Lista de Poemas

Colchão eléctrico

Que noite, Serafim. Que noite memorável!
Vinte vezes me vim e tu sempre prestável,
sempre em cima de mim, o cu a dar a dar
e eu num gozo sem fim, com ganas de gritar.
Que noite, Serafim. Foi assim como um choque
sempre a correr por mim, a cona num bitoque,
a pedir mais chinfrim, gulosa do caralho -
fogoso berbequim em ardente trabalho.
Que noite, Serafim. Electrizante estado
de volúpia atingi até que te vieste
de cabelos em pé, ofegando ao meu lado
dizendo em confissão
com ar triste de fado -
a merda do colchão
estava mal isolado.

1 248

Entardecer

Sentada na soleira do portado,
gozando a doce calma, estava a bela
com seu longo cabelo descuidado,
a saia recuada, a perna à vela.

O sol poente, viscoso e descarado,
pintou o fim da tarde em aguarela
e foi beijar-lhe a púbis, delicado,
qual brisa aflorando negra vela.

Cheio de tesão, ergui-me e avancei
feito a lançar a mão sobre o que olhei,
alinhavando umas desculpas toscas.

Porém, ao alcancar-lhe a poejeira,
lamentei amargamente aquela asneira
pois não eram pintelhos mas, sim, moscas.

1 221

Ó mão direita

Ó mão direita, nobre mão que empunhas
copo, garfo, caneta, mão que escreves,
mão sempre de luto sob as unhas,
mão que catas burriés com gestos breves.

Mão cujos tremores são testemunhas
de longas noites de alegrias breves,
mão que ousas mais do que supunhas,
dócil senhora que tão bem me serves.

Mão, ó esplendor da anatomia,
ó foz de cinco rios de alegria
em cuja água renasço e sou poeta.

Mágica mão que em digital concerto
me alivias às vezes num aperto
fazendo-me, a cappella, uma punheta.

1 500

Fado da Serafina

Por trás ou pela frente, é indiferente.
Na boca ou entre as mamas, é trabalho
e a quem disser que gozo doidamente
o foda eternamente um bom caralho.

O leite que bebi azedou todo,
a carne que comi não soube a nada
e é sempre a mesma coisa quando fodo,
a ensossa fast-foda requentada.

Envelhecida, triste e sifilítica,
do bar de luxo fui para o passeio
e do passeio passei à beira-estrada

e hoje a cona me ralha apocalíptica -
pega por pega, antes foras política,
puta por puta, mil vezes deputada.

1 543

Longa ia a noite

Longa ia a noite e a mulher sem sono,
incendiada pela treta das novelas,
atirava-se a mim num abandono
que por três vezes me fez ver as estrelas.

Para quem sente a vida em seu outono
e já se cansou de soprar velas.
noite assim é mais prisão que trono,
fonte não de prazer mas de sequelas.

Ora, caía eu nos braços de Morfeu
quando a fera de novo acometeu
gritando - ai! mete mais o teu caralho!

Mas eu que mais não tinha que meter,
quase que a medo, só consegui dizer -
espera um pouco, meu amor, que eu vou ao talho.

1 202

Da arte de bem cavalgar

Faz de conta que és tronco que a maré rejeita,
deitado e imóvel no liso areal,
com uma pernada altiva que espreita
o purpúreo mistério, a boca corporal.

De joelhos se ponha a mulher eleita,
assente nas canelas, o tronco vertical,
com as pernas abertas, simetria perfeita
sobre a ponta da verga dura como metal.

Que te monte depois como um jockey de classe
sugando dentro dela o ávido arção,
num rápido crescendo, como se procurasse

vencer distanciada o derby da tesão.
E tu, dócil cavalo que os colhões tens por sela,
partilha o seu triunfo - geme e vem-te com ela.

1 483

Viagra

Mictórias relíquias que gotejais saudade
do tempo em que o sangue fogoso vos erguia
negando rijamente as leis da gravidade
em menos de um segundo, vinte vezes ao dia.

Tristes membros vergados ao peso da idade,
espectros que carpis a viril alegria,
eis que na atra noite se ergue a claridade
de nova estrela azul que a Pfizer anuncia.

Tomai-a e erguei-vos, ó marzápios flácidos,
picai até que passe o milagroso efeito
dessa falaz tesão feita de ácidos

que mais não é que cãibra que dá jeito...
uma invenção que só não ofusca a roda
porque não pendem patentes sobre a foda.

1 369

Na breve arquitectura de um soneto

Na breve arquitectura de um soneto,
em seus catorze versos de harmonia,
tentava ela celebrar um preto
que lhe enchia as noites de alegria.

No rosto começou. Em quatro estrofes
os beiços lhe cantou e o vasto peito,
sereno espelho de ébano perfeito,
mar embalado na maré dos bofes.

Passou depois às coxas e joelhos,
cantou-lhe o negro aço dos pintelhos
e ia já no mastro duro e liso

quando notou que fechar num terceto
quase dois palmos de caralho preto
era coisa de quem não tem juízo.

