cirene — e os forasteiros
romanos e judeus e seus prosélitos
e os cretenses e os árabes
e os servos e os croatas e os guerrilheiros guatemaltecos
e a puta de Quebec e o travesti de Amsterdam
recolhiam maravilhados
sílaba por sílaba meu canto — pois conheço
o poliedro da palavra — ego poeta
e no sonho dos adolescentes e dos moribundos
fiz minha morada no país de Pentecostes
e abriram-se as fontes das águas em minha língua
e todos entendiam a fala das fontes das águas.

Por isso
Pallas invoco — Palas Athenaia
e Afrodite clamo — Afrodite
e Zeus e Poseidon e Hermes Trimegisto
e Afrodite clamo — Afrodite — e ao seu nome
estremecem frementes
a pele e o corpo dos machos e das fêmeas:
da concha de seus lábios com seus olhos verdes
ergue-se Afrodite
os mesmos ombros de cabelos molhados
pelo mar da Jônia na concha de Poseidon
calipígia a oeste
e a leste — de pentelhos frondosos
mas ninguém lhe acaricia os pêlos
pois transfigurada
ela nos conta
sob a luz das estrelas
sua própria ficção
e não é mais
que a ficção de si mesma
e de sua metáfora a metáfora
a presença real
— e só a morte
dos deuses é irreal:

e da raiz do coração a língua erecta
ousa chegar ao êxtase:
Afrodite! Afrodite!
da transfiguração
de teu nome real
teu rosto original parece
irreal.
Um dia percorríamos a aurora de Montréal
saudávamos os bisontes e os jaguares nas esquinas do
bairro inglês
e alí
cantava o galo no quintal de Teresa e urrava
o touro de Vila Bela no curral de Eufrásio
ao quebrar das barras
na madrugada hermafrodita:
as donzelas e os Travestis e as putas da Guatemala e as
leopardas ciumentas e os lábios no cio perguntavam
— "por quem, poeta, teu amor, por quem?"
Amante sou é de meu próprio rosto — amoroso estou
do lago de tuas pupilas de onde
meu amor é pela gema de meu dedos no pelo
de tuas virilhas — e apaixonado
estou por minha mão que ronda as tuas coxas
pela língua
que diz teu nome — línguabela abelha
no mel de tuas pétalas em tua
rosa negra — e ali
em seu ninho de estrelas mergulhava
o pássaro — e por ele, amor,
o poeta,
e seu amor.

E não morreram — pois
era uma vez uma cidade, Gilbués chamada — e era uma vez
uma mulher por nome Laura — e outra vez
bebíamos o Ballantines twelve years
na fronteira do Maranhão
barrancas do Parnaíba:
sob a celeste água-marinha
da noite piauiense
as doces loucas de Terezina
penduravam sob as mangueiras
no sanatório de Clidenor
entre as douradas mangas-lira os redondos olhos — e a lua
arredondava o seio das putas quotidianas sob
os coqueiros de Ana Paula — e era uma vez uma noite —
e era uma vez
uma cidade, Gilbués chamada — e era uma vez
uma mulher por nome Isidora — Dora —
de Gilbués chegada — e quem se esquecerá
de Mariana — os mesmos olhos
augurais inaugurais
de Sanharó chegada
aos bordéis do Recife:
do trampolim de seu rosto
o peregrino pé ao desferir o salto
cunhara o rastro — e, pois,
por esses rostos e lugares vivo em romaria
Delos Delfos Gilbués Oeiras e ali o Coronel
Victor de Barros Galvão governador das armas
até Olho dÁgua Grande onde Domingos
o Coronel Domingos Mourão Filho
governador dos povos assentava
o rústico condado e cultivava
a rosa do perigo:
pois visconde conde comes senhor e servo
soldado de aventura sou, Apolo,
pelo sangue das veias
de todo chão de todo rosto
onde quer que esse rastro e tua mão
vela sobre nossos capitães
pois flor-de-lis pois rosa
de puro artelho rosa e flor-de-lis
onde marquês marquei minha fronteira pelo
som de uma flauta pela
corda de sua lira — e por ela
joguei a minha noiva e meu condado e meu escudo
de faixa verde em campo de ouro
um castelo em abismo e abismado
entre as coxas das nove castelãs — ali
farejo o faro de teu falus e sou
de tua corte o derradeiro conde
Gerardus derelictus — criatura
de Apolo e de Melpômene
ego poeta
conde do abismo.

