Escritas

Lista de Poemas

Final de Século

A coisa anda meio difícil
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
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Suma Biológica de Cacá de Aquino

Deus tudo vê.
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
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