Daniel Faria

Daniel Faria

1971–1999 · viveu 28 anos PT PT

Daniel Faria foi um poeta brasileiro cuja obra se destaca pela intensidade lírica, pela exploração de temas existenciais e espirituais, e por uma linguagem que transita entre o sagrado e o profano. A sua poesia, marcada por uma profunda inquietação e uma busca por transcendência, revelou um talento singular que deixou uma marca indelével na literatura brasileira, apesar da sua curta vida.

n. 1971-04-10, Baltar · m. 1999-06-09, Porto

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Caminho sem pés e sem sonhos

Caminho sem pés e sem sonhos

só com a respiração e a cadência

da muda passagem dos sopros

caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes

para que a elevação e a profundidade se conjuguem.

avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
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Poemas

34

Estranho é o sono

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde. Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 188

Guarda a manhã

Tudo o mais se pode tresmalhar

Porque tu és o meio da manhã

O ponto mais alto da luz

Em explosão

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 593

Voz no vento passando

Voz no vento passando entre poeira

Edifício

Árvore noutro poema

Fico à sombra da vide e do esteio no Outono

E enxerto a luz

Em tudo o que nomeio

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 060

Sobre a água

Sobre a água estarei solto de caminhos
Dos que vierem nenhum barco é para ti
Não deixes a candeia acesa
Dorme:basta-me essa luz

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 065

Houvesse um sinal a conduzir-nos

Houvesse um sinal a conduzir-nos

E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores

A incomparável paciência de procurar o alto

A verde bondade de permanecer

E orientar os pássaros

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 835

Estranho é o sono que não te devolve.

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde.Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.

1 426

Acontecera que as coisas se destruíssem

Acontecera que as coisas se destruíssem sem que nelas sobrevivesse
E era tarde.
Sozinho em tempos não fora a falta de ninguém
E o que doía não tinha o quisto da doença
Só o espaço sereno das coisas que se deixam.
Acontecera que nada se fizera fora
Do coração.
Acontecera que passara a noite a abrir os olhos
Para não se interromper
A estender a mão para estar vivo
E certo de que nem ele próprio se abeiraria de si mesmo
Pois ocupara-se rigorosamente de ausentar-se.
Mesmo se caminhara muito devagar
Sem outro meio para esperar que o visitassem.
Ele que é agora o que nunca repousou
O que nunca encontrará o sítio do sossego
A não ser que haja o equilíbrio na vertigem
Uma luz parada no meio da voragem.
1 567

É por isso que adormeço numa luz em movimento

É por isso que adormeço numa luz em movimento
E escolho um espaço para ver o espaço de frente
A sua cor de silêncio nocturno e desenho
Uma maneira quieta de estar nele tranquilo
Há nesse espaço uma fonte ,um animal que desperta
Uma criança que navega com as próprias mãos.
Bebo com as mãos juntas.
Há uma voz que bebo.Há um espaço entra as mãos mas não perco
A sede.A água multiplica-se porque o tiro do coração
Que escuta.
Há um espaço no corpo que pode ser um lugar.
À sombra posso olhá-lo até o ver
Posso tocar as chagas no corpo
E posso beber dele morrendo
Nele como quem entra de tanto
O desejar.

de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
1 895

Entrei na sombra como alguém que via

Entrei na sombra como alguém que via
Entrei devagar no ritmo de um salmo
E havia luz
Era uma luz como uma árvore quando cresce
E estando em flor era um dia inteiro
Entrei como sombra pela cintura como algo conquistado
Com o sangue a escorrer-me para os pés.Mas mesmo
Que não sangrasse eu entrava em triunfo
Inteiramente vencido.
Entrei para um laço sem saída porque era um nó aberto
E tinha os pés regados pelo sangue que dá vida
Tinha umas sandálias de sangue para caminhar livre
Entrei em morte sucessiva no que vive
Era a luz de uma árvore quando cresce
E se ensombra para não ficar sozinha

de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
2 115

Calculo uma doença difícil e definitiva

Calculo uma doença difícil e definitiva
Um sono que não se apaga no sono,ou melhor
Um verso parado no meio de um poema.
Imagino o poeta sem dormir e parado como um verso
No meio do poema.Imagino o poema sem dormir.
Tenta explicá-lo,compará-lo a Noé na arca
Saudoso de colocar de novo os pés descalços sobre a terra.
Penso que os animais saem de dentro das palavras
E vêm ter comigo
Que querem ter um nome como no princípio
Que querem beber.
Tu não sabes como te chamas,não sabes o nome das plantas
Esqueceste o nome dos teus irmãos
E nem mesmo a tua mãe te traz uma palavra á boca.
faço a inclinação de quem encosta o rosto ao focinho dos bichos
Com saudades do calor de uma voz que chama.
Nem mesmo eu sei dizer que terra firma lhes peço
Que alicerces fundos cavam quando pousam
As patas muito mansas sobre mim.

de Dos Líquidos (2000)
1 589

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agostinho sousa
agostinho sousa

extraordinário, com uma visão muito para além das palavras que são verdadeiros sentimentos que com a sua leveza nos tocam no coração