Mas teço o pano pastoreio a cabra e forjo o ferro
e planto a cana
e camponez e obreiro
degolo o conde nas auroras de outubro
ego poeta o conde degolado
à beira de seu abismo:
depois com o sopro de meus pulmões
encho de ar os foles de couro
e malho a brasa dos metais
e produzo as estrelas
na oficina onde canto
o meu próprio motim
e o meu próprio massacre:

Pois malho, Apolo, na bigorna os colhões de aço
e o coração de chumbo — e invento
a mágica do ouro e vou
fazendo rosas braceletes pétalas
e outros objetos de ouro
até chegar à lira:
pois criei a minha mão e fiz
eu mesmo a minha própria lira
suas cordas fiei
e modelei os dedos com que as pulso
do pulso às unhas.

peregrino pelas calçadas do bairro
e os rapazes e as raparigas me apontam:
Gerardo
de
lira.
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Era uma vez em Rovigo, Itália

Era uma vez em Rovigo, Itália,
Maria Zanani:
entrou em luta corporal com o marido — conta a United Press International —
foi arremessada contra a parede de sua velha casa
a parede esboroou-se e jorraram
três milhões em moedas de ouro
tre millioni di lire
sobre o casal
subitamente reconduzido
à lua de mel
num carro em que as rodas eram liras
e as liras eram de ouro, tocando marchas nupciais e canções napolitanas:
nas casas de meu país as paredes guardam
os ossos e o sangue dos Mourões
minha tetravó vendeu suas jóias de ouro
e os machos puderam comprar mais bacamartes
e a terra dos canaviais continuou grande e nossa e
nas casas de engenho
as moendas cantavam dia e noite e nos terreiros
ao galamarte cantador os meninos morenos
giravam no ar
e no ar
torneavam o torso
e dóricos
à beleza e ao perigo
dos galamartes cantadores ao perigo
das guiadas e dos rifles
e à mestria das bestas certeiras
medravam os machos
in illo tempore
e ao seu bote
o teu corpo roubado às ruínas etruscas
há de tombar no chão ardente
do país dos Mourões

e ao seu baque irão brotar
os do culto de Hécate Ctônia
"e igual que antaño
en torno al sobreviviente
los pastores se ciernen en rueda
y oran en común
y se aprietan por las manos".

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Alexandre cavalga

Alexandre cavalga
e às vezes é
a bússola amorosa dos anjos
e ao aroma dos jasmineiros o aroma
da nuca de Carmen, do botão dos seios
de Margarida e de Francisca
e às vezes é a bússola do ódio
e dia e noite e noite e dia através
noites e dias
Alexandre cavalga:
e os cavalos cansados param mortos
e o coração cavalga a fúria
e seu rastro se chama vingança.

Vicente Lopes de Negreiros
a raça de André Vidal de Negreiros
matara de tocaia a Manuel, irmão de Alexandre Mourão
e à sombra de uma palmeira da Serra dos Cocos
tinha dezesseis anos
o corpo ensangüentado do adolescente moreno
era belo e terrível e seus olhos
vidrados
pediam vingança ao irmão.

Vicente de Negreiros, chamado Vicente da Caminhadeira
furou o mundo e Alexandre
Mourão no rastro dele
andou duas mil léguas e o Maranhão
e o Piauí e o Ceará e o Rio Grande e Pernambueo e a Paraíba
celebraraxn o tropel de seu cavalo
o furor de sua vendetta
e o trom de seu bacamarte de boca de sino
e os sinos dobraram por duzentos mortos
e os soldados de Xenofonte — Anábasis — não podiam dormir
por causa da tristeza e da saudade

"ouvindo o tiro, nós que estávamos na luta, corremos e achamos nosso irmão morto
e não pudemos mais dormir
ali o deixamos e
fizemos todas as diligências
e não foi possível achar mais o assassino
nesta mesma noite segui em procura
e depois de sete dias e sete noites de minuciosa diligência
informaram estaria sob a proteção do Tenente Coronel João da Costa Alecrim e do tio
Vigário Manuel Pacheco Pimentel, em Vila Nova
risquei o cavalo na porta do Vigário
e de sua alpendrada trinta e oito dias de viagem num cavalo bralhador
até Pedras de Fogo — extremas da Paraíba e Pernambuco
de lá noventa dias a cavalo ao Piauí
e em noventa noites o sertão
espreitado palmo a palmo conheceu
o ódio sábio e inútil de meus olhos:
terral, aracati, nordeste, graviúna, todos
os ventos do país dos Mourões a crina
de meu cavalo conheceu.

O Coronel Diogo Salles comprara um sítio para situar-se no Maranhão aonde se mudara
por certos desgostos:
Coronel Diogo, filho de meu parente Capitão Xavier, a
quem assisti em seus desgostos,
é possível esteja o inimigo em sua Fazenda do Serrote?
— Nem no Serrote do Piauí nem no Serrote do Ceará
e se acaso meu pai o acolheu
não o há de matar na rede de hóspede
mas vai pô-lo a caminho quando saiba
quem é Vicente da Caminhadeira.

