Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

1861–1898 · viveu 36 anos BR BR

João da Cruz e Sousa foi um poeta brasileiro, figura proeminente do Simbolismo, conhecido pelo seu nome de artista Cruz e Sousa. A sua obra poética é marcada por uma profunda espiritualidade, misticismo, musicalidade e um uso inovador da linguagem, explorando o transcendente e o etéreo. Enfrentou o preconceito racial e a pobreza ao longo da sua vida, o que se reflete na sua escrita com temas de dor, sofrimento e busca pela redenção através da arte.

n. 1861-11-24, Florianópolis · m. 1898-03-19, Antônio Carlos

396 192 Visualizações

LIVRE

Últimos Sonetos

Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.

Ler poema completo

Poemas

66

SUPREMO VERBO

Últimos Sonetos

- Vai, Peregrino do caminho santo,
faz da tu'alma lâmpada do cego,
iluminando, pego sobre pego,
as invisíveis amplidões do Pranto.

Ei-lo, do Amor o cálix sacrossanto!
Bebe-o, feliz, nas tuas mãos o entrego...
És o filho leal, que eu não renego,
que defendo nas dobras do meu manto.

Assim ao Poeta a Natureza fala!
enquanto ele estremece ao escutá-la,
transfigurado de emoção, sorrindo...

Sorrindo a céus que vão se desvendando,
a mundos que se vão multiplicando,
a portas de ouro que se vão abrindo!

2 847

QUANDO SERÁ?!

Últimos Sonetos

Quando será que tantas almas duras
em tudo, já libertas, já lavadas
nas águas imortais, iluminadas
do sol do Amor, hão de ficar bem puras?

Quando será que as límpidas frescuras
dos claros raios de ondas estreladas
dos céus do Bem, hão de deixar clareadas
almas vis, almas vãs, almas escuras?

Quando será que toda a vasta Esfera,
toda esta constelada e azul Quimera,
todo este firmamento estranho e mudo,

tudo que nos abraças e nos esmaga,
quando será que uma resposta vaga,
mas tremenda, hão de dar de tudo, tudo?!

2 154

PRODÍGIO!

Últimos Sonetos

Como o Rei Lear não sentes a tormenta
que te desaba na fatal cabeça!
(Que o céu d'estrelas todo resplandeça.)
A tua alma, na Dor, mais nobre aumenta.

A Desventura mais sanguinolenta
sobre os teus ombros impiedosa desça,
seja a treva mais funda e mais espessa,
Todo o teu ser em músicas rebenta.

Em músicas e em flores infinitas
de aromas e de formas esquisitas
e de um mistério singular, nevoento...

Ah! só da Dor o alto farol supremo,
consegue iluminar, de extremo a extremo,
o estranho mar genial do Sentimento!

1 820

COGITAÇÃO

Últimos Sonetos

Ah! mas então tudo será baldado?!
Tudo desfeito e tudo consumido?!
No Ergástulo d'ergástulos perdido
tanto desejo e sonho soluçado?!

Tudo se abismará desesperado,
do desespero do Viver batido,
na convulsão de um único Gemido
nas entranhas da Terra concentrado?!

Nas espirais tremendas dos suspiros
a alma congelará nos grandes giros,
rastejará e rugirá rolando?!

Ou, entre estranhas sensações sombrias,
melancolias e melancolias,
no eixo da alma de Hamlet irá girando ?!

1 536

Glória!

Últimos Sonetos

Florescimentos e florescimentos!
Glória às estrelas, glória às aves, glória
à natureza! Que a minh'alma flórea
em mais flores flori de sentimentos.

Glória ao Deus invisível dos nevoentos
espaços! glória à lua merencória,
glória à esfera dos sonhos, à ilusória
esfera dos profundos pensamentos.

Glória ao céu, glória à terra, glória ao mundo!
todo o meu ser é roseiral fecundo
de grandes rosas de divino brilho.

