Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

1923–2005 · viveu 82 anos PT PT

Eugénio de Andrade foi um dos mais importantes poetas portugueses do século XX, conhecido pela pureza e pela musicalidade da sua linguagem, e pela sua profunda ligação à natureza, ao corpo e à experiência sensorial. A sua obra é caracterizada por um lirismo depurado, que celebra a vida, a luz e a beleza, sem ignorar as dimensões mais sombrias da existência. Com uma poesia que se distingue pela concisão, pela clareza e por uma aparente simplicidade que esconde uma grande profundidade reflexiva, Eugénio de Andrade consolidou um estilo inconfundível e uma voz única na poesia contemporânea em língua portuguesa.

n. 1923-01-19, Fundão · m. 2005-06-13, Porto

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Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
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Poemas

70

Sobre a Terra

Sei que estou vivo e cresço sobre a terra.
não porque tenha mais poder,
nem mais saber, nem mais haver.
Como lábio que suplica outro lábio,
como pequena e branca chama
de silencio,
como sopro obscuro do primeiro crepúsculo,
sei que estou vivo,
vivo sobre o teu peito,
sobre os teus flancos,
e cresço para ti.

8 681

In Memorian

Esses mortos difíceis
Que não acabam de morrer
Dentro de nós; o sorriso
De fotografia,
A carícia suspensa, as folhas
Dos estios persistindo
Na poeira; difíceis;
O suor dos cavalos, o sorriso,
Como já disse, nos lábios,
Nas folhas dos livros;
Não acabam de morrer;
Tão difíceis, os amigos

7 963

A Sílaba

Toda a manhã procurei uma sílaba.

É pouca coisa,é certo:uma vogal,
uma consoante,quase nada.

Mas faz-me falta.Só eu sei
a falta que me faz.

Por isso a procurava com obstinação.

Só ela me podia defender
do frio de janeiro,da estiagem
do verão.Uma sílaba.

Uma única sílaba.

A salvação.


de Ofício de Paciência
15 457

As mãos

Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sequer são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.
9 113

Como se houvesse uma tempestade

Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;
como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.
Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.
Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.
7 908

Poema XVIII

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

7 214

Os Pêssegos

Lembram adolescentes nus:
a doirada pele das nádegas
com marcas de carmim, a penugem
leve, mais encrespada e fulva
em torno do sexo distendido
e fácil, vulnerável aos desejos
de quem só o contempla e não ousa
aproximar dos flancos matinais
a crepuscular lentidão dos dedos.

8 872

O amigo

Não voltará-o que dele me ficou
é como no inverno entre cortinas
de chuva um tímido fio de sol:
ilumina mas não aquece as mãos.


de Pequeno Formato
8 361

Não sei

Não sei porque diabo escolheste
janeiro para morrer: a terra
está tão fria.

É muito tarde para as lentas
narrativas do coração,
o vento continua
a tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.

Eu sei:tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal.Paciência,
querido,também Mozart morreu.

Só a morte é imortal.
8 120

As maçãs

Da alma só sei o que sabe o corpo:
onde a esperança e a graça
aspiram ao ardor
da chama é a morada do homem.
Vê como ardem as maçãs
na frágil luz de inverno
uma casa devia ser
assim: brilhar ao crepúsculo
sem usura nem vileza
com as maçãs por companhia.
Assim: limpa, madura.

 

9 579

Comentários (3)

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C Crux
C Crux

eugênio?? mereçe??

MUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSO
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euskadia

.....eis as minhas reticências....algo imperceptível à rudeza duma mão, mão que soube redigir o carácter perene do amor onírico sobre as Mulheres portuguesas. Não, não o global, uma conduta não é de todo um vazar impoluto, alguma mefítica coisa por lá vai conspurcando. Eugénio de Andrade : nunca fogo fátuo porque nós somos a língua no seu pleno devir, sempre lá no espaço etéreo onde a ele possamos recorrer para nos marulhar pelo encanto duma MULHER