Inspirações do claustro (trechos)
Aqui – já era noite... eu reclinei-me
Nas moles formas do virgíneo seio:
Aqui – sobre ela eu meditei amores
Em doce devaneio.
Aqui – inda era noite... eu tive uns sonhos
De monstruosa, de infernal luxúria:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Em amorosa fúria.
...
Aqui – era manhã... via-a sentada
Sobre o sofá – voluptuosa um pouco:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Alucinado e louco.
...
Aqui – oh quantas vezes! ... eu a tive
Unida a mim – a derreter-se em ais:
Aqui – ela ensinou-me a ter mais vida,
Sentir melhor e mais.
Aqui – oh quantas vezes!... eu a tive
Em acessos de amor desfalecida!
Lasciva e nua – a me exigir mais gostos
Por sobre mim caída!
A ironia dos vermes
Eu imagino que és uma princesa
Morta na flor da castidade branca...
Que teu cortejo sepulcral arranca
Por tanta pompa espasmos de surpresa.
Que tu vais por um coche conduzida,
Por esquadrões flamívomos guardada,
Como carnal e virgem madrugada,
Bela das belas, sem mais sol, sem vida.
Que da Corte os luzidos Dignitários
Com seus aspectos marciais, bizarros,
Seguem-te após nos fagulhantes, carros
E a excelsa cauda dos cortejos vários.
Que a tropa toda forma nos caminhos
Por onde irás passar indiferente;
Que há no semblante vão de toda a gente
Curiosidades que parecem vinhos.
Que os potentes canhões roucos atroam
O espaço claro de uma tarde suave,
E que tu vais, Lírio dos lírios e ave
Do Amor, por entre os sons que te coroam.
Que nas flores, nas sedas, nos veludos,
E nos cristais do féretro radiante
Nos damascos do Oriente, na faiscante
Onda de tudo há longos prantos mudos.
Que do silêncio azul da imensidade,
Do perdão infinito dos Espaços
Tudo te dá os beijos e os abraços
Do seu adeus a tua Majestade.
Que de todas as coisas como Verbo
De saudades sem termo e de amargura,
Sai um adeus a tua formosura,
Num desolado sentimento acerbo
Que o teu corpo de luz, teu corpo amado,
Envolto em finas e cheirosas vestes,
Sob o carinho das Mansões celestes
Ficará pela Morte encarcerado.
Que o teu séquito é tal, tal a coorte,
Tal o sol dos brasões, por toda a parte,
Que em vez da horrenda Morte suplantar-te
Crê-se que és tu que suplantaste a Morte.
Mas dos faustos mortais a regia trompa,
Os grandes ouropéis, a real Quermesse,
Ah! tudo, tudo proclamar parece
Que hás de afinal apodrecer com pompa.
Como que foram feitos de luxúria
E gozo ideal teus funerais luxuosos
Para que os vermes, pouco escrupulosos,
Não te devorem com plebéia fúria.
Para que eles ao menos vendo as belas
Magnificências do teu corpo exausto
Mordam-te com cuidados e cautelas
Para o teu corpo apodrecer com fausto.
Para que possa apodrecer nas frias
Geleiras sepulcrais d'esquecimentos,
Nos mais augustos apodrecimentos,
Entre constelações e pedrarias.
Mas ah! quanta ironia atroz, funérea,
Imaginária e cândida Princesa:
És igual a uma simples camponesa
Nos apodrecimentos da Matéria!
Tédio
Vala comum de corpos que apodrecem,
E esverdeada gangrene
Cobrindo vastidões que fosforescem
Sobre a esfera terrena.
Bocejo torvo de desejos turvos,
Languescente bocejo
De velhos diabos de chavelhos curvos
Rugindo de desejo.
Sangue coalhado, congelado, frio,
Espasmado nas veias
Pesadelo sinistro de algum rio
De sinistras sereias.
Alma sem rumo, a modorrar de sono,
Mole, túrbida, lassa.
Monotonias lúbricas de um mono
Dançando numa praça.
Mudas epilepsias, mudas, mudas,
Mudas epilepsias,
Masturbações mentais, fundas, agudas,
Negras nevrostenias.
Flores sangrentas do soturno vício
Que as almas queima e morde..
Música estranha de fetal suplício,
Vago, mórbido acorde.
Noite cerrada para o Pensamento
Nebuloso degredo
Onde em cavo clangor surdo do vento
Rouco pragueja o medo.
Plaga vencida por tremendas pragas,
Devorada por pestes,
Esboroada pelas rubras chagas
Dos incêndios celestes.
Sabor de sangue, Lágrimas e terra
Revolvida de fresco,
Guerra sombria dos sentidos, guerra,
Tantalismo dantesco.
