Lista de Poemas
Saudades
Parti você em pedaços desiguais
dispostos sobre a pilha de livros
metade deles é alucinação
a outra metade, assombros
Sobras revisitadas
que não são bem-vindas
embora repousem brutalmente
ao reconhecer o lugar
Dos dedos que jamais tocaram
a minha gélida estrutura celular
mas que floreiam antúrios
e cultivam saudades
dispostos sobre a pilha de livros
metade deles é alucinação
a outra metade, assombros
Sobras revisitadas
que não são bem-vindas
embora repousem brutalmente
ao reconhecer o lugar
Dos dedos que jamais tocaram
a minha gélida estrutura celular
mas que floreiam antúrios
e cultivam saudades
👁️ 325
Ainda crio verbos para você
Meu coração ainda me pede
Para descansar em sua última foto
Aguardo em bradicardia
Meus olhos em vermelho agudo
Não escondem nem acolhem
Embora formem profundos sentidos
Vistos, lidos e amanhecidos
Querendo se conjugar
Na saudade que
Fico a saudadear
Para descansar em sua última foto
Aguardo em bradicardia
Meus olhos em vermelho agudo
Não escondem nem acolhem
Embora formem profundos sentidos
Vistos, lidos e amanhecidos
Querendo se conjugar
Na saudade que
Fico a saudadear
👁️ 338
Hoje eu saio daqui carregando a minha cor
Um dia olharam para mim
Com dúvida
Chegaram mais perto
Examinaram bem
Usaram até fita métrica
Na curvatura dos meus cachos
Na minha boca
Em meu nariz
Com uma paleta de cores
Sobrepuseram a minha pele
O júri se reuniu
Distante do meu cheiro
E da minha humanidade
Ao fundo cochichos
“ela não é como eles,
mas evidente que não é como
nós”
Com dúvida
Chegaram mais perto
Examinaram bem
Usaram até fita métrica
Na curvatura dos meus cachos
Na minha boca
Em meu nariz
Com uma paleta de cores
Sobrepuseram a minha pele
O júri se reuniu
Distante do meu cheiro
E da minha humanidade
Ao fundo cochichos
“ela não é como eles,
mas evidente que não é como
nós”
👁️ 299
De ano novo vou querer um cabo de aço para me segurar
Um desafio astronômico
De mudar aquilo
Que eu queria que tivesse sido
E não foi
A Terra translacionou rápido demais
As rotações me nausearam
Todo esse movimento
Me afungentou
Para um canto de mim
Onde a gravidade é mais forte
E me puxa com força para o chão
Das lamentações e inaptidões
Meu desejo é flutuar
Ver de longe para adentrar
E descobrir tudo o que já conheço
Com outra retina, língua e pele
Experimentar a vida de fora
Ainda que eu esteja dentro
De mudar aquilo
Que eu queria que tivesse sido
E não foi
A Terra translacionou rápido demais
As rotações me nausearam
Todo esse movimento
Me afungentou
Para um canto de mim
Onde a gravidade é mais forte
E me puxa com força para o chão
Das lamentações e inaptidões
Meu desejo é flutuar
Ver de longe para adentrar
E descobrir tudo o que já conheço
Com outra retina, língua e pele
Experimentar a vida de fora
Ainda que eu esteja dentro
👁️ 396
Açude nordestino
Tenho 23 anos e não sei nadar
Me recordo dos dias no sertão
Em que me banhava no raso do açúde
Aos pulos me pensava nadante
Enquanto meus pés ressentidos tocavam o chão
Banhos dançantes com tilápias e camarões
Saía de lá os carregando comigo
Aprisionados na louça de minha mãe
Que ajoelhada se dedicava a ariar
Bacia de ferro, meia dúzia de pratos e copos
Na beirada arenosa do açúde
Redemoinhos, risos e respingos
Da água funda minha irmã acenava
Como quem faz convite para aprofundar
O medo de queimar me hesitava
Minha mãe fora d'água não me enxergava
O lugar seguro me oferecia solidão
Aprendi que no fundo
A gente se afoga
E no raso a gente duvida
Se vai ter alguém olhando
Me recordo dos dias no sertão
Em que me banhava no raso do açúde
Aos pulos me pensava nadante
Enquanto meus pés ressentidos tocavam o chão
Banhos dançantes com tilápias e camarões
Saía de lá os carregando comigo
Aprisionados na louça de minha mãe
Que ajoelhada se dedicava a ariar
Bacia de ferro, meia dúzia de pratos e copos
Na beirada arenosa do açúde
Redemoinhos, risos e respingos
Da água funda minha irmã acenava
Como quem faz convite para aprofundar
O medo de queimar me hesitava
Minha mãe fora d'água não me enxergava
O lugar seguro me oferecia solidão
Aprendi que no fundo
A gente se afoga
E no raso a gente duvida
Se vai ter alguém olhando
👁️ 295
Casualmente fui até mim
Movida pelos próprios pés
que não sabem como percorrer
as avenidas e travessias
asfaltadas pelo coração
Caminhando invoco o poder
de quem eu pretendi ser
dissolvo em água as muitas de mim
agito e me banho delas
que não sabem como percorrer
as avenidas e travessias
asfaltadas pelo coração
Caminhando invoco o poder
de quem eu pretendi ser
dissolvo em água as muitas de mim
agito e me banho delas
👁️ 284
Da sua boca brotou poesia dolorida: em mim
No momento certo
Você me envolveu com suas fibras
Eu impregnada de lignina
Dura, oca, vazia
Amei quando sequer
