Geir Campos

Geir Campos

1924–1999 · viveu 75 anos BR BR

Geir Campos foi um proeminente poeta, tradutor e crítico literário brasileiro, figura importante na cena cultural de seu tempo. Sua obra poética é marcada pela inteligência, ironia e por uma profunda observação da realidade brasileira, muitas vezes com um olhar crítico sobre a sociedade. Como tradutor, teve um papel fundamental na introdução de importantes obras da literatura estrangeira ao público brasileiro, especialmente na área da poesia. Sua atuação abrangeu diversas vertentes da atividade literária, consolidando-o como um intelectual multifacetado.

n. 1924-02-28, São José do Calçado · m. 1999-05-08, Niterói

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Oração Recoordenada

Pai nosso,
que estais no céu,
se ainda há céu
na altura a que o engenho leva
o bicho da terra
em guerra.

Venha a nós
vosso reino,
mas não seja
imposto da vida
a vida.

E o pão difícil
que nem todos têm,
dai-nos,
e a força de o repartir bem.
Amém.


Publicado no livro Operário do canto (1959).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
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Biografia

Identificação e contexto básico

Geir Campos foi um poeta, tradutor, crítico literário e professor brasileiro. Nasceu em Cataguases, Minas Gerais, e faleceu no Rio de Janeiro. Sua obra é escrita em português.

Infância e formação

Geir Campos formou-se em direito e posteriormente dedicou-se intensamente à literatura e ao jornalismo. Sua formação acadêmica em direito contrastou com sua profunda paixão pelas artes e pela literatura.

Percurso literário

O percurso literário de Geir Campos foi multifacetado. Iniciou sua trajetória como poeta, destacando-se por uma obra que mescla lirismo, crítica social e humor. Paralelamente, desenvolveu uma carreira notável como tradutor, sendo responsável por trazer ao público brasileiro autores fundamentais da literatura universal, como T.S. Eliot, Ezra Pound e Federico García Lorca. Atuou também como jornalista e crítico literário.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Na poesia, Geir Campos explorou temas como o cotidiano, a crítica social, o amor e a condição humana, muitas vezes com um tom irônico e despojado. Sua linguagem é acessível, mas carregada de significado e sutileza. Como tradutor, destacou-se pela fidelidade aos originais e pela capacidade de transpor a musicalidade e o espírito dos poetas para o português. Sua obra poética principal inclui títulos como "O Rei de Holanda" e "A Máquina de Vidro".

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Geir Campos viveu e produziu em um período de grande efervescência cultural e política no Brasil, especialmente a partir da década de 1940. Ele esteve ligado a movimentos e publicações que debatiam a identidade nacional e a modernização do país. Sua atuação como tradutor também o colocou em diálogo com as correntes literárias internacionais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Além de sua intensa atividade literária, Geir Campos exerceu a docência e teve uma participação ativa em círculos intelectuais. Sua vida foi dedicada à difusão da cultura e à criação artística.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Geir Campos é amplamente reconhecido por sua contribuição à poesia brasileira e, especialmente, por seu trabalho como tradutor, que lhe rendeu diversos prêmios e o respeito da crítica e do público. É considerado um dos grandes tradutores da literatura moderna para o português.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra poética foi influenciada por poetas brasileiros e estrangeiros, e ele próprio influenciou gerações de poetas e tradutores com seu rigor e sua sensibilidade. Seu legado é marcado pela qualidade de suas traduções e pela originalidade de sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Geir Campos é analisada por sua capacidade de abordar temas complexos com leveza e inteligência, e suas traduções são estudadas por sua técnica e fidelidade interpretativa.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Campos era conhecido por seu humor aguçado e sua erudição. Sua vasta cultura e sua capacidade de transitar por diferentes áreas do conhecimento eram notáveis.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu no Rio de Janeiro. Sua obra poética e, em particular, suas traduções continuam a ser reeditadas e estudadas, mantendo viva sua memória e seu legado.

Poemas

13

Oração Recoordenada

Pai nosso,
que estais no céu,
se ainda há céu
na altura a que o engenho leva
o bicho da terra
em guerra.

Venha a nós
vosso reino,
mas não seja
imposto da vida
a vida.

E o pão difícil
que nem todos têm,
dai-nos,
e a força de o repartir bem.
Amém.