Silêncio carregado e fundo e denso
Como um poço secreto,
Dobre pesado, carrilhão imenso
Do segredo inquieto.
Florescência do Mal, hediondo parto
Tenebroso do crime,
Pandemonium feral de ventre farto
Do Nirvana sublime.
Delírio contorcido, convulsivo
De felinas serpentes,
No silamento e no mover lascivo
Das caudas e dos dentes.
Porco lúgubre, lúbrico, trevoso
Do tábido pecado,
Fuçando colossal, formidoloso
Nos lodos do passado.
Ritmos de forças e de graças mortas,
Melancólico exílio,
Difusão de um mistério que abre portas
Para um secreto idílio.
Ócio das almas ou requinte delas,
Quint'essências, velhices
De luas de nevroses amarelas,
Venenosas meiguices.
Insônia morna e doente dos Espaços,
Letargia funérea,
Vermes, abutres a correr pedaços
Da carne deletéria.
Um misto de saudade e de tortura,
De lama, de ódio e de asco,
Carnaval infernal da Sepultura,
Risada do carrasco.
Ó tédio amargo, ó tédio dos suspiros,
Ó tédio d'ansiedades!
Quanta vez eu não subo nos teus giros
Fundas eternidades!
Quanta vez envolvido do teu luto
Nos sudários profundos
Eu, calado, a tremer, ao longe, escuto
Desmoronarem mundos!
Os teus soluços, todo o grande pranto,
Taciturnos gemidos,
Fazem gerar flores de amargo encanto
Nos corações doridos.
Tédio! que pões nas almas olvidadas
Ondulações de abismo
E sombras vesgas, lívidas, paradas,
No mais feroz mutismo!
Tédio do Réquiem do Universo inteiro,
Morbus negro, nefando,
Sentimento fatal e derradeiro
Das estrelas gelando.
O Tédio! Rei da Morte! Rei boêmio!
Ó Fantasma enfadonho!
És o sol negro, o criador, o gêmeo,
Velho irmão do meu sonho!
Pandemonium
a Maurício Jubim
Em fundo de tristeza e de agonia
O teu perfil passa-me noite e dia.
Aflito, aflito, amargamente aflito,
Num gesto estranho que parece um grito.
E ondula e ondula e palpitando vaga,
Como profunda, como velha chaga.
E paira sobre ergástulos e abismos
Que abrem as bocas cheias de exorcismos.
Com os olhos vesgos, a flutuar de esguelha,
Segue-te atrás uma visão vermelha.
Uma visão gerada do teu sangue
Quando no Horror te debateste exangue,
Uma visão que é tua sombra pura
rodando na mais trágica tortura.
A sombra dos supremos sofrimentos
Que te abalaram como negros ventos.
E a sombra as tuas voltas acompanha
Sangrenta, horrível, assombrosa, estranha.
E o teu perfil no vácuo perpassando
Vê rubros caracteres flamejando.
Vê rubros caracteres singulares
De todos os festins de Baltazares.
Por toda a parte escrito em fogo eterno:
Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno!
E os emissários espectrais das mortes
Abrindo as grandes asas flamifortes...
E o teu perfil oscila, treme, ondula,
Pelos abismos eternais circula...
Circula e vai gemendo e vai gemendo
E suspirando outro suspiro horrendo.
E a sombra rubra que te vai seguindo
Também parece ir soluçando e rindo.
Ir soluçando, de um soluço cavo
Que dos venenos traz o torvo travo.
Ir soluçando e rindo entre vorazes
Satanismos diabólicos, mordazes.
E eu já nem sei se e realidade ou sonho
Do teu perfil o divagar medonho.
Não sei se e sonho ou realidade todo
Esse acordar de chamas e de lodo.
Tal é a poeira extrema confundida
Da morte a raios de ouro de outra Vida.
Tais são as convulsões do último arranco
Presas a um sonho celestial e branco.
Tais são os vagos círculos inquietos
Dos teus giros de lágrimas secretos.
Mas, de repente, eis que te reconheço,
Sinto da tua vida o amargo preço.
Eis que te reconheço escravizada,
Divina Mãe, na Dor acorrentada.
Que reconheço a tua boca presa
Pela mordaça de uma sede acesa
Presa, fechada pela atroz mordaça
Dos fundos desesperos da Desgraça.
Eis que lembro os teus olhos visionários
Cheios do fel de bárbaros Calvários.
E o teu perfil asas abrir parece
Para outra Luz onde ninguém padece...
Com doçuras feéricas e meigas
De Satãs juvenis, ao luar, nas veigas.
E o teu perfil forma um saudoso vulto
Como de Santa sem altar, sem culto.
Forma um vulto saudoso e peregrino
De força que voltou ao seu destino.
