Eudoro Augusto

Eudoro Augusto

n. 1943 PT PT

Eudoro Augusto foi um poeta e jornalista português cujos versos exploraram temas ligados à natureza, ao amor e à saudade, com um estilo que beirava o sentimentalismo romântico e o lirismo intimista. Atuou em diversas publicações periódicas, onde os seus poemas encontraram um público receptivo à expressão de sentimentos profundos e à contemplação da beleza do mundo natural. A sua obra, embora menos proeminente que a de alguns contemporâneos, contribui para a riqueza da poesia portuguesa do seu tempo.

n. 1943-08-16, Uberaba, Minas Gerais, Brasil · m. , Lisboa, Portugal

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41 [um grito apenas não basta

um grito apenas não basta
para abolir todo o silêncio que cultivamos


In: AUGUSTO, Eudoro. Cabeças: 88 poemas. Rio de Janeiro: s.n., 1981 (Capricho).

NOTA: Referência ao poema "Tecendo a Manhã", do livro A EDUCAÇÃO PELA PEDRA (1966), de João Cabral de Melo Net
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Poemas

12

Luna de Lupe

Quero mais não.
Estou meio over de emoção.
Estou sem aquilo que chamam estrutura
pra amortecer esta aflição,
esta fissura.
Meu corpo é um barco sonolento
e falta vento
pra me levar a outra ilha.
Outra razão, outro delírio,
outro luar de vampiro
à procura de um irmão.

Pode parar: a noite é escura.
Não quero o copo de água pura
que você bebe em minha turva solidão.

Quero mais não.
Hoje me sobra emoção.
Sobra verdade, falta força, sobra sangue.
Hoje eu vou dormir no mangue
que outros chamam coração.

Pode parar.
Virou bocejo, era tesão.
Você jamais deu boa vida ao meu desejo,
foi pouco sim pra muito não.
E agora chega.
Deixa rolar mas nunca esqueça
de virar minha cabeça:
eu amo sempre o lado errado da paixão.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
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Talvez em Outro Cinema

A Luciana

Subitamente no último verão,
bem no avesso do verão passado,
eu quis você. Estar em você. Amar você sobre todas
as coisas, sobre as cascas e os ossos
de um solitário momento,
belo e maldito como o último verão.
Depois todo aquele fogo cai no sono.
Faço passeios anestésicos pela região dos lagos,
pratico os mais orientais exercícios de paciência,
pela serra, pelo cerrado, mas é a mesma bruma.
a mesma espuma, névoa, nebulosa estação.
Sempre esperando a deixa pra entrar em cena
acendendo clift um ar de enigma cool,
entre bogart e brando,
ao riscar o fósforo e abrir teus olhos mansos
à beleza sem rastro de um novo cometa azul.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
1 142

41 [um grito apenas não basta

um grito apenas não basta
para abolir todo o silêncio que cultivamos


In: AUGUSTO, Eudoro. Cabeças: 88 poemas. Rio de Janeiro: s.n., 1981 (Capricho).

NOTA: Referência ao poema "Tecendo a Manhã", do livro A EDUCAÇÃO PELA PEDRA (1966), de João Cabral de Melo Net
1 071

Inscrição

Esta primavera
não é flor que se cheire.


Publicado no livro Dia sim dia não (1978).

In: ALVIM, Francisco. Poesias reunidas, 1968/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. p.164. (Claro enigma
1 074

A Prática do Léxico

A linguagem tolera o livre trânsito
da palavra prisioneiro.
Nenhum poder de exceção sustenta
a palavra tirano.


Publicado no livro Dia sim dia não (1978).

In: ALVIM, Francisco. Poesias reunidas, 1968/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. p.167. (Claro enigma
999

78 [a uva da luxúria depois de seca

a uva da luxúria depois de seca
dá uma passa deliciosa

dizem


In: AUGUSTO, Eudoro. Cabeças: 88 poemas. Rio de Janeiro: s.n., 1981. (Capricho)
916

Bandeira Pós-Moderno (Take 1)

Vou-me embora pra Manhattan,
lá sou amigo do Ray.
Tenho a trombonista ruiva
e uma terapeuta gay.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.

NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
1 067

Ana C

Outra vez nos braços do amor perdido.
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
1 117

Final de Século

A coisa anda meio difícil
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
1 073

Meu Brasil Brasileiro

Que uma lua mais verde
venha libertar nossos olhos enredados
da indiferença amarela
que ora habitamos.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.

NOTA: O título do poema é um verso da canção "Aquarela do Brasil", de Ary Barros
1 385

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