Publicado no livro Operário do canto (1959).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 574

Caracol

Também dono do mundo és: e, dono,
impões o teu direito de vagar
por ele como um rei que devagar
anda por seus palácios e jardins,
à hora da sesta, quando o gordo sono
dobra ainda mais sobre o peito a cerviz
ao rude camponês e ao bom fidalgo.
Como esse rei, também procuras algo
achável só na terra, de que és filho;
e enquanto assim te perdes na procura
teu rastro marca, com molhado brilho,
as fronteiras do reino que inaugura.


Publicado no livro Arquipélago (1952).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 411

Poema-Bilhete

Amigo, este meu canto não é manso
nem de manso cantar seria a hora.
Reviro as páginas da História e vejo
que, se em cada uma existe alguém que chora,
razão de pranto mais que em todas elas
sobeja na que se rascunha agora:
com cães de armas por toda parte à espreita,
entre miras vacila e se apavora
o gado humano, sem saber se a luz
que se desdobra no horizonte é mais
reflexo de tarde ou clarão de aurora
ou mais fogo de bomba maquinada
por um gênio às avessas que decora
o alfabeto do inferno e que, por ele
bem soletrando a morte, a vida ignora...

Sabendo e amando a vida, o verso enrija-se
e o canto é como quem finca uma escora
contra o a-b-c do diabo, contra o cão
do gatilho suspenso, contra o fogo
que no céu se desdobre e ali não seja
reflexo de tarde ou clarão de aurora.


Publicado no livro Operário do canto (1959).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 173

A Árvore

Ó árvore, quantos séculos levaste
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?

Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?

Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências — que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos —

demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo?
Dize: e não há esperança para o Homem?


Publicado no livro Rosa dos rumos (1950).

In: RAMOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 534

Acalanto

Exaustos de fotografar a vida
em seus sessenta aspectos por minuto,
adormecem os olhos no aconchego
de crepúsculo antigo e sempre novo:
as imagens do dia, prisioneiras
entre as dobras das pálpebras, discutem
argumentos possíveis para um sonho.


Publicado no livro Rosa dos rumos (1950).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 630

Parábola da Madurez

Ocioso olhar
o fruto que vai de verde a maduro:
leve mudança há de ser contemplável
na pigmentação da casca,
mas do amargo despreparo
até o sumo dulçor
a seiva passará despercebida
— outro desses mistérios naturais
que a alma interroga
e o corpo sabe mais.


Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 101

Lamento pela Ilha Fernando de Noronha

Amei-te sempre como a um cão de guarda
simplório e manso na calçada azul
de minha pátria pouco afeita à guerra:
se vai passando alguma nau ligeira
ou ligeiro avião, teu leve sono
quase vigília as pálpebras descerra
— tal o cachorro atento, ao pé do dono —
mas reconhece o amigo e a mesma paz
pousa na cruz dos rumos cardinais...

Querem-te entanto por mastim nervoso
com intranquilas orelhas de arame
girando sobre a rosa dos caminhos:
desconfiarás, servindo a gente estranha,
do azul celeste e desse azul mais fundo
que há séculos de séculos te banha.

Já te imagino triste bicho acuado
no mapa e no binóculo, adivinho
tua pétrea epiderme aberta ao berne
da guerra e seus petrechos e pretextos:
se algum dos teus se aproximar à antiga,
já te escuto ladrar "são inimigos"...

Assim te ensinam e hás de aprender bem,
pois esse é um dom que os mercenários têm.


Publicado no livro Operário do canto (1959).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 127

8a Cantiga de Acordar Mulher

Vozes da esquerda, surdas,
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos,
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida...
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?


Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 238

9a Cantiga de Acordar Mulher

Um dia te acharás
sem inteirar a casa:
ouvirás o marido ressonando,
os filhos dormindo em calma...
O espelho te acenará,
te lembrará coisas da mocidade,
coisas da meninice,
te mostrará vindas algumas rugas;
contemplarás o espelho,
o quarto, a casa;
perguntarás por ti mesma,
pelo teu próprio destino
— e o espelho fará silêncio:
será o sinal de estares acordando.


Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 233

Soneto Fabril

Parques, sim, mas parques industriais:
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.

Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.

Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado

retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.


Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 259

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