De ser humano que sofrendo tanto
Purificou-se nos Azuis do Encanto.
Subiu, subiu e mergulhou sozinho,
Desamparado, no fetal caminho.
Que lá chegou transfigurado e aéreo,
Com os aromas das flores do Mistério.
Que lá chegou e as mortas portas mudas
Fez abalar de imprecações agudas...
E vai e vai o teu perfil ansioso,
De ondulações fantásticas, brumoso.
E vai perdido e vai perdido, errante,
Trêmulo, triste, vaporoso, ondeante.
Vai suspirando, num suspiro vivo
Que palpita nas sombras incisivo...
Um suspiro profundo, tão profundo
Que arrasta em si toda a paixão do mundo.
Suspiro de martírio, de ansiedade,
De alívio, de mistério, de saudade.
Suspiro imenso, aterrador e que erra
Por tudo e tudo eternamente aterra...
O pandemonium de suspiros soltos
Dos condenados corações revoltos.
Suspiro dos suspiros ansiados
Que rasgam peitos de dilacerados.
E mudo e pasmo e compungido e absorto,
Vendo o teu lento e doloroso giro,
Fico a cismar qual é o rio morto
Onde vai divagar esse suspiro.
A flor do diabo
Branca e floral como um jasmim-do-Cabo
Maravilhosa ressurgiu um dia
A fatal Criação do fuIvo Diabo,
Eleita do pecado e da Harmonia.
Mais do que tudo tinha um ar funesto,
Embora tão radiante e fabulosa.
Havia sutilezas no seu gesto
De recordar uma serpente airosa.
Branca, surgindo das vermelhas chamas
Do Inferno inquisidor, corrupto e langue,
Ela lembrava, Flor de excelsas famas,
A Via-Láctea sobre um mar de sangue.
Foi num momento de saudade e tédio,
De grande tédio e singular Saudade,
Que o Diabo, já das culpas sem remédio,
Para formar a egrégia majestade,
Gerou, da poeira quente das areias
Das praias infinitas do Desejo,
Essa langue sereia das sereias,
Desencantada com o calor de um beijo.
Sobre galpões de sonho os seus palácios
Tinham bizarros e galhardos luxos.
Mais grave de eloqüência que os Horácios,
Vivia a vida dos perfeitos bruxos.
Sono e preguiça, mais preguiça e sono,
Luxúrias de nababo e mais luxúrias,
Moles coxins de lânguido abandono
Por entre estranhas florações purpúreas.
Às vezes, sob o luar, nos rios mortos,
Na vaga ondulação dos lagos frios,
Boiavam diabos de chavelhos tortos,
E de vultos macabros, fugidios.
A lua dava sensações inquietas
As paisagens avérnicas em torno
E alguns demônios com perfis de ascetas
Dormiam no luar um sono morno...
Foi por horas de Cisma, horas etéreas
De magia secreta e triste, quando
Nas lagoas letíficas, sidéreas,
O cadáver da lua vai boiando...
Foi numa dessas noites taciturnas
Que o velho Diabo, sábio dentre os sábios,
Desencantado o seu poder das furnas,
Com o riso augusto a flamejar nos lábios,
Formou a flor de encantos esquisitos
E de essências esdrúxulas e finas,
Pondo nela oscilantes infinitos
De vaidades e graças femininas.
E deu-lhe a quint'essência dos aromas,
Sonoras harpas de alma, extravagancias,
Pureza hostial e púbere de pomas,
Toda a melancolia das distancias...
Para haver mais requinte e haver mais viva,
Doce beleza e original carícia,
Deu-lhe uns toques ligeiros de ave esquiva
E uma auréola secreta de malícia.
Mas hoje o Diabo já senil, já fóssil,
Da sua Criação desiludido,
Perdida a antiga ingenuidade dócil,
Chora um pranto noturno de Vencido.
Como do fundo de vitrais, de frescos
De góticas capelas isoladas,
Chora e sonha com mundos pitorescos,
Na nostalgia das Regiões Sonhadas.
Asas Abertas
As asas da minh'alma estão abertas!
Podes te agasalhar no meu Carinho,
Abrigar-te de frios no meu Ninho
Com as tuas asas trêmulas, incertas.
Tu'alma lembra vastidões desertas
Onde tudo é gelado e é só espinho.
Mas na minh'alma encontrarás o Vinho
e as graças todas do Conforto certas.
Vem! Há em mim o eterno Amor imenso
Que vai tudo florindo e fecundando
E sobe aos céus como sagrado incenso.
Eis a minh'alma, as asas palpitando
Com a saudade de agitado lenço
O segredo dos longes procurando...
Publicado no livro Últimos sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e notas Adriano da Gama Kury. Est. liter. Julio Castañon Guimarães. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 198