Havia amor em mim
Agora somos
Nós frouxos
Em nossas fotos
As cordas se emaranham
Apertam firmemente
Na intenção de conter
A cada visita que faço a elas
Mais difícil e tumultuoso
O desatar dos nós
Mais sinuoso o caminho de volta
Me deixa em carne viva
A saudade da sua boca
Tornou meus pelos eretos
Em constante alerta
Quando existo
Em seu esquecimento
Minha vida em outra se faz
Quando existo
Em sua lembrança
O mar dos meus olhos
Insistem em retornar
Para o oceano dos seus
E arde
Essa água salgada
Sobre a minha pele
As mãos brancas
Que me tocavam
Retirou abruptamente
Meu amor por nós
Sem considerar as raízes
Restou
Do seu amor por mim
E do meu amor por você
A distância
De 384.400 km
Como se a lua
Cumprimentasse
A Terra
Você me envolveu com suas fibras
Eu impregnada de lignina
Dura, oca, vazia
Amei quando sequer
Havia amor em mim
Agora somos
Nós frouxos
Em nossas fotos
As cordas se emaranham
Apertam firmemente
Na intenção de conter
A cada visita que faço a elas
Mais difícil e tumultuoso
O desatar dos nós
Mais sinuoso o caminho de volta
Me deixa em carne viva
A saudade da sua boca
Tornou meus pelos eretos
Em constante alerta
Quando existo
Em seu esquecimento
Minha vida em outra se faz
Quando existo
Em sua lembrança
O mar dos meus olhos
Insistem em retornar
Para o oceano dos seus
E arde
Essa água salgada
Sobre a minha pele
As mãos brancas
Que me tocavam
Retirou abruptamente
Meu amor por nós
Sem considerar as raízes
Restou
Do seu amor por mim
E do meu amor por você
A distância
De 384.400 km
Como se a lua
Cumprimentasse
A Terra
👁️ 313
Coordenadas do desejo
Estes pontos pintam
Pintas que são pistas
Para chegar ao destino
Que se faz desnudo
A primeira pista pinta
Uma estrada em zigue-zague
Apresenta giros e curvas
Ordena passagem
A segunda pista pinta
Um quadro úmido
Que se emoldura com a língua
Dura
A terceira pista pinta
Linhas convexas
Que conectam-se
Boca a boca
A quarta pista pinta
O que se vê na penumbra
Enquanto tateia o caminho
Subvertido em saliva
A quinta pista pinta
Uma paisagem quente
Que desemboca no Éden
Das sensações e sabores
Não pinta a sexta pista
O destino abre-se
Enquanto sussurra
"Vem"
Pincelo em primeira pessoa
O meu desaguar
Em seu aguar
Para virarmos mar
Pintas que são pistas
Para chegar ao destino
Que se faz desnudo
A primeira pista pinta
Uma estrada em zigue-zague
Apresenta giros e curvas
Ordena passagem
A segunda pista pinta
Um quadro úmido
Que se emoldura com a língua
Dura
A terceira pista pinta
Linhas convexas
Que conectam-se
Boca a boca
A quarta pista pinta
O que se vê na penumbra
Enquanto tateia o caminho
Subvertido em saliva
A quinta pista pinta
Uma paisagem quente
Que desemboca no Éden
Das sensações e sabores
Não pinta a sexta pista
O destino abre-se
Enquanto sussurra
"Vem"
Pincelo em primeira pessoa
O meu desaguar
Em seu aguar
Para virarmos mar
👁️ 382
Ensurdecedor
O barulho que ela ouve
sente quente atrás da orelha
chega como um sussurro
a mil decibéis
A acumulação é a origem
sua cor é chave
mas ela não está preparada
cobre os ouvidos
com algodão macio
No trabalho
o zumbido estridente
a fere
os colegas a olham
homens e mulheres sulfites
em suas expressões
in(diferença)
Nela
choro de fio contorcido
da gargantilha que arranha
e destrói cada anel cartilaginoso
de sua traqueia
antes da morte
eles desejam
calar a sua voz
Tudo sangra
a garganta
os ouvidos
vem de
vermelho vivo
O sangue não estanca
a fúria não coagula
ela tinha acabado de descobrir
e então grita
pós-morte
sente quente atrás da orelha
chega como um sussurro
a mil decibéis
A acumulação é a origem
sua cor é chave
mas ela não está preparada
cobre os ouvidos
com algodão macio
No trabalho
o zumbido estridente
a fere
os colegas a olham
homens e mulheres sulfites
em suas expressões
in(diferença)
Nela
choro de fio contorcido
da gargantilha que arranha
e destrói cada anel cartilaginoso
de sua traqueia
antes da morte
eles desejam
calar a sua voz
Tudo sangra
a garganta
os ouvidos
vem de
vermelho vivo
O sangue não estanca
a fúria não coagula
ela tinha acabado de descobrir
e então grita
pós-morte
👁️ 255
A última vez que amei
Asfixiar todas as inseguranças
Nas moléculas de celulose
Com caneta preta de ponta fina
Fazer tributo às árvores
Com as palavras
Da língua mãe
Desenhadas no papel
Que irão destrinchar
Dúvidas
Dívidas
Dores
Das conversas
Que não ocorreram
O silêncio
Dos toques
A pulsação
Das vozes
O último "eu te amo"
Sem adeus
Nas moléculas de celulose
Com caneta preta de ponta fina
Fazer tributo às árvores
Com as palavras
Da língua mãe
Desenhadas no papel
Que irão destrinchar
Dúvidas
Dívidas
Dores
Das conversas
Que não ocorreram
O silêncio
Dos toques
A pulsação
Das vozes
O último "eu te amo"
Sem adeus
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