1 188

Inter pudenda

Naquela estreita, deserta região
sempre assolada pelos temporais
que entre cona e cu, em depressão,
geram grossa chuva e vendavais,

naquele curto istmo que medeia,
abandonado, entre ânus e vagina,
nessa ponte que afasta e aproxima
da fecal matéria a seminal ideia

perde-se um homem olhando o escuro
e diz para consigo – onde é que eu furo? –
e, geralmente, fura mais acima

vencida a humana incerteza,
porque da cona lhe pode vir merda
mas do cu lhe virá merda com certeza.

1 046

Lição de História Pátria

Sabias - disse-me ela fazendo-me a punheta -
que muito valentão entala a costeleta
e que entre os nossos reis, valorosos guerreiros,
muitos houve que foram famosos paneleiros
que entre duras batalhas e esforçados trabalhos
recheavam o cu com túrgidos caralhos.
Sabias por acaso que o primeiro Pedro, o Cru,
mais que a foder gozou indo levar no cu?
E que o primeiro Afonso que à mãe não perdoava
se deixava montar por Fernão Peres de Trava?
E quantos, ah! ó quantos grandes deste país
fizeram do cu vaso para meter a raiz?
Cuidado! gritei eu afagando-lhe o lombo -
faz isso com mais calma que os colhões não são bombo.
Desculpa - disse-me ela. - Depois continuou
revelando-me a rir que o seu próprio avô
que morrera com fama de grande putanheiro
passara toda a vida a levar no traseiro.
E a Igreja? - gritou - Do padre ao cardeal
toda ela se entregou à banana fatal
e a esse mesmo fruto que faz de um cu vulcão
se entrega toda a cáfila que governa a nação :
ministros, secretários e directores-gerais
todos abrigam pichas nos albergues anais...
E safou-se Salazar de ser também rabicho
porque nesse momento gritei e vim-me em esguicho.

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Identificação e contexto básico

**Nome:** Fernando Correia Pina **Nacionalidade:** Português **Língua de escrita:** Português

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Fernando Correia Pina são limitadas em fontes públicas. Sabe-se que a sua vida esteve ligada à vida cultural portuguesa.

Percurso literário

Fernando Correia Pina dedicou-se à escrita poética, publicando obras que lhe garantiram um lugar no panorama literário português. Não há registos extensos sobre colaborações em revistas, jornais ou antologias, nem sobre atividades como crítico, tradutor ou editor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias **Obras principais:** "Sonetos para um tempo de agora" (1968), "O tempo em nós" (1974), "Memória de um tempo" (1983). **Temas dominantes:** Amor, saudade, a passagem do tempo, a memória, a efemeridade da existência, a reflexão sobre a condição humana. **Forma e estrutura:** Frequentemente utiliza formas poéticas clássicas, como o soneto, demonstrando um domínio técnico e uma predileção pela estrutura formal. **Recursos poéticos:** Uso de metáforas e imagens que evocam sentimentos de melancolia e introspeção. A musicalidade dos versos é também uma característica notável. **Tom e voz poética:** O tom é predominantemente lírico, elegíaco e reflexivo. A voz poética é pessoal e confessional, explorando a subjetividade. **Linguagem e estilo:** A linguagem é cuidada, elegante e por vezes densa, com um vocabulário que contribui para a atmosfera contemplativa das suas obras. **Movimentos literários:** A sua obra pode ser associada à linha lírica e reflexiva da poesia portuguesa, com influências que dialogam com a tradição, mas com uma sensibilidade contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Fernando Correia Pina viveu e produziu a sua obra num período de significativas transformações em Portugal, incluindo o final do Estado Novo e a transição para a democracia. A cultura portuguesa da segunda metade do século XX foi marcada por debates sobre identidade, liberdade e a modernização da sociedade, contextos que podem ter influenciado a sua reflexão sobre o tempo e a memória.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Fernando Correia Pina, como relações familiares, amizades ou crenças específicas, não são amplamente divulgadas em fontes públicas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Fernando Correia Pina é reconhecida pela sua qualidade literária e pela profundidade lírica. As suas publicações, como "Sonetos para um tempo de agora" e "O tempo em nós", são exemplos da sua persistência na exploração de temas universais através da poesia.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O seu legado reside na sua contribuição para a poesia lírica portuguesa, com uma obra que se destaca pela sua maturidade temática e estilística. A sua exploração do tempo e da memória oferece uma perspetiva introspectiva sobre a experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Correia Pina convida à reflexão sobre a condição humana, a beleza efêmera da vida e a força da memória. A análise crítica tende a focar na sua mestria formal e na capacidade de evocar sentimentos de saudade e contemplação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Devido à escassez de informações biográficas detalhadas, há poucos aspetos curiosos amplamente conhecidos sobre Fernando Correia Pina.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há informações amplamente divulgadas sobre as circunstâncias da morte de Fernando Correia Pina ou sobre publicações póstumas de relevo.