Lista de Poemas
Há muitos metros
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta
Está para além do que se vê a janela onde me debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente caindo
Só no fim da paisagem estou de pé como um para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita
Magoa ver a magnólia cair Acredita
sobre ela.A tempestade.
As plantas são tão frágeis como as cabanas dos homens.
Somos muito frágeis os dois neste poema
com o relâmpago,a cabana,com a magnólia aos ombros
sem nenhum terreno pulmonar intacto
para depois de nos olharmos um de nós dizer
plantêmo-la aqui-aqui
é o meu pulso,a minha boca
é a retina com que procuras,é a madeira da porta
com que te fechas em casa.Prometo-te
eu nunca vou fechar os olhos
as mãos.
de Dos Líquidos (2000)
Entrei na sombra como alguém que via
Entrei devagar no ritmo de um salmo
E havia luz
Era uma luz como uma árvore quando cresce
E estando em flor era um dia inteiro
Entrei como sombra pela cintura como algo conquistado
Com o sangue a escorrer-me para os pés.Mas mesmo
Que não sangrasse eu entrava em triunfo
Inteiramente vencido.
Entrei para um laço sem saída porque era um nó aberto
E tinha os pés regados pelo sangue que dá vida
Tinha umas sandálias de sangue para caminhar livre
Entrei em morte sucessiva no que vive
Era a luz de uma árvore quando cresce
E se ensombra para não ficar sozinha
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
Quando eu era uma criança de muletas
Estudei o alicerce de coisas paradas
Observei as coisas que se moviam
No olhar estático das coisas que meditam.Era cirúrigico
Como o homem que opera nas pupilas as artérias do seu próprio coração.
Estudei um peregrino e outro e outro.Estavam parados
Contemplavam os passos percorridos
No perímetro da meditação.
anotei que os alicerces do movimento são líquidos
Constantes.
Primeiro líquido:a água,nas coisas altas as nuvens
E penso também nos rios.Segundo líquido: a saliva
Que curou os cegos.Terceiro líquido: a saliva
Do relâmpago,da velocidade das coisas que caem.O sétimo líquido:
o sangue do cordeiro.
Quando eu era uma criança parada
Quando não andava numa cadeira de rodas a empurrar o corpo com as mãos
Estudei o movimento dos líquidos
Segui o derrame da semente ao morrer
Caminhasse eu porém e seguiria
O fio de água no olhar de quem amei.
de Dos Líquidos (2000)
É por isso que adormeço numa luz em movimento
E escolho um espaço para ver o espaço de frente
A sua cor de silêncio nocturno e desenho
Uma maneira quieta de estar nele tranquilo
Há nesse espaço uma fonte ,um animal que desperta
Uma criança que navega com as próprias mãos.
Bebo com as mãos juntas.
Há uma voz que bebo.Há um espaço entra as mãos mas não perco
A sede.A água multiplica-se porque o tiro do coração
Que escuta.
Há um espaço no corpo que pode ser um lugar.
À sombra posso olhá-lo até o ver
Posso tocar as chagas no corpo
E posso beber dele morrendo
Nele como quem entra de tanto
O desejar.
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
Portanto farei uma escada no coração
E pelos degraus subirei da minha casa
Até bater com o pensamento no altíssimo
Apagarei os passos e o cérebro como um rasto no deserto
Sempre atento como a águia quando fixa o sol
Sem pestanejar.
Farei portanto a escada no deserto para fixar
A luz.
Da minha casa subirei sem palavra
Em silêncio,portanto,pisando o coração.
de Dos Líquidos (2000)
Calculo uma doença difícil e definitiva
Um sono que não se apaga no sono,ou melhor
Um verso parado no meio de um poema.
Imagino o poeta sem dormir e parado como um verso
No meio do poema.Imagino o poema sem dormir.
Tenta explicá-lo,compará-lo a Noé na arca
Saudoso de colocar de novo os pés descalços sobre a terra.
Penso que os animais saem de dentro das palavras
E vêm ter comigo
Que querem ter um nome como no princípio
Que querem beber.
Tu não sabes como te chamas,não sabes o nome das plantas
Esqueceste o nome dos teus irmãos
E nem mesmo a tua mãe te traz uma palavra á boca.
faço a inclinação de quem encosta o rosto ao focinho dos bichos
Com saudades do calor de uma voz que chama.
Nem mesmo eu sei dizer que terra firma lhes peço
Que alicerces fundos cavam quando pousam
As patas muito mansas sobre mim.
de Dos Líquidos (2000)
Chamavas os bois com a mão
Mais mansa. A mão
Com que adubavas a terra
Com que puxavas o banco
Para a frente da lareira
Com que me mediste
Palmo a palmo na infância.
de Dos Líquidos (2000)
Estou a um palmo da parede
O que disseste a Elias:Elias
O que fazes aqui?
Sim,alteio os meus olhos
Conto-te o que nunca escrevo nos muros
Junto-me aos animais com sede
Estou a um palmo do teu palmo e depois
Não estás nas águas nem na sede ou no teu nome
Estou a um palmo do teu silêncio e alteio
O silêncio.A boca mais alta do meu grito
de Dos Líquidos (2000)
Há uma palavra pessoa
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida
E nela dizer-se posso existir.
Só posso viver cabendo nela.
Habito-a
Como Jonas o grande peixe.
Ela pronuncia-me
Traz-me em viagem do nada para o silêncio-exemplifico-o com a luz
de um homem que ressuscita-sustenta-me
Como o jejum alimentado em Nínive
Mas também posso ser um vaso para ela
-um vaso não,outra coisa qualquer que não consigo
comparar às coisas da terra-um lugar tão verdadeiro
Que mesmo a luz em suas praças,pátios e alpendres
Só imprecisamente é capaz de assinalar
E como salva a cinza em Nínive espalhando-se
Eu posso propagá-la
E posso amá-la até me transformar.
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
Comentários (1)
extraordinário, com uma visão muito para além das palavras que são verdadeiros sentimentos que com a sua leveza nos tocam no coração
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Daniel Faria
Ao falecer, Daniel Faria tinha 28 anos, mesma idade com que morreu, por exemplo, o poeta brasileiro Torquato Neto (clique AAQQUUII). Deixara alguns livros, nos quais demonstra seu talento em vários belos poemas, com uma pesquisa interessante das possibilidades, no fim do século, de uma lírica pura, pesquisa que liga sua poesia à linhagem de alguns dos primeiros modernistas, como Juan Ramón Jiménez, Henriqueta Lisboa ou Anna Akhmátova.
A poesia em língua portuguesa está marcada, como tantas outras, por passagens meteóricas de poetas que não tiveram ou não se deram o tempo para construir aquilo que editores e historiadores literários tão facilmente chamam mais tarde de Obra. Uns deixam poucos poemas muito bonitos e ainda estimulantes, como o próprio Torquato Neto ou Pedro Kilkerry (morto aos 32 anos), outros o arco incompleto de um trabalho que se esboçava, como Mário Faustino (morto também aos 32 anos) ou Ana Cristina César (morta aos 31 anos).
Nada mais distante da poesia atormentada pela dúvida de um Torquato Neto, do que a poesia lírica de uma personalidade estóica como a que Daniel Faria parece demonstrar nestes textos. Mas nós sabemos que há tempo para tudo sob o sol, como diz o Livro de Eclesiastes, ou, parafraseando os versos de Robert Browning, que há os que levam uma vida de fé, pontilhada pela dúvida, e os que levam uma vida de dúvida, pontilhada pela fé.
--- Ricardo Domeneck
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