Almas que floresceis no Amor eterno!
vinde gozar comigo este falerno,
esta emoção de ver nascer um filho!
2 324

CONCILIAÇÃO

Últimos Sonetos

Se essa angústia de amar te crucifica,
não és da Dor um simples fugitivo:
ela marcou-te com o sinete vivo
da sua estranha majestade rica.

És sempre o Assinalado ideal que fica
sorrindo e contemplando o céu altivo;
dos Compassivos és o Compassivo,
na Transfiguração que glorifica.

Nunca mais de tremer terás direito...
Da Natureza todo o Amor perfeito
adorarás, venerarás contrito.

Ah! Basta encher, eternamente basta
encher, encher toda esta Esfera vasta
da convulsão do teu soluço aflito!

2 122

GRANDEZA OCULTA

Últimos Sonetos

Estes vão para as guerras inclementes,
os absurdos heróis sanguinolentos,
alvoroçados, tontos e sedentos
do clamor e dos ecos estridentes.

Aqueles para os frívolos e ardentes
prazeres de acres inebriamentos:
vinhos, mulheres, arrebatamentos
de luxúrias carnais, impenitentes.

Mas Tu, que na alma a imensidade fechas,
que abriste com teu Gênio fundas brechas
no mundo vil onde a maldade exulta,

ó delicado espírito de Lendas!
fica nas tuas Graças estupendas,
no sentimento da grandeza oculta!

1 331

Olhos

A Grécia d’Arte, a estranha claridade
D’aquela Grécia de beleza e graça,
Passa, cantando, vai cantando e passa
Dos teus olhos na eterna castidade.

Toda a serena e altiva heroicidade
Que foi dos gregos a imortal couraça,
Aquele encanto e resplendor de raça
Constelada de antiga majestade,

Da Atenas flórea toda o viço louro,
E as rosas e os mirtais e as pompas d’ouro,
Odisséias e deuses e galeras...

Na sonolência de uma lua aziaga,
Tudo em saudade nos teus olhos vaga,
Canta melancolias de outras eras!...


Publicado no livro Faróis (1900). Segundo de uma série de sete sonetos sobre o corpo feminino.
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinenses de Cultura, 1985. p.90
2 487

A UMA ATRIZ

trechos do
poema O Botão de Rosa

Era um botão feliz,
Cuia roseira, impávida,
Ébria de aromas bons, ébria de orgulhos - ávida
De completa fragrância,
Palpitava com ânsia
Desde a própria raiz.

Tardes formosíssimas,
Ó grande livro aberto aos geniais artistas,
Como tanto alargais as crenças panteístas,
Como tanto esplendeis e como sois riquíssimas.

O cérebro em nevrose,
No pasmo que precede a augusta apoteose
De uma excelsa visão perfeitamente bela,
De uma excelsa visão em límpidos docéis,
Exaltava o acabado artístico da Tela
E o gosto dos pincéis.

A arte especialmente, esse prodígio, atriz,
Como o botão de rosa
Tão meigo e tão feliz,
Pode ser arrojada e brutalmente, ao pego,
Na treva silenciosa,
Onde o espírito vai, atordoado e cego,
Cair, entre soluços,
Como um colosso ideal tombado ao chão de bruços,
Ou pode equilibrar-se em admirável base
Estética e profunda,
Assim, bem como o outro, à mais radiosa altura.

Deves sondá-la bem nesta segunda fase.
Precisas para isso uma alma mais fecunda.
Precisas de sentir a artística loucura...

803

O ASSINALADO

Tu és o Louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tualma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco.

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

1 893

Obras

1

Comentários (4)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Josias Pereira
Josias Pereira

Para quem n entendeu, ele ta falando de, atenção - tire as crianças da sala - sexo.

niro
niro

cala a boca cuié vai lavar a louça

JCDINARDO

Meu poeta preferido. A musicalidade e o ambiente de sonhos de seus versos me fascinam e inspiram.

Maria:)
Maria:)

Que pena que ele morreu era muito bom em poesia