— Não, meu parente, não se apeou à minha porta.
E na Fazenda Santa Cruz, a caminho de Quixeramobim,
dois de seus cabras se entregaram à morte de joelhos aos pés de minha
madrinha Francisca
e ela mandou espreitar a casa e as fazendas do Capitão-Mor Lessa
e em cinco dias e cinco noites de espreita — nada;
passei a Crateús e por suspeita
voltei ao Serrote do Capitão Salles
passei a noite ao pé da casa espreitando os movimentos dela
e entrei no alpendre com o primeiro sol
fui honrado pelo Capitão, comi sua coalhada, o requeijão e a tapioca
descansei em rede cheirando a capim santo
segurei-me com o velho ele não proteger Vicente Lopes
que enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele.

Talvez o bandido esteja na casa do sogro em Poço dAgua:
foram vinte e nove dias até Poço dAgua, Piauí,
com os cavalos, os vaqueiros e a matutageiú de meu irmão Eufrosino:
tomei o velho de improviso e nada achei
apertei-o pelo genro, descobriu que há seis dias
dali tinha partido a chamado do Alecrim
que saía tal dia de muda para Pedras de Fogo, Paraíba,
voltei, segui ao Alecrim

antes de chegar a Vila Nova soube que estava no Serrote do velho Salles
ali mesmo fui procurá-los
Vicente da Caminhadeira estava fora da casa invadida por minha fúria
o Coronel Alecrim escapou num paiol de algodão, onde perdeu o nariz que era suposto:
nada fiz e fico contando com mais dois inimigos fortes.

Voltei para Pitombeiras, fazenda de meu irmão Eufrosino, sete léguas,
ia despachar um positivo a Pedras de Fogo
chega uma carta de mulher, inimiga de Vicente Lopes:
— "quer notícias certas, me apareça — "
apareço
apresentou-se um homem
vinha de Nossa Senhora do Ó e dava certeza de estar Vicente Lopes
na Vila de Igarassu, Pernambuco
voltei, preparei-me e segui para Igarassu
pois enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele

E depois de duzentas e tantas léguas de viagem
cheguei a Nossa Senhora do Ó
tomei a casa de meu parente, Capitão André Cursino Cavalcanti
e aconselhou-me:
devia seguir para o Engenho Monjope, de nosso parente, Capitão-Mor João
Cavalcanti de Albuquerque
o senhor mais rico e forte daquelas terras
contei-lhe meu destino
não quis mais que eu saísse:
seus homens é que vão a Igarassu para a missão
e um dos meus para reconhecer:

Vicente Lopes estava tocando viola num forrobodó
— "é aquele":
os homens de meu parente dão duas voltas no salão e o tocador de viola cai
com o peito varado e a bala ainda traspassou o coração de uma rapariga da festa:

na sala grande do Engenho Monjope
o Capitão-Mor abriu a garrafa de vinho do Porto
bebemos em honra de meu defunto irmão
e a Sinhá acendeu no oratório uma vela
à sua alma desagravada.

"Capitão, antes de voltar, quero ir eu mesmo a Igarassu
enfiar o dedo e o cano de minha garrucha no buraco da bala de Vicente Lopes de
Negreiros"
chamou de novo os homens que juraram:
"vá em paz, meu parente, o morto é morto e se ressuscitar em qualquer parte,
de Pedras de Fogo para cá, terras de Pernambuco,
deixará de ser vivo:
vá em paz, os meus homens não mentem"

E depois de onze meses
considerei
descansar meu irmão na sepultura e minha
fadiga em minha casa:
meu pai deu provimento.

Naquele tempo
preparava Eufrosino uma cavalaria para Vila dos Brejos
e Antônio Mourão urna outra
para ir a Caxias, Maranhão:
lá podia comprar terras de uma herdeira de meu avô
anexas às de meu pai e eu podia
escolher um sítio e situar-me entre os irmãos.

Vicente Lopes havia passado a viola
e dançava na sala
o outro tocador morreu por ele
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer que soubesse dele,

Soube na Boa Esperança e não estava
soube em Uruburetama
meus homens andaram vinte e oito léguas desde Vila Nova
e meu pai recebeu uma carta:
"Menezes e Vicente da Caminhadeira tiveram notícia de que
Antônio e Alexandre Mourão
atravessaram o rio Parnaíba com trinta e um cabras armados, rumo a Poço dAgua"
mandei quatorze homens à Capela dos Humildes
um tiro empregou a bala na carne de meu ombro
a luta a ferro frio durou das três às seis da tarde
e o sangue dos irmãos e dos cabras de Vicente Lopes empapara o curral
e ele fugira
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer soubesse dele

nem o cadáver de seu irmão entre os garrotes assombrados e as varejeiras
lambendo sangue
valia o corpo airoso de Manuel
Segui para Capela, Residência, Pequizeiro e Boa Esperança
esquadrinhava sozinho as grotas da serra e um morador me advertiu a medo:
— "meu Senhor, não siga por este caminho, que os logares estão semeados de
Mourões"

e a semente do a
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